Quando o sonho de ter netos vira frustração; como lidar com a situação
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São Paulo - Ter filhos já não é encarado como uma etapa obrigatória da vida por uma parcela crescente dos adultos mais jovens. A mudança, impulsionada por fatores econômicos, culturais e individuais, também têm alterado a dinâmica familiar, especialmente quando pais alimentam a expectativa de se tornarem avós e se deparam com filhos que optam por não formar uma família com crianças.
Pesquisas mostram que a decisão de permanecer sem filhos está relacionada a diferentes motivos, como prioridade à carreira, preocupações financeiras, insegurança sobre o futuro e, em muitos casos, a ausência do desejo de exercer a maternidade ou a paternidade.
Comemorado neste 26 de julho, o Dia dos Avós, com origem na decisão do Papa Paulo VI, que fixou a data litúrgica de Santa Ana e São Joaquim, avós de Jesus, no século XX, levanta debates sobre pais que sonham em ter netos.
Especialistas ouvidos pelo VIVA apontam que a frustração dos pais diante dessa escolha pode gerar conflitos familiares quando se transforma em cobrança, afetando a saúde mental de todos os envolvidos.
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Um levantamento do Pew Research Center identificou que, entre adultos de 18 a 49 anos que afirmam ser improvável terem filhos, 57% disseram simplesmente não querer ser pais. Outros 44% preferem dedicar mais tempo à carreira ou a interesses pessoais.
Também aparecem como motivos as preocupações com a situação do mundo (38%), os custos de criar uma criança (36%) e questões ambientais (26%). O estudo inclui grande parte da Geração Z, formada por jovens adultos entre 18 e 27 anos no período da pesquisa. Já para pessoas com mais de 50 anos, o principal motivo é que "simplesmente não aconteceu".
Segundo o psiquiatra Guido Boabaid May, essa mudança representa uma transformação na forma como a sociedade enxerga a parentalidade. Para ele, fatores como o custo financeiro, emocional e até o impacto nos relacionamentos passaram a ser considerados antes da decisão de ter filhos.
Muitas pessoas decidem priorizar, por exemplo, a carreira, o relacionamento, a liberdade, viagens ou investimento financeiro em outros ativos que não um filho, ou simplesmente reconhecem o desejo de não ter filhos", disse.
O especialista destaca ainda que essa escolha não significa falta de maturidade, egoísmo ou incapacidade de demonstrar afeto, mas apenas diferentes formas de realização pessoal.
Quando o desejo por netos deixa de ser saudável?
Os especialistas ressaltam que desejar ser avô ou avó é natural. O problema surge quando essa expectativa passa a ser tratada como obrigação dos filhos. De acordo com Guido Boabaid May, sinais de alerta aparecem quando o tema domina constantemente as conversas familiares, provocando ansiedade e sofrimento no casal que decidiu não ter filhos.
Frases do tipo ‘Depois de tudo que eu fiz por você, eu mereço um neto’ ou ‘Você está me privando de ser avô enquanto eu ainda posso’. A dificuldade do avô ou do casal de avós é entender e negociar consigo mesmo que o seu filho, a sua nora, o seu genro ou a sua filha têm o direito de escolher se vão ter filhos ou não."
Nesses casos, o desafio é aprender a lidar com a própria frustração sem comprometer o vínculo familiar.
Pressão pode afetar a saúde mental
A insistência para que os filhos tenham filhos também pode trazer consequências emocionais importantes. Segundo Nathalia Lima, psicóloga clínica graduada pela Unesp, muitas pessoas que optam por não ter filhos relatam ansiedade e medo de decepcionar os pais.
“Isso traz culpa excessiva e uma noção de que não há escolha, porque o filho pode acabar sentindo que só será amado se der netos. Sem falar que há filhos que não conseguem sustentar o próprio desejo, do tipo ‘eu não vou formar uma família’, não conseguem dizer isso e transmitir aos pais e acabam se colocando numa vida em que não queriam estar", destaca.
Quando a escolha é constantemente questionada, podem surgir dúvidas sobre as próprias decisões, sensação de perda de autonomia e conflitos tanto entre pais e filhos quanto dentro do próprio relacionamento do casal. Em situações mais intensas, o quadro pode contribuir para sintomas de ansiedade e depressão.
Ideia do 'legado familiar'
Outro aspecto frequentemente presente nessas discussões é a ideia de continuidade da família. Para Guido Boabaid May, o desejo de deixar um legado está relacionado à consciência de que a vida é finita. Muitas pessoas associam esse legado ao nascimento de netos, mas essa não é a única forma de transmitir valores ou construir uma história familiar.
O legado não se resume necessariamente a deixar um neto ou outro representante biológico. Ele pode ser deixado na forma de uma obra, de um legado pessoal de valores, de cultura, de contribuição social ou de uma empresa.”
Essa avaliação também é compartilhada por Nathalia Lima, que destaca que cada geração constrói seus próprios valores e projetos de vida.
“Isso passa a ser um problema quando esses pais percebem que ser avô é o único sentido da vida, a única coisa que faz sentido, ou, por exemplo, quando têm dificuldade de entender que o filho é diferente deles, que o filho tem direito à autonomia e a construir a própria vida, e que não é uma extensão", afirma.
Diálogo é apontado como principal caminho
Para os especialistas, o desafio das famílias não está em eliminar sentimentos de frustração ou tristeza, mas em reconhecer que eles podem coexistir com o respeito às escolhas individuais.
É natural ter o desejo de ser avô, mas a decisão é do seu filho e do seu cônjuge — ou da sua filha e do seu cônjuge. Eles têm autonomia e vão exercer essa autonomia. E o seu desafio, como avô, é lidar com a decisão e com a opção deles e com a sua própria frustração, que também pode ser natural", explica Guido Boabaid May.
O consenso entre os profissionais é que relações familiares saudáveis dependem da capacidade de conversar sobre essas diferenças sem transformar expectativas em cobranças ou condicionantes para o afeto.
Assim, o diálogo, o reconhecimento das diferenças entre gerações e o respeito à autonomia aparecem como os principais instrumentos para preservar os vínculos familiares diante das mudanças nos projetos de vida das novas gerações.
É direito das duas partes ficarem tristes e, com o tempo, elaborar o que é essa escolha de não ter filhos e, consequentemente, de não ter netos, e que elas possam ir conversando sobre isso ao longo da relação familiar, mas sem que isso vire um impasse ou uma ruptura. Normalmente, quando você conversa e resolve, as saídas são mais inteligentes", conclui Nathalia Lima.
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