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No Santa Marcelina, suporte da mãe e do pai ajuda na cura do câncer infantil

Emanuele Almeida/VIVA

Enquanto aguardam o atendimento, crianças brincam e desenham nas mesas do centro de oncologia - Emanuele Almeida/VIVA
Enquanto aguardam o atendimento, crianças brincam e desenham nas mesas do centro de oncologia
Por Emanuele Almeida

17/04/2026 | 12h16

São Paulo - Bancos coloridos em formato de lápis de cor, mesas quase minúsculas para que os pequenos se sentem, conversem, pintem e escutem histórias contadas por suas mães ou voluntários da Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer, mais conhecida como TUCCA. Esse é o cenário de risadas e brincadeiras no qual crianças aguardam seu tratamento no centro de oncologia pediátrica dentro do Hospital Santa Marcelina. 

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cozinha do TUCCA, com paredes rosas. Há uma colaboradora cozinhando ao fundo
O centro oferece café da manhã, almoço e lanche da tarde para todas as crianças e famílias todos os dias. Emanuele Almeida/VIVA

Quem pensa em um local triste e cinzento, se engana. Lá também há cor e brincadeiras, apesar do processo muitas vezes demorado e tenso da quimioterapia. Por lá, os “Doutores da Alegria”, voluntários que se vestem de médicos palhaços, buscam levar mais leveza para esse momento. 

O que é TUCCA?

A TUCCA é uma associação sem fins lucrativos dedicada a oferecer assistência multidisciplinar para crianças e adolescentes de baixa renda com câncer. Atua oferecendo cuidado integral, assim como preparação dessas crianças, jovens e de seus familiares para a continuidade de suas vidas após a doença.

Desde 2001, a instituição mantém uma parceria estratégica com o Santa Marcelina Saúde, referência na Zona Leste de São Paulo. A aliança nasceu para preencher um vazio assistencial: na época, todos os centros de oncologia pediátrica concentravam-se nas zonas Central, Oeste e Sul.

A iniciativa facilitou o acesso ao tratamento para os moradores da Zona Leste e de municípios vizinhos da Grande São Paulo, unindo atendimento especializado à região de maior densidade demográfica e carência social da capital.

Apoio familiar gera resultados ‘milagrosos’

Raul Ribeiro, 4 anos, vestido com o uniforme completo do Corinthians, corre de um lado para o outro. Mas, quando começa a história sobre o urso que canta na ópera, ele para tudo e presta atenção em cada detalhe. O pequeno trata um sarcoma raro e agressivo. 

Raul com os pais Cleber e Jéssica
Mesmo em dias sem consultas, a família (Cleber Raul e Jéssica) vai ao TUCCA para interagir e participar de ações. Emanuele Almeida/VIVA

Em fevereiro de 2025, sintomas como constipação constante resultaram em diversos processos diagnósticos que culminaram na identificação do câncer raro, sem protocolo médico definido.  Após o diagnóstico, a mãe e o pai de Raul saíram do interior de São Paulo e se mudaram para Itaquera, perto do centro de tratamento. 

"A gente sempre concordou em não ficar só um com ele, porque o Raul sempre foi muito apegado com o pai e eu sabia que eu também não ia conseguir passar por isso sozinha com ele, longe de todo mundo. Então a gente alugou um lugar aqui, onde vivemos só pelo Raul. A gente tá aqui todos os dias que precisa para o tratamento dele e sempre junto, os três.”

Jéssica Ribeiro (31), mãe de Raul

O suporte de ambos os pais é o que ela aponta como um dos principais fatores para os resultados positivos de Raul ao tratamento, mesmo com um prognóstico inicial pessimista de metástase no fígado e na pelve.

Agora, ele iniciará o tratamento com radioterapia, processo que os médicos acreditam ser decisivo na eliminação dos focos de tumor ainda presentes. 

Mulheres ainda são o maior suporte

Sentadas nos bancos estão mães, tias e avós dessas crianças, que conversam e, às vezes, soltam um: “Corre devagar, fulano”. Mais no interior da unidade, na sala de quimioterapia, são as mães solo, em sua maioria, que exercem todo o papel de suporte durante o tratamento. De um lado, há as macas das crianças mais velhas e, do outro, três macas destinadas aos bebês.  

A assistente social do serviço de oncologia pediátrica do Santa Marcelina, em parceria com a TUCCA, Talita Alves, conta que, durante os quase dez anos em que trabalha no centro, nota que a maior parte dos cuidadores dos pacientes são mães solo. 

