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Turismo de ancestralidade transforma viagens em resgate da identidade

Reprodução / Instagram @dricadivina

Viagens deixam de focar em pontos turísticos e se tornam uma forma de reconectar famílias à identidade - Reprodução / Instagram @dricadivina
Viagens deixam de focar em pontos turísticos e se tornam uma forma de reconectar famílias à identidade

São Paulo - O turismo de ancestralidade surgiu como um movimento de reconexão. Mais do que visitar destinos turísticos convencionais, essa forma de viajar busca resgatar origens, histórias e memórias apagadas ao longo do tempo. 

A influenciadora Adriana Tabuti, conhecida como Drica Divina nas redes sociais, dividiu com seus seguidores uma viagem para a Croácia, de onde o pai fugiu durante um governo fascista destituído em 1991 para reconstruir a vida no Brasil.

Além dos cartões postais das cidades, também visitou a rua onde a família morava e a faculdade que o avô se formou em química. "Só conhecendo as nossas origens, a gente honra os nossos antepassados, as dificuldades que eles passaram para a gente estar aqui", disse Drica sobre a volta às raízes.

Voltar para si para entender quem é. Por que sou assim? Quando fui conhecer minhas origens, o país de onde meus avós e pai vieram, foi um resgate de mim mesma.".
Universidade de Viena (Universitat Wien), onde o avô de Drica se formou em química em 1925
Universidade de Viena (Universitat Wien), onde o avô de Drica se formou em química em 1925 - Reprodução / Instagram @dricadivina

No Brasil, esse movimento de retorno à ancestralidade ganha força na comunidade afro-brasileira, na medida em que a busca pela identidade deixa de ser apenas uma reflexão individual e passa a ocupar roteiros imersivos pelo país e pelo mundo.

De acordo com Antonio Pita, CCO e cofundador da Diaspora.Black, esse avanço acompanha o amadurecimento das discussões sobre representatividade e diversidade. A maior presença da cultura afro-brasileira na mídia, nas produções audiovisuais e no debate público estimulou um desejo coletivo de aprofundamento.

As pessoas não buscam apenas a beleza de festas tradicionais ou o apelo dos pontos turísticos; há um interesse real em compreender a história, os símbolos e a dimensão espiritual que sustentam esses territórios.

O Brasil abriga mais de 2 milhões de imigrantes, entre residentes, temporários, refugiados e solicitantes de reconhecimento da condição de refugiado, de acordo com o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP). São aproximadamente 200 nacionalidades diferentes.

Visibilidade cultural

Essa curiosidade é frequentemente despertada pela cultura de massa. O lançamento de novelas, produções audiovisuais de impacto ou até desfiles de carnaval, como o samba-enredo sobre o Bembé do Mercado na Bahia, geram picos imediatos de busca por esses lugares.

A mídia e a ficção funcionam como gatilhos que levam o público a querer experimentar, na vida real, a história de cada território.

Antonio Pita, CCO e cofundador da Diaspora.Black
Antonio Pita, CCO e cofundador da Diaspora.Black - Foto: Divulgação

O especialista ressalta que o perfil de quem busca essas rotas reflete a própria estrutura de liderança desse movimento: as mulheres são maioria na procura por roteiros imersivos.

A viagem funciona como um fortalecimento de autoestima e de pertença, onde o contato com a própria história oferece recursos para encarar os desafios do presente. Trata-se de uma busca por acolhimento e por experiências autênticas que alimentam a identidade.

Antonio ressalta ainda que a busca pelas origens não exige, necessariamente, o retorno ao continente africano, por exemplo. Pela história da dispersão e preservação cultural no Brasil, destinos como Salvador, São Luís, Rio de Janeiro ou mesmo circuitos urbanos em São Paulo guardam marcas expressivas dessa herança na culinária, na religiosidade e nas tradições. O país, inclusive, atrai estrangeiros que buscam aqui memórias vivas preservadas ao longo dos séculos.

Por se tratar de uma jornada profunda, o turismo de ancestralidade demanda abertura. Ao caminhar por esses territórios, o visitante encontra momentos de celebração, mas também se depara com traumas históricos coletivos. Compreender esses caminhos transforma o ato de viajar em um processo de conhecimento, pertencimento e cura.

Revisitar origens na maturidade

Para Drica, uma parte importante desse resgate histórico que fez das suas origens foi a maturidade. Aos 55 anos, ela afirma que conhecer os antepassados a fez refletir sobre legado, valores e autoestima. "Ao visitar esses lugares nesta fase de vida, você começa a se entender e reconhecer mais".

Isso me ajudou a entender quais as histórias que tornaram tornaram possível a minha existência. É um exercício de identidade, de gratidão e de pertencimento", disse.

Busca pela cidadania

Outro movimento que ajuda na busca pela ancestralidade é a procura pela  cidadania e, neste sentido, a italiana vem se consolidando também como um resgate da história da família. Após identificarem o comune de origem, muitos passam a pesquisar a história local, conhecer tradições regionais, culinária, dialetos e até visitar os municípios onde nasceram seus familiares. 

Em diversos casos, descendentes conseguem localizar parentes distantes que ainda vivem na Itália, estabelecer novos vínculos familiares e compreender aspectos culturais que permaneceram presentes, mesmo após mais de um século da imigração.

Esse reencontro ajuda a explicar por que o reconhecimento da cidadania italiana tem sido visto, cada vez mais, como um processo de reconexão com a própria identidade.

Mas este não é um movimento apenas italiano, Drica, por exemplo, renovou o passaporte croata e agora está no processo de busca pela sua cidadania.

Muitas famílias conseguem retroceder mais de cinco ou seis gerações, descobrindo cidades de origem, profissões exercidas pelos antepassados, datas de nascimento e casamento, além de documentos históricos que permaneceram desconhecidos durante décadas.

Esse trabalho vai além do reconhecimento jurídico da cidadania. Ao organizar documentos, fotografias e certidões, muitas famílias passam a preservar um patrimônio histórico que poderá ser transmitido às futuras gerações.

"O processo documental preserva uma memória que poderia simplesmente desaparecer. Muitas famílias nunca tiveram acesso à história completa dos seus bisavós ou trisavós. Quando conseguimos reconstruir essa trajetória, criamos um legado que permanece para filhos, netos e bisnetos. É um patrimônio cultural da própria família", destaca Vinícius Gama, sócio-fundador da Pátria Cidadania.

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