Três a cada dez prontuários de câncer de pele são incompletos; saiba o que falta
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São Paulo - Uma análise feita pela Fundação do Câncer sobre os casos de câncer de pele no Brasil revela uma situação problemática para a qualidade da vigilância epidemiológica da doença: há uma lacuna de informações sociodemográficas nos prontuários de pacientes.
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De acordo com a análise, os principais contextos de dados incompletos envolvem informações como cor da pele, escolaridade e estágio do tumor dos pacientes. A falta de tais dados compromete diretamente a análise da situação epidemiológica da doença e o planejamento de ações em saúde.
No caso da falta de dados dos pacientes com a doença, em nível nacional, a categoria "sem informação" corresponde a 36,8% (154.804 registros) de todos os diagnósticos de câncer de pele não melanoma e a 36,2% (11.475 registros) dos casos de melanoma, tipo mais letal da doença, entre os anos de 2014 e 2023.
Falta de dados raciais
O levantamento aponta que existe um elevado percentual de pacientes sem registro da cor da pele, um problema que é mais grave na região Sudeste, local onde a falta desse tipo de informação chega a 68% dos casos, seja para câncer melanoma ou para o não melanoma.
A Região Centro-Oeste apresenta a segunda maior taxa de incompletude, com ausência de dados sobre cor da pele em 23,6% dos casos de não melanoma e 21,9% de melanoma. Já as regiões Norte e Nordeste apresentam uma ausência de informações de de 12,7% (não melanoma) e 11,4% (melanoma), e 10,8% e 7,4%, respectivamente.
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Em forte contraste com o resto do País, o Sul possui a base de dados mais completa nesse quesito, apresentando uma parcela de apenas 4,4% de registros ignorados para o não melanoma e 2,9% para o melanoma.
Sem saber a cor da pele de uma parcela tão gigantesca dos afetados, o sistema de saúde perde a capacidade de identificar adequadamente vulnerabilidades demográficas e de planejar ações e políticas públicas de prevenção e rastreio de forma mais assertiva .
Escolaridade desconhecida
O nível de instrução dos pacientes é outro dado frequentemente ignorado nos registros. A região Centro-Oeste é a mais afetada por esse problema, apresentando um elevado percentual de casos "sem informação" para ambos os tipos de câncer de pele, alcançando 74% de falta de dados nos casos de não melanoma e 67,1% nos de melanoma.
As taxas de ausência de informação sobre escolaridade nos prontuários médicos variam amplamente pelo País:
- Região Centro-Oeste: é o cenário mais crítico, com 74% dos registros de câncer não melanoma (11.521 casos) e 67,1% dos casos de melanoma (441 casos) sem a informação sobre o nível de instrução do paciente;
- Região Sudeste: apresenta falta desses dados em 28,1% dos casos de não melanoma (56.982 pacientes) e lidera a taxa de incompletude para o melanoma (excetuando o Centro-Oeste), com 31,9% de dados ignorados;
- Região Nordeste: faltam informações de escolaridade em 29% dos diagnósticos de não melanoma e 20,5% nos de melanoma;
- Regiões Sul e Norte: possuem os menores índices de falta de informação, embora ainda existam lacunas. No Sul, a ausência é de 18,8% (não melanoma) e 13% (melanoma). No Norte, faltam esses dados em 14,7% e 9,4% dos prontuários, respectivamente.
Sem o conhecimento sobre o nível de instrução dos pacientes torna-se difícil a elaboração de campanhas educativas e medidas preventivas que conversem com a realidade socioeconômica da população afetada.
O que é estadiamento?
No caso do melanoma, que é o tipo mais letal da doença, uma parte expressiva dos casos é registrada sem a informação de estadiamento - que é o processo que define a localização e a extensão do câncer, também conhecido como estágio do tumor.
No Brasil, 36% dos registros de melanoma não contêm esse dado e, em regiões como Norte, Nordeste e Centro-Oeste, mais da metade dos casos (acima de 54%) chegam sem essa avaliação clínica documentada.
A Região Sul, apesar de ter os melhores preenchimentos sociodemográficos, apresenta uma falha clínica, com 49,4% dos registros de melanoma (4.988 casos) sem a informação de estágio tumoral. No Sudeste, proporcionalmente, é a região que melhor documenta o estágio do melanoma no País, mas ainda assim apresenta uma lacuna de 19,3% (2.985 casos) de dados ignorados.
A falta desse dado clínico, além de prejudicar a jornada de tratamento individual do paciente, dificulta o entendimento pelas autoridades de saúde pública sobre a real gravidade em que a doença está sendo detectada na população, aponta o estudo.
Contexto do câncer de pele no Brasil
O câncer de pele é o tipo de câncer mais comum no Brasil. De acordo com o Ministério da Saúde, ele representa 30% de todos os tumores malignos diagnosticados no País.
Segundo análise da Fundação do Câncer, entre 2014 e 2023 foram registrados mais de 452 mil casos da doença no Brasil. Contudo, mais de 90% dos diagnósticos correspondem ao câncer de pele não melanoma, enquanto o melanoma – o mais letal – englobou cerca de 7% dos casos.
Para 2026, espera-se a ocorrência de 263.280 novos casos de câncer de pele não melanoma (risco de 123 casos por 100 mil habitantes) e 9.360 novos casos de melanoma (risco de 4,36 por 100 mil habitantes) no País.
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