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Geriatra questiona prolongamento da vida pela medicina em novo livro

Manuela França/ VIVA

'Viver para sempre sem urgência esvazia o valor do agora', defende geriatra autora do livro 'A morte é um dia que vale a pena viver' - Manuela França/ VIVA
'Viver para sempre sem urgência esvazia o valor do agora', defende geriatra autora do livro 'A morte é um dia que vale a pena viver'
Por Bianca Bibiano

14/04/2026 | 14h07

São Paulo - Nacionalmente conhecida pelo livro 'A morte é um dia que vale a pena viver' e outras obras que tratam da finitude humana, a médica geriatra Ana Claudia Quintana Arantes consolidou-se como uma das principais vozes da medicina ao questionar a longevidade e os limites éticos do prolongamento da vida.

Em palestra durante o Congresso da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia de São Paulo (GERP.26), a médica propôs uma reflexão profunda sobre o que significa habitar o tempo, fugindo da mera contagem de anos para focar na qualidade da jornada.

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Para a especialista, a busca incessante por não morrer cedo muitas vezes ignora o custo real desse prolongamento e alerta que "o maior sofrimento não é morrer cedo, mas viver muito tempo sem condição de viver a própria vida".

Longevidade ou envelhecimento?

Segundo Arantes, o envelhecimento atual paga uma tarifa de oito a dez anos de vida com doenças e dependência. "É um tempo médio que a gente passa na vida com uma incapacidade significativa. Esse é o principal território ético e clínico da geriatria moderna."

Ela questiona que essa incapacidade futura está ligada às escolhas presentes, muitas vezes mascaradas por um falso senso de merecimento. Arantes observa que as pessoas não querem sentir o peso da velhice, mas evitam a responsabilidade de viver de modo saudável.

Ela exemplifica que muitos escolheriam a sobremesa antes da comida sob a justificativa de que merecem comer tudo errado. "Toda vez que você fala 'eu mereço', o que vem depois é uma besteira muito grande para sua saúde."

Paradoxo feminino

Dentro desse cenário de longevidade, ela pondera que as mulheres enfrentam um paradoxo particular, pois, embora vivam mais que os homens, carregam uma carga maior de doenças e uma solidão que se torna clínica, configurando um problema de saúde pública.

Nos consultórios, afirma, isso se manifesta no desejo de finitude que a medicina tradicional tenta silenciar. "A pessoa fala 'vou morrer' e o médico manda pensar positivo para viver mais". Para a médica, essa postura ignora um esvaziamento existencial legítimo, que não se cura com tratamentos de curto prazo.

O medo de envelhecer também se reflete na obsessão por parecer mais jovem, algo que Arantes questiona com veemência em suas falas. Ela provoca ao perguntar por que alguém desejaria ter cara de 30 aos 50 anos de idade, sugerindo que aos 30 anos a juventude muitas vezes não é plenamente aproveitada.

"A única competência que você pode ter se você parecer mais descolada, mais saudável, mais inteira dentro do teu envelhecimento, é você se comprometer a fazer alguma coisa pelo mundo."

E completa que a compreensão de que a vida tem um fim é o que dá intensidade ao presente:

"A gente precisa envelhecer bem para poder ser útil. Para que a gente possa, com a nossa maturidade, oferecer um pouco de pacificação para as pessoas extremamente angustiadas."

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Para Arantes, a morte serve para dar limite à nossa incapacidade de fazer gestão das escolhas. Quando o tempo parece infinito, a necessidade de escolher diminui e, com ela, a intensidade de viver. Por isso, ela desafia seus pacientes a encontrarem diversão em meio às agendas lotadas de remédios e exames. "Muitas vezes, o paciente está só a serviço de estar doente."

"Viver para sempre sem urgência esvazia o valor do agora. Uma vida infinita sem novos desejos torna-se insuportável."

Ciência dos centenários

Durante a palestra, Arantes mostrou que na ciência dos centenários observa-se que o adoecimento costuma aparecer apenas mais perto do final da vida, gerando uma fragilidade concentrada no limiar do fim. E lamenta que, muitas vezes, a família e os profissionais de saúde tirem o direito dessa pessoa de ser livre apenas pela idade avançada.

"O propósito da vida prevê mortalidade de uma forma mais robusta que a satisfação subjetiva."

Ela defende que, ao envelhecer, é preciso estar preparado para perder a identidade ambiental, familiar e a capacidade de ir e vir sozinho. O foco deve mudar do remédio para o que se deixa no mundo, o que ela chama de olfato social. "Que perfume você deixa pelo seu caminho?", exemplifica, e diz que as consultas médicas deveriam focar menos na saúde biológica estrita e mais no legado estrutural que se perpetua nas próximas gerações.

Papel da medicina

Nesse sentido, a geriatra defende que, para que essa busca por sentido seja possível, a prática médica precisa ser repensada e critica o modelo de medicina focado em diagnósticos isolados e intervenções desproporcionais, classificando como "um vexame" o prolongamento artificial da vida em casos sem prognóstico.

"A gente precisa sair do movimento tradicional de um consultório de geriatria: um diagnóstico isolado, uma obsessão com a cura, uma intervenção desproporcional. Talvez o rim tenha indicação da diálise, mas o dono do rim não tem", exemplifica, e completa:

"Se no futuro o envelhecimento não for risco para adoecimento, a mortalidade deixa de ser o problema clínico. Mas a imortalidade biológica resolve a nossa busca humana por sentido?"

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