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Como a Copa do Mundo 'hackeia' o cérebro do torcedor durante os jogos

Tomaz Silva/Agência Brasil

Durante uma partida decisiva de Copa do Mundo, o corpo reage como se estivesse diante de uma ameaça real à vida - Tomaz Silva/Agência Brasil
Durante uma partida decisiva de Copa do Mundo, o corpo reage como se estivesse diante de uma ameaça real à vida
Por Emanuele Almeida

19/06/2026 | 13h45

São Paulo - Para muitos, o futebol é apenas um momento de lazer, uma recreação de fim de semana. No entanto, para o nosso cérebro, a história é bem diferente. Durante uma partida decisiva de Copa do Mundo, o corpo reage como se estivesse diante de uma ameaça real à vida.

Ao unir os achados da neurociência e da psicologia, a ciência revela como a paixão pelo esporte transforma pessoas comuns em fanáticos, levando-nos de atitudes de profundo altruísmo até episódios de violência.

Futebol ou sobrevivência?

Você já sentiu o coração acelerar, a transpiração aumentar e até perdeu o sono antes ou depois de um jogo importante? Segundo o psicólogo das categorias de Base do Club de Regatas Vasco da Gama, João Pedro Tostes, isso acontece porque o nosso cérebro não sabe diferenciar totalmente o que é um jogo de futebol de uma situação de sobrevivência, como uma guerra.

Quando o torcedor vê o seu time em um jogo decisivo da Copa do Mundo, as áreas do cérebro ligadas às emoções e à recompensa são ativadas de maneira extremamente parecida com a de eventos cruciais da sua vida pessoal." 

Para a nossa mente, a Copa não é apenas um evento recreativo; ela se torna uma experiência emocional altamente pessoal que consegue "hackear" nossas emoções. "É como se o torcedor estivesse dentro do campo", explica Tostes, ressaltando que o cérebro não compreende que estamos apenas no sofá de casa.

'Família psicológica'

Esse envolvimento profundo cria laços que a ciência compara às relações familiares. Pesquisas lideradas por Tiago Bortolini, que é apoiado pelo IDOR Ciência Pioneira, demonstraram que ajudar outros fãs que torcem pelo mesmo time ativa áreas do cérebro associadas à recompensa e ao apego. 

Sendo assim, beneficiar um colega de torcida aciona respostas no cérebro semelhantes às relações afetivas mais próximas. Bortoloni explica que  identificação com um time de futebol oferece um exemplo poderoso de como os seres humanos estendem seus vínculos de apego para além das relações familiares.

Torcedores de futebol fanáticos pelo seu time experimentam um forte sentimento de pertencimento e muitas vezes percebem outros torcedores como uma espécie de família psicológica.”


Isso é movido por um fenômeno conhecido como identity fusion (fusão de identidade), no qual a identidade pessoal e a do grupo se tornam uma coisa só. É por conta desse vínculo que torcedores gastam tanto tempo, dinheiro e esforço físico pelo seu grupo ou pela seleção. 

Por que emoções são contagiosas durante jogos?

Assistir a um jogo sozinho em casa ou cercado de pessoas em um bar ou estádio são experiências completamente diferentes, porque as emoções são contagiosas. 

Tostes ressalta que, ao se inserir no meio de uma multidão, os cérebros parecem "sincronizar" suas emoções, transformando indivíduos em uma verdadeira torcida que se move como uma "tsunami".

Torcedores do Brasil sentados no chão frustrados
Torcedores do Brasil durante jogo contra a Bélgica na Copa de 2018. Fernando Frazão/Agência Brasil

Os estudos de Bortolini confirmam que experiências coletivas nas arquibancadas — como cantar, pular, vibrar em uníssono e se frustrar — alinham não só o comportamento, mas também as emoções e os estados fisiológicos de todos os presentes. 

"O hino nacional na Copa do Mundo é o exemplo perfeito desse sincronismo: uma música conhecida por todos que faz os corações entrarem em sintonia, apagando diferenças sociais ou de cor de pele, e unindo todos na mesma emoção coletiva de ser brasileiro”, diz Tostes.

União também gera violência

Se o futebol gera tamanha união, por que vemos tantos episódios de agressividade? As pesquisas de Bortolini apontam que a violência no futebol não é necessariamente um desajuste individual, mas sim um efeito extremo dessa profunda conexão com o grupo.

Porém, a Copa do Mundo pode mudar essa dinâmica. Enquanto nos clubes há um forte entorno social, político e de rivalidade entre subgrupos que pode descambar para a violência, na Copa do Mundo o que se forma é a "torcida do povo". 

Segundo Tostes, ao focar na defesa de algo maior — a seleção —, a tendência é que os comportamentos agressivos sejam reduzidos, dando lugar a uma corrente contagiante de emoções de suporte e apoio em busca da vitória. "Isso é refletido até mesmo no comportamento dos jogadores. Até agora não vimos muita sucessões de cartões vermelhos e episódios de violência, por exemplo", analisa. 

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