Exame 2 em 1: mamografia ajuda a prever risco de doenças cardiovasculares
Envato
São Paulo - Embora a mamografia seja mundialmente reconhecida por seu papel crucial no diagnóstico precoce do câncer de mama, o exame rotineiro pode atuar como uma ferramenta aliada na identificação de riscos para doenças cardiovasculares.
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Um estudo recente publicado no European Heart Journal e divulgado pela European Society of Cardiology (ESC) revelou que a inteligência artificial (IA) pode prever o risco de doenças cardíacas graves a partir da análise de mamografias padrão.
A pesquisa, liderada pela Emory University (EUA), analisou exames de 123.762 mulheres sem histórico prévio de doença cardiovascular e descobriu que a presença de depósitos de cálcio nas artérias do tecido mamário é um forte indicativo de problemas futuros.
A calcificação arterial demonstrou ser um sinal claro de que as artérias estão endurecendo. Os resultados do estudo mostraram que mulheres com calcificação leve apresentaram um risco cerca de 30% maior de sofrer um evento cardiovascular grave, como infarto, acidente vascular cerebral (AVC) ou insuficiência cardíaca.
O perigo aumenta proporcionalmente: o risco é mais de 70% maior naquelas com calcificação moderada e chega a ser de duas a três vezes superior em casos de calcificação severa.
Segundo os pesquisadores, essa relação se manteve verdadeira até mesmo em mulheres com menos de 50 anos, um grupo frequentemente considerado de baixo risco.
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No Brasil, a Fundação Instituto de Pesquisa e Estudo de Diagnóstico por Imagem (Fidi) corrobora a importância da vigilância constante e do rastreio em massa.
Dados recentes da instituição apontam que as mulheres representam 60,3% dos 4,8 milhões de exames de imagem realizados em 2025, com o volume absoluto da presença feminina em exames crescendo 8,2% em apenas um ano.
A médica radiologista e especialista em mamas da Fundação Instituto de Pesquisa e Estudo de Diagnóstico por Imagem (Fidi), Vivian Milani, destaca a importância clínica da descoberta:
Além de seu papel no diagnóstico precoce do câncer de mama, pesquisas apontam que a mamografia também pode revelar calcificações arteriais mamárias, achado associado em estudos a maior risco cardiovascular e que pode contribuir para o encaminhamento precoce dessas mulheres para investigação clínica complementar."
Muitas vezes, os sinais do infarto ou do AVC podem ser silenciosos ou se manifestar de forma diferente no organismo feminino em relação ao masculino.
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Identificação e prevenção
A detecção dessas calcificações por meio de um exame que já faz parte da rotina preventiva da mulher não gera custos ou inconveniências adicionais, oferecendo uma oportunidade para iniciar precocemente passos preventivos, como exames de colesterol ou prescrição de medicamentos.
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A adoção de medidas preventivas deve começar cedo, refletindo o perfil das pacientes que mais buscam os serviços de imagem. Dados da Fidi(2019 a 2026) sugerem que o público adulto feminino forma a maioria absoluta nos exames, totalizando 7,8 milhões de pacientes, em comparação a 4,9 milhões no público idoso.
Além da mamografia, exames como o raio-X de tórax atuam como importantes portas de entrada diagnóstica; com mais de 2 milhões de realizações entre as mulheres, o exame pode evidenciar sinais indiretos ou consequências de doenças cardiovasculares já sintomáticas ou avançadas, como a cardiomegalia, o aumento anormal da estrutura do coração.
Enfrentar simultaneamente desafios de saúde como o câncer de mama e as doenças cardiovasculares requer acompanhamento médico contínuo e a adoção de hábitos saudáveis, visto que grande parte dos casos de câncer mamário se liga a fatores comportamentais, como consumo de álcool, sedentarismo e obesidade.
A integração de tecnologias capazes de ler fatores de risco adicionais em exames de rotina consolida o que os médicos vêm defendendo na prática, afirma Vilani:
Quando falamos em saúde da mulher, é essencial olhar para ela de forma integral. Muitas doenças cardiovasculares evoluem silenciosamente, e a identificação precoce pode fazer toda a diferença no prognóstico e na qualidade de vida da paciente.”
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