CONFIRA

'Precisamos garantir acesso', diz CEO da Novo Nordisk sobre canetas no SUS

Executivos dizem que a farmacêutica prioriza negociação da semaglutida injetável no SUS, mas também projeta inclusão de tratamento via oral no Brasil

Bianca Bibiano

Por Bianca Bibiano

01/10/2026 | 09h08

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Entrevista com CEO da Novo Nordisk aconteceu durante o congresso europeu de diabetes, na Itália - Divulgação
Entrevista com CEO da Novo Nordisk aconteceu durante o congresso europeu de diabetes, na Itália
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A inclusão da semaglutida no Sistema Único de Saúde (SUS) está em negociação entre a Novo Nordisk e as autoridades brasileiras, com a empresa buscando viabilizar o acesso ao tratamento injetável enquanto planeja a versão em comprimido.

A Novo Nordisk apresentou uma proposta competitiva ao Ministério da Saúde, destacando a importância do acesso e da acessibilidade financeira para o tratamento da obesidade no Brasil, onde milhões de pessoas sofrem da condição.

Embora o foco atual seja a versão injetável, a empresa reconhece que a inclusão da versão oral enfrentará desafios de custo e tempo, mas espera resolver as questões de acesso para a semaglutida injetável antes de avançar para o comprimido.

Resumo gerado por IA

Milão - A inclusão da semaglutida no Sistema Único de Saúde (SUS) colocou a gigante farmacêutica Novo Nordisk e as autoridades de saúde brasileiras no centro de uma negociação estratégica. Diante do processo de inclusão em análise pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), a empresa reafirmou seu compromisso de diálogo com o governo brasileiro para viabilizar a oferta do tratamento injetável na rede pública, enquanto planeja os passos futuros para a versão em comprimido do medicamento.

Questionado pela reportagem do VIVA sobre a disposição da companhia em apresentar novas propostas com descontos maiores caso o pleito atual não seja aprovado pela Conitec, o presidente e CEO da Novo, Mike Doustdar, enfatizou que a estratégia comercial prioriza o acesso dos pacientes às inovações médicas.

"Em geral, nós sempre iniciamos o processo com um bom diálogo e negociações. O nosso papel, é claro, é demonstrar o valor desses medicamentos e explicar que, em muitos aspectos, eles são investimentos, e não apenas custos", defendeu. 

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Também reconhecemos que, sem o acesso adequado, esses medicamentos vão simplesmente ficar parados nas prateleiras dos nossos laboratórios, e nós precisamos garantir o acesso a eles."
Mike Doustdar, Novo Nordisk

A entrevista ocorreu durante o congresso da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes (EASD 2026), em Milão, na Itália. A aposta na versão oral da semaglutida foi um dos grandes destaques das apresentações da companhia durante o evento, incluindo o lançamento de novas pesquisas comprovando a eficácia de troca do medicamento injetável para a nova versão em comprimido.

coletiva de imprensa com executivos da Novo Nordisk em Milão
Executivos da Novo receberam a imprensa internacional em Milão, na Itália - Bianca Bibiano/VIVA

O vice-presidente executivo de operações internacionais, Emil Larsen, complementou a visão estratégica para o mercado brasileiro ressaltando que a empresa já apresentou uma proposta competitiva ao Ministério da Saúde, apoiando-se no histórico de parcerias do grupo com a rede pública.

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"Nossa equipe local apresentou o que consideramos uma proposta muito atraente nas negociações, e esperamos chegar a um acordo", afirmou.

De acordo com o executivo, na filial do Brasil, o acesso e a acessibilidade financeira são fundamentais. "Se queremos mudar o cenário da obesidade e da saúde pública junto com o governo brasileiro, muito mais pacientes precisam começar o tratamento com GLP-1 e permanecer nele. É aí que a acessibilidade faz toda a diferença", ponderou Larsen.

Ele pontuou que ao longo dos anos, a farmacêutica participou ativamente de grandes compras públicas, como o programa Farmácia Popular, fornecendo insulina. "Enxergamos um futuro em que os análogos de GLP-1 sejam tratados da mesma forma que a insulina foi ao longo do tempo. Historicamente, fomos os maiores fornecedores de insulina e adoraríamos replicar esse modelo com a semaglutida", completou.

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Planos para a versão oral

Embora o foco imediato com o governo brasileiro esteja na versão injetável, a expectativa em torno da aprovação regulatória pela Anvisa da semaglutida oral (Wegovy em comprimido) traz novos desafios quanto à sua futura inclusão no SUS.

