Calendário de vacinação para idosos precisa melhorar, avaliam especialistas
Adobe Stock
São Paulo - Enquanto, a maior preocupação sobre a cobertura vacinal do governo federal foca no público infantil, a população idosa ainda tem disponível um calendário de imunização gratuita precário, avaliam especialistas ouvidos pelo VIVA. A discussão se torna mais relevante neste Dia Nacional da Imunização, lembrado nesta terça-feira, 9. A data funciona como um marco de conscientização criada pelo Ministério da Saúde do Brasil.
Leia também
Envelhecimento e vacinação
Tendo em vista o contexto atual de vacinação no Brasil e segmentando para o público idoso, a diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Isabella Ballalai, avalia que a estratégia de imunização não é adequada, principalmente levando em conta o envelhecimento populacional.
São calendários antigos, de décadas e décadas, mesmo os das crianças, que é o foco maior - o que não está errado. Mas quando a gente fala de adulto e idoso, a indicação de vacinação é muito pobre para cada uma dessas faixa etária de 20 a 59 anos e maior de 60”, analisa a especialista.
A chefe do Departamento de Assuntos Médicos, Estudos Clínicos e Vigilância Pós-Registro de Bio-Manguinhos (Fiocruz), Lurdinha Maia reforça que a vacinação não é apenas pauta pediátrica, mas sim uma estratégia de envelhecimento saudável.
”A campanha global da Semana Mundial da Imunização 2026 enfatiza que vacinas funcionam para todas as gerações”, destaca a especialista.
A desatualização da estratégia de vacinação passa por burocracias. A diretora da SBIm avalia que, enquanto a própria sociedade médica recomenda uma expansão de proteção para esse grupo, o governo foca ainda em ações de custo-benefício no campo da imunização, priorizando vacinas modernas para pacientes especiais – aqueles com doenças crônicas graves atendidos em Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais (Cries).
Nesse contexto, a especialista da Fiocruz aponta um outro gargalo: a necessidade de treinamento contínuo das equipes nas salas de vacina.
Muitas vezes, a oportunidade de vacinar o idoso é perdida por desconhecimento do profissional sobre esquemas de doses e recomendações específicas para comorbidades”.
Falta de informação
Além das barreiras burocráticas e técnicas, a cobertura vacinal em idosos enfrenta obstáculos comportamentais e sociais. Um dos pontos mais críticos é que o maior entrave não é apenas a desinformação, mas a falta de informação oficial.
“Muitos idosos desconhecem que têm direito a vacinas gratuitas no SUS, como a de Hepatite B”, destaca Ballalai.
A diretora da SBIm destaca também que os idosos desconhecem as restrições de acesso a alguns imunizantes, como a Pneumo (VPPV23), voltada para a pneumonia, que não é oferecida universalmente para qualquer idoso no calendário de rotina do Ministério da Saúde. "Ela é direcionada especificamente para pessoas que vivem em Instituições de Longa Permanência para idosos (ILPI) e povos indígenas. Além disso, ela protege por apenas 3 a 4 anos”, alerta Ballalai.
Lurdinha Maia destaca ainda que muitos adultos e idosos desconhecem quais vacinas são recomendadas nessa fase da vida. “Eles também acreditam que só precisam procurar os serviços de saúde quando já estão doentes”, observa.
Vacinas que ainda não fazem parte do calendário vacinal para idosos incluem a Herpes Zóster (VZR) e a vacina contra o Vírus Sincicial Respiratório (VSR) – mesmo essa doença afetando prioritariamente idosos e representando 44,5% dos casos positivos em 18 estados em maio e mantendo uma alta taxa de contaminação nos últimos meses, de acordo com relatório do InfoGripe.
Influenza
Levando em conta somente a vacinação contra a influenza, em 2024, a cobertura no Brasil foi de apenas 55,1%, um índice 5% menor que o ano anterior e muito distante da meta de 90% estabelecida pelo Ministério da Saúde, segundo análise feita em nota técnica da SBIm.
Ballalai destaca a influenza como uma das principais causas de hospitalização e morte em idosos, devido à imunossenescência – o envelhecimento natural do sistema imune que resulta em uma perda importante da capacidade imunológica do indivíduo com o passar dos anos.
”Somado ao enfraquecimento das defesas, o idoso vive em um estado de inflamação natural, o que agrava sua condição de vulnerabilidade e os torna grupo de risco para vírus respiratórios como VSR e influenza”, adiciona Ballalai.
Saídas
Para reverter esse quadro, a diretora da SBIm defende que a comunicação deve ser simplificada e direta, utilizando ferramentas como o WhatsApp ou SMS de forma efetiva com o idoso, ferramentas que hoje já fazem parte da rotina digital da população.
Maia, da Ficruz, sugere que, como a vacinação de adultos depende da busca ativa pelos serviços de saúde, a conscientização individual de risco deve ser estimulada para que a população não procure os postos apenas quando já estiver doente.
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.