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Procura no SUS para largar o cigarro dobra, mas vapes ameaçam reabilitação

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Os vapes têm sais de nicotina, uma formulação que permite uma absorção muito mais rápida e intensa pelo organismo - Magnific
Os vapes têm sais de nicotina, uma formulação que permite uma absorção muito mais rápida e intensa pelo organismo
Por Emanuele Almeida

01/06/2026 | 11h34 ● Atualizado | 11h35

São Paulo - Em 2025 mais de 2,5 milhões de brasileiros buscaram tratamento no Sistema Único de Saúde (SUS) com o objetivo de parar de fumar. De acordo com o Ministério da Saúde, o número representa um aumento de 95% em relação a 2022, quando 1,2 milhão de atendimentos foram registrados. 

A pasta aponta também que a rede pública de saúde expandiu significativamente suas estratégias contra o tabagismo. De 2022 a 2025, as atividades coletivas nas UBS (ações educativas e de orientação) saltaram de 61,9 mil para 157,1 mil, enquanto o público assistido subiu de 1 milhão para 2,1 milhões de pessoas, reforçando o papel das UBS no apoio à cessação do hábito.

Uso de vape ainda atrapalha o processo 

No entanto, o esforço para abandonar o tabagismo tem esbarrado em um obstáculo perigoso. O uso de cigarros eletrônicos, conhecidos como vapes, tem crescido de forma alarmante como uma suposta alternativa de transição, revelando um contraponto preocupante no processo de abandono do vício. 

Muitos pacientes chegam aos ambulatórios de tratamento acreditando que os dispositivos eletrônicos podem auxiliar na interrupção do cigarro convencional ou que são menos prejudiciais – fator que traz ainda mais riscos para a saúde do indivíduo. 

Dados do PrevFumo, ambulatório de cessação do tabagismo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), revelam que a proporção de pacientes buscando ajuda que relatam o uso prévio de vapes dobrou entre 2018 e 2025. O levantamento usou dados de acompanhamentos feitos pelo ambulatório e aponta que a porcentagem de pacientes que adotam o uso de vape no processo de abandono de vício em cigarro passou de 4,1% em 2018 para 8,1% no ano passado. 

Os dados também apontam uma prevalência feminina no uso prévio de dispositivos eletrônicos ao longo de todo o período analisado, com as mulheres representando 59% dos pacientes que relataram uso prévio de cigarros eletrônicos em 2025. 

Em relação à faixa etária, a maior concentração de pacientes com histórico de uso de vape está entre adultos de 30 a 39 anos, que representam 39% do total, seguidos pelo grupo com menos de 30 anos (28%). Pacientes entre 40 e 49 anos correspondem a 21% dos casos, enquanto aqueles com 50 anos ou mais representam 12%.

O contraponto no processo de cura é que o vape raramente funciona como uma ponte para o fim do vício. A pneumologista e coordenadora do PrevFumo, Lygia Sampaio, alerta que a maioria dos pacientes não substitui o cigarro tradicional, mas acaba fazendo o uso simultâneo dos dois produtos. "Usar cigarro e vape apenas perpetua a dependência à nicotina." 

"Fumaça limpa"

O nível de dependência gerado por esses aparelhos é um dos fatores que mais preocupam os especialistas em saúde pública. O oncologista William Nassib destaca que a composição dos vapes é desenhada para viciar: eles utilizam sais de nicotina, uma formulação que permite uma absorção muito mais rápida e intensa pelo organismo. 

Dessa forma, um único dispositivo pode conter a mesma quantidade de nicotina que um maço inteiro de cigarros ou até mais, cravando a dependência química rapidamente.

Além de manter o paciente refém da substância, a ideia disseminada de que o usuário inala "apenas vapor de água" é uma falácia perigosa. William Nassib destaca alerta que os vapes liberam milhares de substâncias químicas tóxicas, “incluindo compostos cancerígenos como formaldeído e acroleína, além de metais pesados como chumbo, níquel e zinco”. 

Danos irreversíveis à saúde

Longe de serem inofensivos, os cigarros eletrônicos estão diretamente associados a severos danos respiratórios e sistêmicos. As consequências elencadas pelo oncologista para a saúde incluem:

  • "Pulmão de pipoca" (bronquiolite obliterante): uma doença pulmonar rara e irreversível caracterizada pela fibrose e inflamação dos bronquíolos. Ela é desencadeada pelo diacetil, uma substância frequentemente adicionada aos líquidos dos vapes para conferir aromas adocicados. Os danos costumam ser permanentes, causando falta de ar progressiva e tosse persistente;
  • Lesão Pulmonar Associada ao Uso de Cigarro Eletrônico ou Produtos de Vape (Evali, na sigla em inglês): uma lesão pulmonar grave e aguda diretamente associada ao uso de cigarros eletrônicos, capaz de levar a internações severas;
  • Impacto neurológico e psiquiátrico: as altas concentrações de nicotina interferem em áreas cerebrais que regulam a atenção e a memória, além de aumentar o risco de ansiedade, depressão e outros transtornos. Os sintomas de abstinência são tão intensos que os usuários relatam uso contínuo ao longo de todo o dia, inclusive de madrugada;
  • Risco oncológico: o tabagismo já é o principal fator de risco para pelo menos 12 tipos de câncer, como boca, laringe, pulmão, esôfago e pâncreas. Há um receito da classe médica de que a inalação das substâncias tóxicas presentes nos vapes impulsione uma nova onda de tumores nas próximas décadas. 

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