No Santa Marcelina, suporte da mãe e do pai ajuda na cura do câncer infantil
Emanuele Almeida/VIVA
São Paulo - Bancos coloridos em formato de lápis de cor, mesas quase minúsculas para que os pequenos se sentem, conversem, pintem e escutem histórias contadas por suas mães ou voluntários da Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer, mais conhecida como TUCCA. Esse é o cenário de risadas e brincadeiras no qual crianças aguardam seu tratamento no centro de oncologia pediátrica dentro do Hospital Santa Marcelina.
Leia também: Novas regras devem agilizar acesso a remédios contra o câncer no SUS
Quem pensa em um local triste e cinzento, se engana. Lá também há cor e brincadeiras, apesar do processo muitas vezes demorado e tenso da quimioterapia. Por lá, os “Doutores da Alegria”, voluntários que se vestem de médicos palhaços, buscam levar mais leveza para esse momento.
O que é TUCCA?
A TUCCA é uma associação sem fins lucrativos dedicada a oferecer assistência multidisciplinar para crianças e adolescentes de baixa renda com câncer. Atua oferecendo cuidado integral, assim como preparação dessas crianças, jovens e de seus familiares para a continuidade de suas vidas após a doença.
Desde 2001, a instituição mantém uma parceria estratégica com o Santa Marcelina Saúde, referência na Zona Leste de São Paulo. A aliança nasceu para preencher um vazio assistencial: na época, todos os centros de oncologia pediátrica concentravam-se nas zonas Central, Oeste e Sul.
A iniciativa facilitou o acesso ao tratamento para os moradores da Zona Leste e de municípios vizinhos da Grande São Paulo, unindo atendimento especializado à região de maior densidade demográfica e carência social da capital.
Apoio familiar gera resultados ‘milagrosos’
Raul Ribeiro, 4 anos, vestido com o uniforme completo do Corinthians, corre de um lado para o outro. Mas, quando começa a história sobre o urso que canta na ópera, ele para tudo e presta atenção em cada detalhe. O pequeno trata um sarcoma raro e agressivo.
Em fevereiro de 2025, sintomas como constipação constante resultaram em diversos processos diagnósticos que culminaram na identificação do câncer raro, sem protocolo médico definido. Após o diagnóstico, a mãe e o pai de Raul saíram do interior de São Paulo e se mudaram para Itaquera, perto do centro de tratamento.
"A gente sempre concordou em não ficar só um com ele, porque o Raul sempre foi muito apegado com o pai e eu sabia que eu também não ia conseguir passar por isso sozinha com ele, longe de todo mundo. Então a gente alugou um lugar aqui, onde vivemos só pelo Raul. A gente tá aqui todos os dias que precisa para o tratamento dele e sempre junto, os três.”
Jéssica Ribeiro (31), mãe de Raul
O suporte de ambos os pais é o que ela aponta como um dos principais fatores para os resultados positivos de Raul ao tratamento, mesmo com um prognóstico inicial pessimista de metástase no fígado e na pelve.
Agora, ele iniciará o tratamento com radioterapia, processo que os médicos acreditam ser decisivo na eliminação dos focos de tumor ainda presentes.
Mulheres ainda são o maior suporte
Sentadas nos bancos estão mães, tias e avós dessas crianças, que conversam e, às vezes, soltam um: “Corre devagar, fulano”. Mais no interior da unidade, na sala de quimioterapia, são as mães solo, em sua maioria, que exercem todo o papel de suporte durante o tratamento. De um lado, há as macas das crianças mais velhas e, do outro, três macas destinadas aos bebês.
A assistente social do serviço de oncologia pediátrica do Santa Marcelina, em parceria com a TUCCA, Talita Alves, conta que, durante os quase dez anos em que trabalha no centro, nota que a maior parte dos cuidadores dos pacientes são mães solo.
Geralmente não há marido ou suporte. Então, ela é a única provedora da casa e se vê na obrigação de parar de trabalhar para acompanhar o tratamento do filho. Alguns pacientes têm uma rede de apoio um pouco maior porque há irmãos, avós e afins.”
