Gordura no fígado é silenciosa e pode até virar câncer; veja como prevenir
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São Paulo - Neste 19 de abril, o Dia Mundial do Fígado acende um alerta global para uma das maiores ameaças silenciosas da atualidade: a Doença Hepática Esteatótica Metabólica (MASLD), popularmente conhecida como gordura no fígado.
Considerada uma doença crônica em crescimento acelerado, o problema já atinge cerca de 25% da população mundial, chegando a impactar de forma ainda mais preocupante aproximadamente 44% das pessoas na América Latina.
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No Brasil, a Sociedade Brasileira de Hepatologia aponta a esteatose hepática em 20% da população geral - um número que pode saltar para 40% em grupos de risco, como pessoas com diabetes e obesidade.
Apesar da alta prevalência, a desinformação segue sendo um obstáculo gigantesco. Um levantamento do Instituto Datafolha revelou que, embora 62% dos brasileiros se preocupem com a doença, 61% nunca fizeram exames para identificá-la ou não sabem como fazê-lo, e apenas 7% receberam um diagnóstico formal.
O que é a gordura no fígado
A esteatose hepática se configura quando o acúmulo de gordura nas células do fígado ultrapassa o limite considerado normal de 5%. A hepatologista Patrícia Almeida explica que a doença não costuma dar sinais no início, o que reforça o seu caráter perigoso.
A também hepatologista Claudia Ivantes complementa o alerta, afirmando que quando sintomas como cansaço, dor abdominal, inchaço ou pele amarelada começam a aparecer, o quadro pode já estar em um estágio muito avançado.
Sem o diagnóstico e o tratamento adequados, a condição evolui em cerca de 25% dos casos, passando por etapas de inflamação, fibrose, cirrose e, em alguns quadros, até câncer de fígado.
Devido a essa evolução, a doença já se tornou a principal causa de transplante de fígado nos Estados Unidos, um cenário que começa a se repetir no Brasil. Apenas em 2023, o Brasil bateu um recorde com a realização de 2.365 transplantes hepáticos, número que ainda é insuficiente para atender a toda a demanda do País.
A raiz do problema
Os especialistas são categóricos ao afirmar que o crescimento da gordura no fígado está diretamente ligado ao estilo de vida moderno, marcado pelo sedentarismo e pela má alimentação.
O excesso de peso está presente em cerca de 60% dos casos da doença, e fatores como obesidade e diabetes tipo 2 são os principais agravantes. O cenário nacional também reflete isso: 66% dos brasileiros enfrentam sobrepeso ou obesidade, e 55% consomem bebida alcoólica com regularidade.
O problema se agrava pela ausência de sinais de alerta. A Claudia Ivantes adverte que "na maioria dos casos, a esteatose hepática não apresenta sintomas nas fases iniciais."
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Esse avanço silencioso causa atrasos perigosos nos tratamentos. Como "existe um grande desconhecimento da população", alerta a médica, muitas pessoas só descobrem o problema quando a doença já está avançada.
Dietas ricas em açúcar, gorduras saturadas e produtos ultraprocessados favorecem fortemente o acúmulo de gordura no órgão. Por outro lado, a adoção da dieta mediterrânea – que prioriza alimentos naturais, peixes, vegetais, antioxidantes e gorduras boas – é uma das mais indicadas na proteção hepática.
Diagnóstico fácil
Apesar de ser uma condição que pode levar ao transplante ou até à morte, as especialistas explicam que o seu rastreamento pode começar de forma simples durante um check-up de rotina com um clínico geral, utilizando exames amplamente acessíveis como a ultrassonografia abdominal ou exames mais específicos como a elastografia hepática.
Para aqueles diagnosticados, há esperança na ciência e na resiliência do próprio corpo: o fígado possui alta capacidade de regeneração. O tratamento tem como base principal a mudança do estilo de vida. A simples redução de 5% a 10% do peso corporal já é capaz de melhorar significativamente a função do órgão.
Medicamentos são utilizados em situações específicas como aliados, mas a linha de frente do tratamento não depende unicamente de remédios. Intervenções como cirurgia bariátrica ou transplante ficam reservadas para casos extremos e avançados de falência hepática.
Como resume Patrícia Almeida, a atenção à saúde hepática deve ir muito além do mês de abril: "O cuidado com o fígado não deve acontecer só em abril. Ele precisa ser diário. Quanto antes começamos, maiores são as chances de evitar complicações no futuro.
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