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Envelhecimento afeta a doação de sangue no Brasil? Especialistas explicam

Marcelo Camargo/Agência Brasil

Governo tem planos para liberar doação de sangue acima dos 70 anos e também atrair jovens - Marcelo Camargo/Agência Brasil
Governo tem planos para liberar doação de sangue acima dos 70 anos e também atrair jovens
Por Emanuele Almeida

26/06/2026 | 11h46

São Paulo - O Brasil ainda não alcançou o patamar de 3,7 milhões de coletas de sangue registradas em 2015 na rede do Sistema Único de Saúde. De acordo com dados do Hemobr, o País somou 3,3 milhões de doações em 2024, uma recuperação ainda lenta em um contexto de quase 10 anos.  Por trás dessa dificuldade de recuperar os estoques, há um desafio demográfico global que afeta diretamente os bancos de sangue: o envelhecimento da população.

Especialistas ouvidos pelo VIVA ressaltam a urgência do tema, principalmente durante o Junho Vermelho, mês dedicado à conscientização sobre a doação de sangue.

O período estabelecido em 2015, foi realizado pelo Movimento Eu Dou Sangue, que criou a campanha em junho por conta de uma data comemorativa que foi determinada pela Organização Mundial da Saúde (OMS): o Dia Mundial do Doador de Sangue, em 14 de junho.

Matemática do envelhecimento 

A hemoterapeuta da Fundação Pró-Sangue Hemocentro de São Paulo, Tila Facincani explica a lógica do problema: com o avançar da idade, a população tende a acumular mais comorbidades e passar por mais procedimentos cirúrgicos, o que aumenta a necessidade de receber mais transfusões de sangue do que doar em si. 

O acúmulo dessas mesmas doenças crônicas ou o uso de medicamentos específicos torna essas pessoas mais inaptas para doar, diminuindo gradativamente a base de doadores em potencial e dificultando o fechamento da conta de sangue necessário nos hemocentros”. 

A situação se torna um desafio ao levar em conta quem carrega e sustenta o sistema brasileiro de doação.  A coordenadora de Sangue e Hemoderivados do Ministério da Saúde, Luciana Carlos, revela que o perfil demográfico mais presente nos hemocentros é formado por homens entre 29 e 40 anos, embora as mulheres já representem uma fatia muito significativa, chegando a quase 50% das doações.

Destes, os doadores de repetição – aqueles que realizam duas ou mais doações no período de 12 meses – são os que mantêm os hemocentros abastecidos, representando 46,5% do total de doadores no País.

Para equilibrar essa balança a longo prazo, a coordenadora do Ministério da Saúde aponta que é crucial estimular os doadores mais jovens e fidelizá-los. “Jovens a partir dos 16 anos já podem realizar doações mediante a autorização de seus pais ou responsáveis legais, e a partir dos 18 anos a prática pode ser feita livremente”, reforça Luciana Carlos. 

Ela explica que a estratégia ideal é trabalhar a conscientização desse "doador do futuro" desde a infância, para que ele inicie cedo e se torne um doador regular ao longo da vida e de seu envelhecimento. 

Fim da idade máxima 

A regra nacional permite que as pessoas doem sangue até os 69 anos, desde que a primeira doação tenha sido realizada antes dos 61 anos. No entanto, esse limite pode estar com os dias contados, já que a ciência observa um fenômeno otimista: a longevidade saudável

A coordenadora do Ministério da Saúde aponta, que uma parte da população tem envelhecido de maneira cada vez mais saudável e, por isso, a tendência é que o País abandone o limite de idade máxima para a doação de sangue. 

"De acordo com os órgãos reguladores, já existem estudos e novos requisitos (ainda pendentes de publicação) que preveem que, enquanto o idoso estiver clinicamente saudável e sem comorbidades, ele poderá continuar doando sangue com um intervalo maior entre as coletas para proteger a medula já envelhecida”, diz Luciana Carlos.  

bolsa de sangue em cima da balança de doação
Para a doação de sangue é preciso passar pela triagem clínica em um centro de coleta - Tomaz SilvaAgência Brasil

A importância da triagem clínica

A extinção da idade máxima caminha na sequência de uma trajetória de expansão da faixa etária para a doação. As alterações na legislação ao longo dos anos gradativamente ampliaram o limite de idade para idosos: de 2005 a 2010, o limite era de 65 anos, passou para 67 anos (2011 a 2012) e, desde 2013, chegou a 69 anos.

Com a futura abolição da idade limite, a etapa de triagem clínica será crucial, como a principal barreira de proteção de todo o sistema. Luciana Carlos explica que essa triagem possui um objetivo duplo: primeiro, preservar rigorosamente a saúde do doador, não permitindo que o ato traga prejuízos ou riscos à sua integridade, e, segundo, garantir a total segurança dos pacientes que receberão os hemocomponentes transfundidos.

Diante desse contexto, no futuro, é possível que mesmo pessoas com mais de 70 anos possam doar. Contudo, as especialistas reforçam a necessidade de que os doadores se informem antes de chegar ao centro de coleta.

O doador pode ligar no hemocentro, ver o site para conferir as condições necessárias para conseguir doar. Porque se ele chega no local e não consegue doar, a chance dele voltar cai”, diz Tila Facincani da Pró-Sangue. 

No Brasil, estima-se que 20% a 25% dos candidatos à doação de sangue sejam considerados inaptos durante a etapa de triagem clínica. Isso significa que, de cada 100 pessoas que procuram os hemocentros, apenas 75 a 80 são efetivamente aprovadas para doar. 

Um ato de altruismo

Luciana Carlos ainda destaca que a doação precisa ser estritamente altruísta. “Toda vez que um candidato busca algum benefício pessoal ou algo em troca da doação, o rigoroso processo de triagem clínica fica comprometido”, alerta. 

A coordenadora do Ministério da Saúde aponta que o grande problema de buscar benefícios é que a pessoa pode se sentir tentada a mentir ou não responder corretamente às perguntas da triagem para garantir que sua doação seja aceita e ela receba sua recompensas.

Ela cita alguns exemplos desse comportamento, como pessoas que vão ao hemocentro apenas para obter resultados gratuitos de exames de sangue, quando estão com suspeita de alguma doença. Ou situações em que se oferece algo de alto valor em troca da doação, como sorteios.

“Como consequência, a omissão de informações por interesse próprio gera riscos gravíssimos tanto para a saúde do próprio doador quanto para a segurança dos pacientes que receberão os hemocomponentes”, conclui. 

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