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Molécula pode reduzir recorrência de AVC em 26%, mas ainda é inacessível

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Em pesquisa com 12.327 pacientes, a nova molécula oral asundexian mostrou redução do risco de AVC isquêmico recorrente - Envato Elements
Em pesquisa com 12.327 pacientes, a nova molécula oral asundexian mostrou redução do risco de AVC isquêmico recorrente
Por Bianca Bibiano

12/03/2026 | 10h39

São Paulo - Um estudo internacional, que aponta um novo medicamento capaz de reduzir em até 26% o risco de uma pessoa que teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC) sofrer um segundo evento, vem ganhando destaque desde que foi apresentado em fevereiro na Conferência Internacional de AVC 2026, nos Estados Unidos.

De acordo com a pesquisa, que incluiu 12.327 pacientes, a nova molécula oral asundexian mostrou redução significativa do risco de AVC isquêmico recorrente em comparação com placebo, quando ambos foram administrados em combinação com terapia antiplaquetária.

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O trabalho, chamado OCEANIC-STROKE, é o primeiro estudo de Fase III concluído com sucesso com um inibidor desse tipo a demonstrar superioridade na redução do AVC isquêmico recorrente em comparação com placebo.

"Um AVC é um evento que muda a vida dos pacientes e uma grande carga para a saúde pública. Os achados do OCEANIC-STROKE são uma conquista notável em pesquisa, demonstrando uma redução substancial no risco de AVC com asundexian em comparação com placebo, juntamente com um efeito de tratamento sustentado e um perfil de segurança sem aumento observado no sangramento grave, segundo a ISTH", disse Mike Sharma, investigador principal do estudo OCEANIC-STROKE.

"Para médicos e pesquisadores que passaram décadas trabalhando para reduzir o peso global do AVC secundário, os resultados representam o tipo de progresso científico que o campo se esforça para alcançar há muito tempo", acrescentou.

Qual o potencial do tratamento?

Especialistas apontam que a nova molécula chama atenção principalmente pelo mecanismo de ação, que busca prevenir eventos isquêmicos sem elevar o risco de sangramentos, um dos principais desafios das terapias atuais.

Segundo o neurologista Marco Oliveira Py, do Hospital São Lucas Copacabana - Rede Américas, a droga atua diretamente na cascata de coagulação, bloqueando um fator específico envolvido na formação de trombos. 

O especialista explica que esse ponto é especialmente relevante na prática clínica. "O grande problema do uso de anticoagulantes para prevenção do AVC é o risco de causar sangramentos, dentro do crânio ou em outras partes do corpo, como hemorragia digestiva ou urinária. O asundexian tem esse mecanismo interessante de prevenir isquemia sem aumentar o risco de sangramento."

De acordo com ele, os resultados apresentados no ensaio clínico são considerados robustos pela comunidade científica e reforçam o potencial da nova abordagem terapêutica. "Os pacientes que tiveram AVC isquêmico e passaram a usar, junto com um antiagregante plaquetário, essa droga nova tiveram um risco reduzido em 26% de recorrência do AVC. Isso é muita coisa."

Alto risco de recorrência de AVC

A neurologista Thais Augusta Martins, do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, explica que o risco de recorrência após um primeiro AVC é relevante e aparece de forma consistente nos estudos científicos. "Os dados da literatura variam de 7% a 12% em um ano e 20% a 30% em cinco anos. A gente está falando de uma consistência importante de um risco de um segundo evento isquêmico quando você teve o primeiro evento." 

Segundo a especialista, esse cenário ocorre mesmo entre pacientes que já passaram por investigação clínica e iniciaram o tratamento indicado para evitar novos episódios. "É um desafio, porque mesmo tratando a causa, ou seja, a prevenção pós-AVC, esse paciente ainda tem esse risco de um novo AVC", completa. 

O neurologista Marco Py acrescenta que esse risco é particularmente monitorado nos primeiros meses após o evento inicial e destaca:

"De quatro pessoas que tiveram um AVC isquêmico, uma vai ter um novo episódio em algum momento da vida, principalmente nessa fase inicial até cinco anos."

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A neurologista explica ainda que a profilaxia secundária envolve uma série de medidas clínicas e mudanças de hábitos que precisam ser mantidas após o primeiro evento.

"Estamos falando de uso de medicação, como antiagregante e anticoagulante, controle do colesterol com LDL no alvo certo, controle dos outros fatores de risco cardiovascular, de pressão alta, de diabetes e interrupção de tabagismo. Também evitar sedentarismo, praticar atividades físicas regulares e fazer controle da dieta. Isso tudo entra no pacote que a gente orienta ao paciente no pós-primeiro evento isquêmico agudo."

Sobre o estudo apresentado na conferência internacional, Martins explica que se trata de um ensaio clínico de fase avançada que avaliou diretamente a eficácia da nova molécula.

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"Esse estudo ainda está em fase 3 e testa a eficácia mesmo da molécula. E ele mostrou, sim, que ela é bem promissora ". Ela pontua, no entanto, que o medicamento não está disponível mundialmente porque ainda não tem aprovação de reguladores, nem internacionais, nem nacionais.

A farmacêutica Bayer, responsável pelo desenvolvimento do medicamento, afirma que pretende submeter os dados do estudo às autoridades regulatórias para avaliação e possível aprovação do asundexian.

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Segundo a empresa, o composto recebeu a designação de via rápida (Fast Track) da Food and Drug Administration (FDA), dos Estados Unidos, como tratamento potencial para prevenção de AVC em pacientes após um AVC isquêmico não cardioembólico.

Apesar do avanço, o medicamento ainda é considerado um composto em investigação e não foi aprovado por nenhuma autoridade de saúde para uso em qualquer país.

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