Estudo revela alta prevalência de neurodiversidade entre diabéticos tipo 2
Pesquisa internacional com mais de 6 milhões de pessoas descobriu que autismo e TDAH podem ser até três vezes mais prevalentes entre diabéticos
Por Bianca Bibiano
27/09/2026 | 10h00Adobe Stock
Um estudo internacional revelou que pessoas com neurodiversidade, especialmente aquelas com transtorno do espectro autista (TEA) e transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), apresentam maior probabilidade de serem diagnosticadas com diabetes tipo 2, com prevalência acentuada antes dos 20 anos.
A pesquisa, que analisou mais de 6 milhões de pacientes, mostrou que a prevalência de TDAH entre diabéticos jovens é de 14,4%, enquanto no grupo sem diabetes é de 6,9%; já o autismo foi três vezes mais comum entre diabéticos do que entre não diabéticos na mesma faixa etária.
Os pesquisadores destacam a necessidade de um atendimento mais adequado para indivíduos neurodivergentes com diabetes, sugerindo que fatores como atividade física reduzida e barreiras no acesso aos cuidados de saúde podem contribuir para essa associação, e enfatizam a importância de considerar essas necessidades ao planejar serviços clínicos.
São Paulo - Pessoas com neurodiversidade, particularmente transtorno do espectro autista (TEA) e transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), têm maior probabilidade de serem diagnosticadas com diabetes tipo 2, com prevalência particularmente alta antes dos 20 anos de idade.
É o que revela uma análise internacional com mais de 6 milhões de pacientes e que será apresentada no dia 28 na Reunião Anual da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes (EASD 2026) em Milão, na Itália.
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O estudo, ao qual o VIVA teve acesso antecipado, mostra que o TDAH foi duas vezes mais prevalente entre pessoas diagnosticadas com diabetes tipo 2 antes dos 20 anos, em comparação com indivíduos de idade semelhante mas sem o diabetes. (14,4% vs 6,9%).
Da mesma forma, o autismo teve registro de três vezes mais prevalência entre diabéticos tipo 2 com menos de 20 anos, em comparação com aqueles sem a doença (5,72% vs 1,79%). Outras neurodivergências analisadas, como a dislexia e a dispraxia também se mostraram mais prevalentes entre os mais jovens, com até duas vezes mais probabilidade do que entre aqueles sem diabetes.
Prevalência diminui com a idade, mas também afeta idosos
A relação entre diabetes tipo 2 e neurodivergência também foi identificada entre idosos, mas em menos proporção, com TDAH sendo cerca de 1,4 vez mais prevalente entre pessoas diabéticas na faixa dos 70 aos 79 anos.
No caso do TEA, a diferença também foi menor entre aqueles diagnosticados na faixa dos 70 aos 79 anos, nos quais o autismo foi 1,24 vez maior. No entanto, a prevalência de autismo registrada pelo estudo foi extremamente baixa, com menos de 0,01% da amostra.
No geral, em pacientes com e sem diabetes, a prevalência de neurodiversidade foi mais alta em idades mais jovens, com TDAH e autismo atingindo até 14% e 5% das pessoas com menos de 20 ano, respectivamente, e declinou rapidamente com o avanço da idade, tornando-se muito baixa após 40.
Desafios para atendimento
O autor principal do estudo, Jonathan Goldney, do Centro de Pesquisa em Diabetes da Universidade de Leicester e do NIHR Biomedical Research Centre, no Reino Unido, disse em nota que pessoas neurodivergentes e aquelas que vivem com diabetes de início precoce enfrentem desafios únicos ao navegar por ambientes de saúde movimentados, ao se comunicar com profissionais de saúde e ao gerenciar seu diabetes, e defende um olhar mais atento a esses casos:
Os sistemas de saúde não estão conseguindo atender totalmente às necessidades de pessoas que vivem tanto com diabetes tipo 2 de início precoce quanto com neurodiversidade, sendo que ambas estão ligadas a piores resultados de saúde.
Jonathan Goldney, Universidade de Leicester
Ele ressaltou ainda que fornecer cuidados de saúde de uma forma adequada para indivíduos neurodivergentes é fundamental para tornar os cuidados de saúde mais acessíveis para todos, especialmente à medida que mais pessoas estão sendo diagnosticadas com diabetes mais cedo na vida.
Possíveis causas da relação entre diabetes e neurodivergência
Os autores especulam que vários fatores podem contribuir para a associação entre condições neurodivergentes e DM2, incluindo níveis mais baixos de atividade física, dificuldades de sono, uso de medicamentos, condições de saúde mental e barreiras no acesso aos cuidados de saúde.
Fatores no início da vida também podem desempenhar um papel. Por exemplo, o diabetes materno tem sido associado a resultados neurodesenvolvimentais e posterior risco cardiometabólico em crianças.
Os autores enfatizam a importância de considerar as necessidades de pessoas neurodivergentes ao planejar serviços clínicos e suporte para aqueles com diabetes de início precoce.
"A maioria das pessoas com uma condição neurodivergente desenvolverá diabetes tipo 2. [...]. Levar a neurodiversidade em consideração pode ajudar a reduzir potenciais barreiras ao acesso e engajamento com os cuidados de saúde", diz Goldney.
Os autores destacam que, embora o estudo tenha sido grande, não se pode estabelecer relações de causa e efeito, já que a influência de outros fatores que não foram medidos não pode ser descartada.
Eles também observam que pessoas com condições neurodivergentes podem ter contato mais frequente com profissionais de saúde, potencialmente aumentando as oportunidades para um diagnóstico e influenciando os achados. Destacam que estudos futuros devem explorar outros fatores de associação.
Como o estudo foi feito
Para entender melhor essa população crescente e subatendida, os pesquisadores examinaram a prevalência de quatro neurodiversidades (TDAH, autismo, dislexia e dispraxia) entre 4,2 milhões de indivíduos recentemente diagnosticados com diabetes tipo 2 da rede colaborativa TriNetX, que coleta registros hospitalares dos Estados Unidos, entre março de 2006 e março de 2026, que foram agrupados por idade no momento do diagnóstico em faixas de idade.
Cada grupo etário foi pareado a partir do ano de nascimento, sexo, etnia e raça com outros 3,4 milhões pacientes com menos de 80 anos sem diabetes tipo 2, para compensar as diferenças demográficas.
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