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Maioria dos brasileiros tem sintomas respiratórios, mas adiam ida ao médico

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62% acham que tosse ou falta de ar só demandam consulta se limitam tarefas cotidianas - Adobe Stock
62% acham que tosse ou falta de ar só demandam consulta se limitam tarefas cotidianas
Por Emanuele Almeida

25/08/2026 | 15h26

São Paulo - Uma pesquisa nacional inédita, realizada pelo Datafolha em parceria com a biofarmacêutica GSK, acendeu um sinal de alerta vermelho para a saúde pública no Brasil. O levantamento revelou que 92% da população brasileira relatou ter enfrentado pelo menos um sintoma respiratório nos últimos 12 meses.

Contudo, longe de buscar diagnóstico e tratamento adequados, a maioria dos entrevistados demonstra uma tendência preocupante de aceitar de forma passiva esses sinais, convivendo rotineiramente com o desconforto.

Segundo o estudo, a normalização dos problemas respiratórios é frequente: 62% dos participantes acreditam que manifestações como tosse ou falta de ar só demandam consulta médica quando passam a limitar as tarefas cotidianas. Essa postura de adiar o cuidado clínico reflete diretamente na qualidade de vida e no agravamento silencioso de patologias pulmonares e nasais.

Normalização da falta de ar no envelhecimento

Um dos aspectos mais alarmantes revelados pelo Datafolha é a naturalização de disfunções respiratórias associadas à idade avançada ou a hábitos prejudiciais. Constatou-se que 57% dos brasileiros acreditam que sentir falta de ar é algo normal à medida que as pessoas envelhecem. Na mesma proporção, 57% avaliam que a tosse frequente é uma consequência normal do tabagismo.

Especialistas alertam que essa percepção é clinicamente incorreta e perigosa. A falta de ar ou a tosse crônica não devem ser interpretadas como sintomas naturais do envelhecimento ou do uso do tabaco, mas sim como potenciais indícios de doenças graves subjacentes que exigem investigação, como a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) ou a asma.

O indivíduo normal começa a perder mais significativamente a capacidade pulmonar aos 75 e 80 anos, período em que as atividades dessa pessoa também diminui. Contudo, é importante ressaltar que sentir falta de ar e ter tosse frequente não é algo comum para quem está envelhecendo”, explica o professor de pneumologia da Santa Casa de São Paulo, José Eduardo Cançado. 

Outro ponto trazido pelo especialista é o tratamento com diversos medicamentos para pessoas mais velhas. "É comum que uma pessoa acima dos 50 anos já chegue com algum tratamento em andamento. Nesses casos os médicos precisam avaliar o histórico de tratamento e medicamentos para evitar a polifarmácia", destaca Cançado, durante evento de lançamento da pesquisa nesta terça-feira, 25. 

Homem mais velho com camisa azul assoa o nariz
Especialistas reforçam que sintomas que parecem gripe, mas se entendem (como nariz entupido, catarro e dores faciais) precisam ser investigados - Freepik

Ele reforça esse alerta aos profissionais justamente pela receita e uso indevido de corticóides - remédios usados frentequemente no tratamento de asma e rinosinusite. Contudo, esse tipo de medicamento possui uma restrição forte de dosagem devido a efeitos adversos no uso ao longo prazo. 

"O uso indevido de corticóides ao longo da vida é cumulativo e pode gerar uma série de efeitos colaterais como diabetes, elevação da pressão arterial, enfraquecimento dos ossos, entre outras consequências", alertou. 

Conhecimento superficial 

A pesquisa também expôs uma lacuna severa entre o nível de familiaridade da população com determinadas doenças e o real controle que os pacientes têm sobre suas condições respiratórias crônicas:

Asma

É a doença mais conhecida, com 84% dos brasileiros declarando ter conhecimento sobre ela. Apesar disso, o controle efetivo está longe do ideal: entre os pacientes diagnosticados, 24% (quase um em cada quatro) consideram seu quadro "pouco controlado" ou "nada controlado".

A asma, segundo Cançado, é caracterizada pela inflamação e estreitamento dos brônquios que dificultam a passagem do ar, causa chiado, pressão no peito e tosse frequente. Muitos pacientes adaptam suas rotinas às limitações da doença em vez de buscar o controle medicamentoso adequado.

A asma provoca cerca de 2 mil a 2,5 mil mortes por ano no País, o que equivale a uma média de 3 a 6 mortes por dia, de acordo com a Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai).

O número é alarmante frente à uma condição tratável de mortalidade evitável. A própria Asbai e a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) reforçam que a grande maioria dessas mortes e internações poderia ser evitada se houvesse o tratamento preventivo contínuo, sem focar somente na melhora dos sintomas agudos. 

Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC)

Caracterizada por ser progressiva e irreversível, fortemente ligada ao cigarro ou poluição, a Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica é praticamente desconhecida. Apenas 10% da população geral afirma conhecer a sigla DPOC, e insignificantes 3% sabem o significado real dela, segundo o estudo. 

Esse desconhecimento faz com que sintomas iniciais sejam ignorados. O resultado é preocupante: 11% dos pacientes que já possuem o diagnóstico de DPOC não realizam nenhum tipo de tratamento atualmente.

A DPOC mata mais de 40 mil brasileiros todos os anos e ocupa a quinta posição entre as doenças que mais matam no País. O diagnóstico inicial pode ser feito de forma simples pelo SUS por meio de um exame de sopro chamado espirometria.

Polipose Nasal (RSCcPN)

A otorrinolaringologista e gerente de grupo médico da GSK Brasil, Elisama Baisch, explica que a polipose nasal, obstrução prolongada causada pelo crescimento de pólipos benignos nas cavidades nasais, é amplamente desconhecida, com apenas 17% de conhecimento do público geral.

Ela gera perda de olfato e paladar e impacto severo no sono e bem-estar. Ela pode não causar morte, como a asma, mas causa queda na qualidade de vida da pessoa que convive com a condição", observa. 

Esta condição registrou o pior índice de controle na pesquisa: 33% dos pacientes diagnosticados relatam que a doença está "pouco" ou "nada controlada". 

Como a pesquisa foi feita

O estudo desenvolvido pelo Datafolha em parceria com a GSK consistiu em uma pesquisa quantitativa com 2.004 brasileiros com 16 anos ou mais. As entrevistas foram realizadas pessoalmente entre 6 e 10 de julho de 2026, em 137 municípios brasileiros de todas as regiões do País.

A amostra foi calibrada para representar a demografia nacional com base em dados da PNAD 2025 e ABEP 2026. A margem de erro máxima é de 2 pontos porcentuais baixo ou para cima, com um nível de confiança de 95%.

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