Geralmente não há marido ou suporte. Então, ela é a única provedora da casa e se vê na obrigação de parar de trabalhar para acompanhar o tratamento do filho. Alguns pacientes têm uma rede de apoio um pouco maior porque há irmãos, avós e afins.”

Avós tentam sempre fazer o máximo

Alves também relata que há um número grande de crianças acompanhadas por avós durante consultas e tratamentos; porém, essas mulheres muitas vezes têm mais dificuldade de entender a complexidade do diagnóstico

“Contudo, mesmo diante dessa dificuldade, elas vêm, fazem de tudo e tentam ao máximo seguir a orientação médica que lhes é passada”, reforça a assistente social. 

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Atualmente, a instituição atende uma média de 60 pacientes por dia, para consultas ou tratamento, além de receber mais de 40 casos novos por mês — um número alto para o espaço, mas que ainda consegue ser suportado, segundo os colaboradores do centro. 

Parceria internacional

Por ser um caso raro, os exames de Raul foram encaminhados para o Memorial Sloan Kettering Cancer Center (MSK), um dos principais centros de tratamento e pesquisa de câncer do mundo. O envio só foi possível após a seleção do centro de tratamento do TUCCA para integrar o SNF Global Pediatric Cancer Program at MSK Kids. 

Oncologista pediátrico e fundador da TUCCA, Sidnei Epelman explica que o MSK recebeu uma grande doação da instituição grega Stavros Niarchos Foundation, para investir em locais estratégicos ao redor do mundo. 

“Após uma visita técnica e seis meses de análise, a TUCCA foi escolhida como o primeiro 'hub' do mundo para atuar em educação, pesquisa e assistência. A expectativa é que cinco centros sejam escolhidos ao redor do globo”, acrescenta o médico. 

A parceria abre portas para acesso a tecnologias de ponta disponíveis no MSK para ajudar no estudos dos tumores diagnosticados na TUCCA. Sobre a relevância desses diagnósticos para casos difíceis, ele afirma: "Quando você identifica a biologia exata do tumor através de testes moleculares, pode adotar estratégias terapêuticas com precisão. Isso abre possibilidades que antes eram impossíveis". 

No caso de Raul, os exames foram enviados para a análise e aguardam retorno do centro. Todo esse processo de envio e análise internacional é realizado sem custos para os pacientes, sendo financiado pela parceria e por doações.

Como o tratamento é feito

O tratamento de crianças dentro da TUCCA é realizado via encaminhamento pelo SUS, sendo, portanto, totalmente gratuito. Para os pacientes residentes no Estado de São Paulo, o fluxo ocorre por meio do Sistema de Regulação da Secretaria de Saúde do Estado. 

crianças, um menino e três menina sentados em uma mesa pequena escutam histórias das voluntárias do TUCCA
As crianças chegam por volta das 6h com suas famílias e, enquanto aguardam serem chamadas, brincam com os voluntários. Emanuele Almeida/VIVA

Já para pacientes de outros Estados — a associação recebe casos de todo o Brasil —, o contato é feito diretamente com o Hospital Santa Marcelina, que analisará o caso. A partir do momento em que o paciente é aceito, o serviço social faz a ponte com o hospital de origem para o encaminhamento via Tratamento Fora de Domicílio (TFD), que providencia a locomoção gratuitamente

Há também pacientes estrangeiros sendo tratados no centro. Nesses casos, a assistente social da TUCCA conta que os pais vêm “na cara e na coragem” bater na porta do centro pedindo ajuda. 

A maior parte são pacientes bolivianos que já fizeram tratamento lá e o paciente provavelmente está em uma recaída e a família não tem mais condições de pagar.” 

Ela acrescenta que, a partir disso, o TUCCA recebe essa família, envia para casa de apoio que encaminha para UBS para ser feita a regulação via sistema estadual de saúde. Assim, ele segue o fluxo de tratamento para brasileiros. 

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Nos casos que vêm de fora de São Paulo, há a possibilidade de vaga na Casa Ronald McDonald São Paulo Itaquera,  parceria com o Instituto Ronald McDonald, que acolhe pacientes em 23 suítes. 

Para além do suporte durante o tratamento, a TUCCA busca dar suporte também para pacientes paliativos sem condição de manter os cuidados necessários em casa. Para isso, há o Hospice pediátrico do Brasil, para que crianças e adolescentes em cuidado paliativo possam receber os cuidados necessários no fim da vida, como conforto, atenção e assistência multidisciplinar diferenciada em companhia de seus familiares.

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