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Estudo revela que vape dobra risco de morte por câncer em ex-fumantes

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Estudo revelou que ex-fumantes que adotam o cigarro eletrônico apresentam o dobro de risco de morrer por câncer de pulmão - Adobe Stock
Estudo revelou que ex-fumantes que adotam o cigarro eletrônico apresentam o dobro de risco de morrer por câncer de pulmão
Por Emanuele Almeida

16/06/2026 | 12h01

São Paulo - Uma pesquisa recém-publicada na revista científica Nature Medicine, acaba de derrubar um dos mitos mais perigosos da atualidade: a ideia de que o cigarro eletrônico, ou vape, é um substituto inofensivo para quem deseja abandonar o tabagismo. 

Avaliando uma base de dados com mais de 4,5 milhões de adultos, o estudo revelou que ex-fumantes que adotam o cigarro eletrônico apresentam o dobro de risco de morrer por câncer de pulmão quando comparados àqueles que abandonam o vício por completo e não utilizam nenhum dispositivo.

'Efeito duplo'

A pesquisa alerta para a presença de compostos carbonílicos (como formaldeído) e metais tóxicos no vape, que causam alterações no DNA. Segundo Vladmir Cordeiro, oncologista clínico e pesquisador do Centro de Referência em Oncologia Torácica do AC Camargo Cancer Center, o grande perigo para o ex-fumante é que o vape cria um "efeito duplo" em um pulmão que já estava em recuperação.

Vladimir é um homem por volta dos 50 anos de cabelos grisalhos, veste uma camisa azul clara
Vladimir Cordeiro é referência em oncologia Torácica. Arquivo Pessoal

"Quando o indivíduo fuma, as substâncias eliminadas na fumaça promovem alterações no epitélio que não revertem completamente quando ele para de fumar. É o que chamamos de 'cancerização de campo", diz. 

O especialista alerta que o consumo do vape expõe essa mucosa já fragilizada não apenas a substâncias carcinogênicas do vapor, mas gera uma inflamação crônica nas vias aéreas. 

"A inflamação crônica é um promotor do câncer. Ela estimula a proliferação de células que já apresentam alterações no seu material genético. Quando a célula se divide mais, a chance de acumular novas alterações no DNA e progredir para um câncer aumenta", destaca Cordeiro, acrescentando que essa inflamação ainda modifica a resposta imunológica local, comprometendo a defesa do corpo contra eventuais células alteradas.

O especialista reforça ainda que, embora a indústria promova a ausência de combustão como sinônimo de segurança, pesquisas em modelos in vitro e em animais, já demonstraram que as substâncias do vapor podem promover o surgimento de câncer. 

“Existe, inclusive, a Evali (Lesão Pulmonar Associada ao Uso de Cigarro Eletrônico ou Vaporizador, sigla em inglês), que é um quadro agudo e grave de inflamação causado pelo consumo do vape”, lembra. 

Fumantes de 50 a 80 anos

O estudo deu atenção especial a um grupo de alto risco: indivíduos com idade entre 50 e 80 anos e com um longo histórico de tabagismo (igual ou superior a 20 anos-maço). Essa segmentação foi feita propositalmente porque esta é exatamente a população que as diretrizes médicas internacionais indicam para realizar o rastreamento de câncer de pulmão por meio de tomografia computadorizada. 

Os resultados apresentados por esse grupo confirmam a gravidade: entre esses pacientes de alto risco – uma amostra isolada de cerca de 1 milhão de pessoas –, o uso de cigarros eletrônicos elevou o risco de incidência de câncer de pulmão em 91% e o risco de morte específica pela doença em 92%, em comparação aos ex-fumantes que abandonaram totalmente o vício.

A pesquisa também revelou um dado comportamental crucial: os ex-fumantes que adotam o vape tendem a ser consideravelmente mais jovens, entre  42 a 43 anos, do que os ex-fumantes que param de fumar por completo (média de 53 a 55 anos). 

Para o oncologista do AC Camargo, isso reflete o perigoso "efeito geracional" do cigarro eletrônico, que é vendido como uma alternativa moderna. 

O vape se difundiu muito na população mais jovem. O grande problema é que cria uma falsa sensação de segurança. Isso expõe uma população precocemente a um produto potencialmente carcinogênico e serve como facilitador em indivíduos que já têm uma predisposição maior por terem fumado." 

Vape é fator de risco

O estudo também demonstrou que o risco de câncer aumenta com o vape independentemente do tempo em que a pessoa parou de fumar.  Cordeiro esclarece essa persistência do perigo:

"O tempo de exposição é um fator muito importante. A mucosa não volta ao normal completamente; ela vai tendendo à normalidade, mas mantém alterações proporcionais ao tempo em que o indivíduo fumou. A introdução do vape superajunta um fator promotor a essa base já suscetível. A única estratégia segura é nunca começar a fumar ou parar completamente". 

Diante de pacientes que buscam o vape como ferramenta para transição, a posição do médico é categórica:

A gente tenta dissuadir essa pessoa de usar tal estratégia. Não faz parte das recomendações que usamos, exatamente porque há uma preocupação de que o próprio vape cause lesão nas vias aéreas. Não há dado que mostre que essa estratégia é segura." 

Ele reforça que o usar o vape não é seguro. “É uma questão de proporcionalidade. O mais seguro é não usar nada", afirma. 

Métodos eficazes

Para atingir esse objetivo, a ciência já dispõe de métodos muito mais seguros e eficazes do que o vape. "O tabagista é tratado como um dependente químico e psíquico. Combinamos estratégias farmacológicas, como reposição de nicotina e medicações para ansiedade ou depressão subjacentes. Junto disso, associamos terapia de grupo e terapia cognitivo-comportamental", detalha o oncologista.

Ele lembra ainda que essa rede de apoio está acessível para a população: "O SUS disponibiliza nas unidades de saúde grupos dedicados a atender gratuitamente o tabagista que deseja parar de fumar." 

Sobre o estudo 

Os dados foram coletados através de um estudo de coorte retrospectiva de base populacional que utilizou os registros do Serviço Nacional de Seguro de Saúde da Coreia do Sul. O estudo avaliou o status de tabagismo e o uso de cigarros eletrônicos de 4.524.895 participantes (excluindo pessoas que nunca haviam fumado na vida) durante o programa nacional de triagem de saúde do país em 2018 (ano base). 

A pesquisa ainda sugere que outros estudos de grande porte sejam feitos com um grupo populacional mais diverso para que os resultados sejam ainda mais factíveis e funcionem melhor para promoção de políticas públicas. 

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