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Envelhecer é aprender a apreciar a impermanência, compartilha médico budista

Felipe Cavalheiro/VIVA

Médico anestesiologista abre as reflexões da mesa-redonda "A Dimensão Espiritual no Envelhecer: Diálogos Inter-Religiosos" - Felipe Cavalheiro/VIVA
Médico anestesiologista abre as reflexões da mesa-redonda "A Dimensão Espiritual no Envelhecer: Diálogos Inter-Religiosos"
Por Paula Bulka Durães

11/04/2026 | 11h07

São Paulo - Envelhecer é aprender a apreciar a impermanência, segundo o médico anestesiologista e monge budista Ricardo Gonçalves Esteves, que abriu as reflexões da mesa-redonda "A Dimensão Espiritual no Envelhecer: Diálogos Inter-Religiosos", no 14º Congresso Paulista de Geriatria e Gerontologia (GERP.26).

A palestra, realizada na tarde de sexta-feira, 26, apresentou a espiritualidade como uma ferramenta indispensável e clinicamente relevante no cuidado com a pessoa idosa.

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Na apresentação "Budismo e Impermanência: Envelhecer com Serenidade", o médico mergulhou em bases filosóficas para demonstrar que a resistência ao fluxo natural do tempo é a verdadeira raiz do mal-estar diante da velhice.

Tudo está em constante transformação, nada está estável. Querer que tudo permaneça como está, só gerará ansiedade, frustração e sofrimento."

O monge ressaltou que "nada é fixo e permanente", com a metáfora do Kintsugi — a tradicional arte japonesa de restaurar cerâmicas quebradas com laca em pó de ouro.

De acordo com o médico, assim como na arte, na velhice nos tornamos como um "Kintsugi, objeto mais valioso do que o original, com as suas cicatrizes". Essa apreciação deve se estender até a finitude: "Apreciar a morte, esse instante é único, o foco da nossa atenção".

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O médico relembrou que as pessoas estão o tempo todo tentando combater as mudanças com a aplicação de procedimentos estéticos, como botox, a fim de esconder as marcas do anicca (impermanência). "Não quero ver a impermanência do meu corpo, do meu conhecimento, não quero pensar nas mudanças."

Como viver na impermanência?

Para combater essa aversão, o monge indicou a necessidade de "práticas que nos fazem apreciar e viver na impermanência", como a meditação: o foco no aqui e agora.

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Segundo o médico, as práticas meditativas e espirituais impactam a neuromodulação do hipocampo e da amígdala. O resultado direto é a melhora na atenção, o estímulo à neuroplasticidade e a diminuição do declínio cognitivo em doenças graves, como o Alzheimer.

A evolução espiritual nos traz marcas

Representando o espiritismo, o geriatra Fábio Nasri esteve à frente da fala "O Olhar do Espiritismo sobre o Envelhecer e a Finitude".

Na análise, os dogmas do espiritismo, apresentados brevemente, ajudam a entender o corpo físico como um "veículo temporário", que carrega marcas de vidas passadas, que nos guiam para evoluir.

Na apresentação, o médico desconstruiu a visão biomédica de que a velhice é um mero declínio do corpo, com a lembrança de que a velhice é uma "etapa de colheita" e de amadurecimento espiritual, em que a "memória espiritual e sabedoria" acumuladas sobrevivem intactas.

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Segundo o geriatra, a morte não é uma ruptura, mas uma transição natural. Ele exemplifica essa visão com o relato de um paciente de 38 anos que atendeu em 2008, que deixou de encarar as marcas do corpo físico como uma sentença e, sim, como um caminho para a evolução espiritual.

"Ele apresentava uma condição congênita rara, a ausência congênita de tronco braquiocefálico esquerdo e anomalia congênita de artéria subclávia esquerda, o que gerava uma diferença significativa de pressão arterial entre os dois braços."

Após a hospitalização, o paciente foi encaminhado para um processo de terapêutica ericksoniana. Durante as sessões, ele teve uma experiência relacionada ao seu lado esquerdo, onde tinha dor e a anomalia vascular. "Vi uma arma medieval atingir o meu dorso. Vários golpes atingiram a minha região cervical e as costas à esquerda", descreveu.

A pessoa idosa carrega sabedoria e ancestralidade

A visão das religiões de matriz africana foi apresentada pelo geriatra Luís Alberto Saporetti, que focou na valorização da velhice e nos rituais de cuidado.

Como os terreiros mantêm a tradição predominantemente de forma oral, as pessoas idosas assumem um papel insubstituível. Segundo o médico, os mais velhos são "axés históricos vivos, que revelam os ensinamentos, os símbolos, os ritos que formam a tradição".

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Como defensores da memória de uma comunidade — pois "o tempo só pode se revelar a nós através de memória" —, Saporetti destacou que os mais velhos são "guerreiros que têm direito de repousar no colo do respeito".

Para o geriatra, a espiritualidade só se realiza genuinamente na solidariedade e no cuidado com o outro. "Abandoná-los é mais que negar a própria história. É uma aberração ética inaceitável por qualquer povo civilizado", defende.

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