Pílula da longevidade existe? Entenda o impacto da suplementação no envelhecimento
Manuela França/Portal VIVA
São Paulo - A busca por soluções rápidas para garantir um envelhecimento saudável foi um dos temas de destaque do primeiro dia do GERP.26, congresso bianual da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia de São Paulo (SBGG-SP), que começou ontem em São Paulo.
Durante uma mesa-redonda sobre mitos da alimentação, especialistas desmistificaram o uso de suplementos isolados sem o respaldo de um estilo de vida equilibrado.
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De acordo com as palestrantes, não existem atalhos para a saúde duradoura. "Não tem alimento, não tem a pílula mágica da longevidade, infelizmente. Eu até queria que tivesse, mas não tem", enfatizou a nutricionista Aline David, criadora da Escola de Nutrição Aplicada, durante o debate que abordou o tema.
Ela explica que a ansiedade dos pacientes por resultados imediatos muitas vezes ignora a complexidade biológica do envelhecimento.
Eu sei que os pacientes, os meus também, querem uma estratégia mágica. A pessoa quer um chá, um shot, uma cápsula que aumente as mitocôndrias, que tenha longevidade, que tenha mais cabelo, menos cabelo branco, mais musculatura, menos gordura... Mas não tem."
A especialista reforçou que a longevidade está atrelada ao conceito de healthspan, que é a qualidade de vida ao longo dos anos, e não apenas à quantidade de tempo vivido.
Para alcançar esse estado, o foco deve estar nos pilares fundamentais: não fumar, praticar exercícios físicos regulares e manter a constância alimentar.
Boa alimentação é constância, é no dia a dia. Dá trabalho? Fato que dá. É desgastante? Com certeza. Mas a constância é que dá resultado".
Por sua vez, a nutricionista e educadora Maristela Strufaldi defende o consumo de alimentos de verdade e desmistificou que dietas de qualidade incluem, necessariamente, alimentos caros. Ela explica que dietas como a mediterrânea, mundialmente elogiada por estar atrelada à longevidade, podem ser aderidas sem a necessidade de inserir azeites ou peixes caros à dieta.
"O consumo pode e deve ser adequado à realidade do paciente, para garantir que ele tenha adesão no longo prazo. Nesse sentido, o consumo de arroz, feijão, carnes magras, vegetais, fibras e oleaginosas, como preconizado no Guia Alimentar para a População Brasileira, é um excelente exemplo de como inserir a alimentação saudável na realidade do brasileiro". E completa:
A longevidade não depende de um nutriente ou um alimento mágico, um alimento isolado, mas sim de uma visão global de um padrão alimentar que pode ser favorável em meio ao estilo de vida".
Suplementação como aliada estratégica
Embora tenha negado a existência de um milagre em cápsulas, Aline David cita ativos que, se atrelados a uma dieta saudável, auxiliam no manejo de marcadores metabólicos e na preservação da saúde. Dentre eles, a especialista destaca evidências de estudos que apontam os benefícios do consumo de ativos como:
Ingestão de fibras
Um dos principais ativos da nutrição atrelada à longevidade é o consumo diário de fibras, em torno de 25 gramas por dia. A média dos brasileiros é de 18 gramas, diz a especialista, que defende o consumo diário de vegetais, grãos e frutas para aumentar essa meta.
Para pessoas que requerem suplementação, ela indica Psyllium, que auxilia no controle do apetite e na adesão à dieta.
"A fibra causa mais saciedade, então esse paciente permanece mais tempo em déficit calórico e consegue se adequar melhor à prescrição nutricional. Porém, em idosos é preciso cuidar para que o consumo de fibras não gere desconfortos gástricos e intestinais", alerta.
Auxiliares para controle de colesterol e glicemia
Aline David também destaca que ativos como a Beta-glucana e os fitoesteróis contribuem para a redução do colesterol LDL, enquanto a berberina auxilia no controle glicêmico.
"A beta-glucana é encontrada, por exemplo, no farelo de aveia, que pode ser inserido na dieta tanto em formato de mingau quanto ao longo da alimentação diária, com cerca de quatro colheres por dia".
Ômega-3
Presente em peixes e oliagenosas, esse ativo é fundamental para a prevenção cardiovascular, desde que possua boas concentrações de EPA e DHA. Para pessoas com dificuldades no consumo de certos alimentos, ela recomenda avaliar o nível de suplementação diária.
Consumir mais proteína resolve?
Complementando o debate sobre mitos da alimentação, a palestrante Myrian Najas, docente da Universidade Federal de São Paulo e especialista em envelhecimento pela SBGG, destacou que a proteína tem um papel fundamental para a preservação da massa muscular, que é considerado um dos pilares para a longevidade e saúde da pessoa idosa.
Quando a gente fala em controle de peso, mesmo em idosos, o músculo importa. Músculo é patrimônio".
Najas alerta que a inadequação proteica e calórica leva a perdas de força e função, resultando em fragilidade. Mas reforça que não basta suplementar sem observar o contexto clínico:
"O excesso de proteínas é algo que precisa ser revisto. Muitos nutricionistas já recebem pacientes que chegam à primeira consulta tomando no mínimo o whey protein. O whey agora virou o suco", ironiza, destacando que a suplementação inadequada da proteína pode levar a problemas de saúde.
Também famosa entre pessoas que fazem academia, a creatina é um ativo imprescindível para a manutenção da funcionalidade muscular, destaca Aline David. Ela diz que o consumo pode oferecer benefícios reais se indicada de forma adequada na dieta cotidiana de pacientes idosos.
Restrição calórica, jejum e sono
A nutricionista clínica e esportiva Cristiane Verotti, complementa sobre a importância do ritmo circadiano e do controle inflamatório.
O ritmo circadiano é o processo natural de regulação entre sono e tempo acordado e faz parte de um processo natural de vigília e despertar no ser humano.
O envelhecimento é um processo biológico modulável. Então, se a gente conseguir monitorar bem a inflamação crônica, a resistência à insulina, o estresse oxidativo, por exemplo, é muito possível viver muitos anos e também com qualidade. E dormir bem tem relação direta com isso".
Verotti destaca que estratégias como o jejum intermitente e a restrição calórica rigorosa podem ser perigosas para idosos, especialmente se causarem perda de massa magra.
"O jejum intermitente também não é recomendado para uma população idosa. Imagina um diabético que toma hipoglicemiante pela manhã e sai para caminhar em jejum. Não é saudável", alertou.
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