Dicionário das 'canetinhas emagrecedoras': entenda funções e onde elas agem
Modificadas em laboratório para agir por mais tempo, moléculas de canetas usadas nos tratamentos de diabetes e obesidade já estão em 33% dos lares
Por Emanuele Almeida
14/10/2026 | 08h00Adobe Stock
As terapias com análogos hormonais, especialmente em canetas injetáveis, transformaram o tratamento da diabetes e obesidade no Brasil, com 33% dos lares utilizando esses medicamentos até começo de 2026.
Os medicamentos funcionam por meio de mecanismos que prolongam sua ação no organismo, e a preferência por canetas injetáveis se deve à sua eficácia superior em comparação com comprimidos, que podem ser degradados no sistema digestivo; alternativas orais estão sendo desenvolvidas, mas ainda não estão amplamente disponíveis no Brasil.
São Paulo - As terapias baseadas em análogos hormonais, usados nas canetas emagrecedoras, revolucionaram a abordagem clínica do controle glicêmico e da regulação do peso corporal no tratamento da diabetes e obesidade. Segundo dados da Vigitel de 2024, a obesidade atinge 25,7% da população, representando alta de 118% na comparação com o ano de 2006. Já o diagnóstico de diabetes saltou para 12,9% dos adultos, crescimento de 135% comparado a 2006.
As canetas são popularizadas pelo formato de aplicação injetável e reproduzem substâncias que o próprio organismo fabrica, mas com alterações moleculares planejadas para prolongar seus efeitos benéficos. De acordo com o Instituto Locomotiva, 33% dos lares brasileiros tinham pelo menos um usuário desse tipo de medicamento até o início de 2026.
Leia também
Para entender como esses medicamentos funcionam, o médico endocrinologista e coordenador da Comissão Internacional da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Paulo Augusto Carvalho Miranda, explicou ao VIVA todos os processos envolvidos na ação desses medicamentos dentro do corpo.
Hormônios naturais e a enzima do corpo
Antes de compreender o avanço das canetas emagrecedoras, o ponto de partida está no funcionamento fisiológico do próprio corpo. A chegada dos alimentos ao trato gastrointestinal dispara a liberação de mensageiros hormonais que compõem uma rede de sinalização metabólica para o cérebro.
Miranda aponta que essas substâncias — produzidas pelo intestino e pelo pâncreas — atuam em conjunto para coordenar a sensação de saciedade e fome, controlar o gasto energético e equilibrar a queima de gordura e carboidratos. Veja abaixo de que forma:
Por que esses remédios funcionam?
Para entender a eficácia dessa classe de medicamentos, o segredo está em como a ciência conseguiu contornar e entender as limitações dos hormônios produzidos pelo próprio corpo.
Diferente das substâncias naturais, que circulam por poucos minutos até serem degradadas pela enzima DPP-4, as versões desenvolvidas em laboratório possuem uma proteção molecular que estende sua permanência no sangue por dias ou semanas.
Paulo Miranda, endocrinologista
Para isso, os medicamentos têm:
- "Mecanismo inteligente" glicose-dependente: os medicamentos que atuam nessa via só estimulam a produção e secreção de insulina quando as taxas de açúcar no sangue sobem. Na ausência de elevação da glicose, a produção do hormônio não é disparada;
- Atuação no hipotálamo: paralelamente ao controle da insulina, as moléculas atuam diretamente sobre o cérebro gerando saciedade. Essa combinação entre regulação glicêmica e redução do apetite torna essas classes indicadas tanto para o diabetes tipo 2 quanto para o tratamento do sobrepeso e da obesidade;
- Tempo de circulação: a duração do efeito varia conforme o perfil de absorção, a taxa de ligação a proteínas plasmáticas e as vias de excreção renal ou hepática da molécula, permitindo formulações de aplicação diária, semanal e até estudos para compostos de uso mensal.
Dicionário das moléculas
Com o avanço da ciência, as medicações contra diabetes e obesidade deixaram de ter um único alvo e passaram a combinar múltiplas ações no metabolismo. Alguns medicamentos já estão disponíveis há alguns anos e outros ainda em fase de estudo.
De acordo com Paulo Miranda, embora todas essas substâncias proteicas sejam desenvolvidas farmacologicamente, a distinção central entre os medicamentos biológicos e os sintéticos está no método de produção.
"Historicamente a mais habitual, emprega microrganismos vivos associados à tecnologia de DNA recombinante em um sistema complexo de fabricação e purificação, como ocorre na semaglutida original de referência", explica.
Em contrapartida, o processo sintético não utiliza organismos vivos, sintetizando as cadeias de aminoácidos por meio de mecanismos exclusivamente químicos de laboratório — modelo empregado na tirzepatida de referência, por exemplo.
Por que caneta e não comprimido?
Segundo o endocrinologista, a escolha prioritária pelas canetas injetáveis decorre do fato de que esse tipo de aplicação pula todo o sistema digestivo, entregando o medicamento todo diretamente na gordura e nos vasos sanguíneos, sem haver desperdício.
Já quando você engole o remédio, o ácido do estômago e as enzimas digestivas tendem a destruir a proteína antes que ela chegue ao sangue, prejudicando a absorção e efeito do remédio.
O especialista esclarece que existem duas alternativas para viabilizar o uso de medicamento oral: a semaglutida oral, já comercializada no Brasil com uma tecnologia específica de absorção, e o orforglipron, que não tem estrutura proteica e já foi aprovado em outros países, embora ainda não esteja disponível no mercado nacional.
O médico pondera, por fim, que a decisão entre a aplicação injetável e a medicação oral é orientada pelo efeito clínico desejado e pela preferência individual de cada paciente.
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.
Agora