Avós tentam sempre fazer o máximo
Alves também relata que há um número grande de crianças acompanhadas por avós durante consultas e tratamentos; porém, essas mulheres muitas vezes têm mais dificuldade de entender a complexidade do diagnóstico
“Contudo, mesmo diante dessa dificuldade, elas vêm, fazem de tudo e tentam ao máximo seguir a orientação médica que lhes é passada”, reforça a assistente social.
Leia também: Conheça tratamento de câncer que chegará ao SUS e não causa queda de cabelo
Atualmente, a instituição atende uma média de 60 pacientes por dia, para consultas ou tratamento, além de receber mais de 40 casos novos por mês — um número alto para o espaço, mas que ainda consegue ser suportado, segundo os colaboradores do centro.
Parceria internacional
Por ser um caso raro, os exames de Raul foram encaminhados para o Memorial Sloan Kettering Cancer Center (MSK), um dos principais centros de tratamento e pesquisa de câncer do mundo. O envio só foi possível após a seleção do centro de tratamento do TUCCA para integrar o SNF Global Pediatric Cancer Program at MSK Kids.
Oncologista pediátrico e fundador da TUCCA, Sidnei Epelman explica que o MSK recebeu uma grande doação da instituição grega Stavros Niarchos Foundation, para investir em locais estratégicos ao redor do mundo.
“Após uma visita técnica e seis meses de análise, a TUCCA foi escolhida como o primeiro 'hub' do mundo para atuar em educação, pesquisa e assistência. A expectativa é que cinco centros sejam escolhidos ao redor do globo”, acrescenta o médico.
A parceria abre portas para acesso a tecnologias de ponta disponíveis no MSK para ajudar no estudos dos tumores diagnosticados na TUCCA. Sobre a relevância desses diagnósticos para casos difíceis, ele afirma: "Quando você identifica a biologia exata do tumor através de testes moleculares, pode adotar estratégias terapêuticas com precisão. Isso abre possibilidades que antes eram impossíveis".
No caso de Raul, os exames foram enviados para a análise e aguardam retorno do centro. Todo esse processo de envio e análise internacional é realizado sem custos para os pacientes, sendo financiado pela parceria e por doações.
Como o tratamento é feito
O tratamento de crianças dentro da TUCCA é realizado via encaminhamento pelo SUS, sendo, portanto, totalmente gratuito. Para os pacientes residentes no Estado de São Paulo, o fluxo ocorre por meio do Sistema de Regulação da Secretaria de Saúde do Estado.
Já para pacientes de outros Estados — a associação recebe casos de todo o Brasil —, o contato é feito diretamente com o Hospital Santa Marcelina, que analisará o caso. A partir do momento em que o paciente é aceito, o serviço social faz a ponte com o hospital de origem para o encaminhamento via Tratamento Fora de Domicílio (TFD), que providencia a locomoção gratuitamente.
Há também pacientes estrangeiros sendo tratados no centro. Nesses casos, a assistente social da TUCCA conta que os pais vêm “na cara e na coragem” bater na porta do centro pedindo ajuda.
A maior parte são pacientes bolivianos que já fizeram tratamento lá e o paciente provavelmente está em uma recaída e a família não tem mais condições de pagar.”
Ela acrescenta que, a partir disso, o TUCCA recebe essa família, envia para casa de apoio que encaminha para UBS para ser feita a regulação via sistema estadual de saúde. Assim, ele segue o fluxo de tratamento para brasileiros.
Leia também: Três a cada dez prontuários de câncer de pele são incompletos; saiba o que falta
Nos casos que vêm de fora de São Paulo, há a possibilidade de vaga na Casa Ronald McDonald São Paulo Itaquera, parceria com o Instituto Ronald McDonald, que acolhe pacientes em 23 suítes.
Para além do suporte durante o tratamento, a TUCCA busca dar suporte também para pacientes paliativos sem condição de manter os cuidados necessários em casa. Para isso, há o Hospice pediátrico do Brasil, para que crianças e adolescentes em cuidado paliativo possam receber os cuidados necessários no fim da vida, como conforto, atenção e assistência multidisciplinar diferenciada em companhia de seus familiares.
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.