Larsen explicou que o objetivo final é expandir todas as formas do tratamento para a rede pública, mas pondera que a versão oral do medicamento exige um tempo de maturidade de mercado diferente devido aos custos de produção elevados:

"Esperamos que, até lá, tenhamos resolvido os desafios de acesso para a semaglutida injetável, que é o nosso ponto de partida. Com o tempo, prevejo que sim, chegará o dia em que o comprimido de Wegovy também será reembolsado, mas isso não acontecerá nos primeiros trimestres após o lançamento. As negociações governamentais levam tempo e exigem adequações de preço para garantir a acessibilidade, e temos mais margem para trabalhar isso com a versão injetável", explicou Larsen.

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O executivo apontou ainda a complexidade técnica e a quantidade de insumo farmacêutico como fatores decisivos de custo. "O comprimido é uma inovação fantástica e um verdadeiro prodígio científico, tanto pelo volume de insumo farmacêutico ativo necessário quanto pela tecnologia de proteção da molécula contra a acidez do estômago". Mas há a questão do custo:

A versão oral do medicamento exige uma quantidade muito maior de princípio ativo do que a injeção, tornando sua produção mais cara" 
Emil Larsen, Novo Nordisk

O CEO Mike Doustdar reforçou a singularidade da tecnologia desenvolvida pela Novo Nordisk: a aplicação de 2,4 mg é semanal, enquanto os 25 mg são diários. "É necessária uma quantidade 70 vezes maior de produto para obter o mesmo efeito. É por isso que nenhuma outra empresa conseguiu colocar um peptídeo em comprimido até hoje", disse, defendendo vantagens do formato de pílula.

O impacto global do tratamento da obesidade

Analisando a dimensão do mercado brasileiro e as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o manejo da doença, os executivos enfatizaram que a obesidade não pode ser tratada de forma genérica ou com uma única solução terapêutica.

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"Se você olhar para o portfólio que apresentamos, com diversos produtos sendo lançados para obesidade pela Novo Nordisk todos os anos daqui até os próximos 5 a 10 ano, a razão para isso fica clara ao pensarmos em um país grande como o Brasil", declarou Doustdar.

No Brasil, existem milhões de pessoas sofrendo de obesidade. Usamos uma só palavra, mas não se trata de uma única doença ou de uma condição única. Existem múltiplos tipos diferentes de obesidade. 
Mike Doustdar, Novo Nordisk

Ao traçar um paralelo com a oncologia e a diabetes, o CEO observou que o tratamento exige personalização e atenção aos benefícios secundários dos fármacos, além da simples redução de peso:

"Falamos de câncer, por exemplo, mas somos muito específicos ao reconhecer que um câncer de pele é totalmente diferente de um câncer de cérebro. De forma semelhante, a obesidade será compreendida de maneira muito mais aprofundada daqui a 10 anos. As pessoas olham para a semaglutida e para a tirzepatida e dizem: 'É a mesma coisa, a tirzepatida promove um pouco mais de perda de peso, então é melhor'. Mas elas se esquecem dos riscos cardíacos, renais e hepáticos."  

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Larsen acrescentou que a preferência do consumidor e a adaptabilidade do formato influenciam diretamente na eficácia do tratamento. "O mercado brasileiro, de modo geral, é muito orientado a comprimidos. Oferecer uma opção oral que não interfere com estatinas nem com anticoncepcionais orais será uma excelente oportunidade para o Brasil. De nada adianta ter os melhores produtos se eles não chegarem aos pacientes e não fizerem diferença na vida real", afirmou Larsen.

Obesidade ainda convive com estigmas

Outro ponto abordado durante o encontro foi o estigma social que cerca pessoas com obesidade e como o avanço da classe GLP-1 atua na transformação dessa percepção pública. "Acho que está ajudando, mas ainda não chegamos lá. Ainda temos um caminho a percorrer", disse o CEO da Novo. 

O executivo completou destacando que o próprio formato do medicamento pode desempenhar um papel sociológico na redução da discriminação: "Muitas pessoas que usam GLP-1 injetável escondem o produto na geladeira para que as visitas não vejam. Quando oferecemos um comprimido, elas não se importam de deixá-lo sobre a mesa. Isso ajuda a quebrar o estigma. Há 40 anos, havia um estigma enorme em torno da saúde mental; hoje, embora ainda exista, é muito menor. Estamos nos estágios iniciais desse processo na obesidade", concluiu Doustdar.

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(A jornalista viajou ao evento a convite da Novo Nordisk)

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