CONFIRA

Mulheres com depressão na menopausa já tinham sintomas aos 43, diz estudo

Pesquisa aponta pico entre 45 e 49 anos, na perimenopausa, e destaca o maior uso de antidepressivo e menos psicoterapia na fase seguinte

Emanuele Almeida

Por Emanuele Almeida

29/09/2026 | 09h04 ● Atualizado | 09h04

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Sete a cada 10 mulheres na pós-menopausa com depressão fazem uso de psicotrópicos - Adobe Stock
Sete a cada 10 mulheres na pós-menopausa com depressão fazem uso de psicotrópicos
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Estudo revela que a idade média do primeiro diagnóstico de depressão no Brasil é de 43 anos, antecedendo a menopausa, o que destaca a necessidade de atenção à saúde mental das mulheres nessa fase da vida.

A pesquisa, realizada pela Unifesp, aponta que cerca de 50% dos diagnósticos de depressão ocorrem entre 40 e 54 anos, período crítico que coincide com a transição para a menopausa.

Especialista defende a implementação de rastreios governamentais e a combinação de tratamentos, como terapia hormonal e psicoterapia, para melhorar a saúde mental das mulheres, enfatizando a urgência de intervenções precoces antes da menopausa.

Resumo gerado por IA

São Paulo - Durante anos, o debate sobre o Setembro Amarelo e saúde mental focou em jovens, deixando à margem uma fase crítica da vida feminina. No entanto, dados inéditos mostram que a idade média do primeiro diagnóstico de depressão no Brasil é de 43 anos, período que antecede os primeiros sinais da menopausa. 

A pesquisa, conduzida pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com o Science Valley Research Institute, que analisou 15.734 participantes da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) já na pós-menopausa, mostrou que maioria das mulheres que chegam nesse período com histórico de depressão adoeceram durante a transição, e não depois dela. 

A análise mostrou que cerca de metade dos primeiros diagnósticos nessa população ocorre entre 40 e 54 anos. A pesquisadora responsável pelo trabalho, Fabiane Berta, explica que as brasileiram entram na menopausa em média aos 48 anos, porém a depressão aparece bem antes. 

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Quando colocamos os números em linha, o achado aparece: depressão diagnosticada aos 43, irregularidade menstrual aos 46, menopausa aos 48. Metade dos primeiros diagnósticos [de depressão] se concentra entre 40 e 54 anos, com pico entre 45 e 49 - exatamente na transição. Esse é o achado da pesquisa."
Fabiane Berta, pesquisadora

Ela alerta que esse indicador de diagnóstico da depressão revelado pela pesquisa mostra que depressão chega antes da menopausa, em uma fase em que o sistema ainda enxerga essa mulher como jovem. Sendo assim, não há um rastreio do governo para entender as causas e o impacto da menopausa nisso.

"Achei que era covid"

A história da técnica de enfermagem Graziela Aparecida Alves, de 46 anos, ilustra perfeitamente essa estatística. Aos 42 anos, Graziela começou a sentir fadiga extrema, esquecimento, irritabilidade e uma profunda perda de perspectiva. Inicialmente, ela atribuiu os sintomas às sequelas da covid-19.

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No decorrer do tempo fui vendo que tinha algo a mais. Fiquei muito sem perspectiva de nada, só queria ficar em casa, tive crises de ansiedade e achei que estava no começo de uma depressão."
Graziela Aparecida

Sem encontrar alterações nos exames de rotina tradicionais, o quadro se agravou aos 44 anos. A virada de chave só veio quando ela buscou suporte terapêutico e psiquiátrico, aliado ao acompanhamento com a médico ginecologista. Foi então que compreendeu que as oscilações emocionais eram intensificadas pelo início da menopausa.

Graziela é uma mulher negra de cabelos escuros e compridos, usa óculos e está de pé em uma sala vestindo uma camisa branca e saia comprida
Graziela conta que precisou fazer mudanças drásticas na sua rotina envolvendo a alimentação exercícios e uso de remédios. Arquivo Pessoal/ Graziela Aparecida

Tatiane Berta reforça que a menopausa não acontece de um dia para o outro. "Ela é precedida pela perimenopausa, a transição, que dura de quatro a oito anos e é a fase de maior oscilação hormonal. No Brasil, as primeiras irregularidades menstruais começam por volta dos 46 anos", pontua. 

Para Graziela, que ainda está na transição para menopausa, esta falta de informação fez com que gerações anteriores da sua família aceitassem o sofrimento como "normal".

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"Se antigamente existisse essa informação, minha mãe teria buscado auxílio profissional para a menopausa e a saúde mental bem antes", desabafa.

Descompasso no tratamento

Fabiane Berta explica que a menopausa em si marca uma período de transição hormonal intenso da mulher e é caracterizado por "12 meses sem menstruar". E na pós-menopausa, o hormônio estabiliza em um nível baixo. Depois disso, o humor tende a se estabilizar também, mas aí pesam o sono ruim, os fogachos e a saúde cardiometabólica.

Os dados do estudo da Unifesp revelam um contraste marcante no formato de cuidado mental oferecido às mulheres brasileiras nessa faixa etária e que estão passando por estas mudanças:

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  • Uso de medicamentos: 74% das mulheres na pós-menopausa com depressão fazem uso de psicotrópicos (remédios que agem no sistema nervoso central), contra 53,3% no grupo em período reprodutivo;
  • Acesso à psicoterapia: apenas 16,7% das mulheres na pós-menopausa com depressão realizam acompanhamento psicoterapêutico, enquanto no grupo reprodutivo a taxa é de 27,3%.
A mulher no pós-menopausa recebe 40% mais antidepressivo e 40% menos psicoterapia. A gente está oferecendo o remédio, mas não está oferecendo a escuta."
Fabiane Berta

A especialista explica que os sintomas do climatério e da depressão frequentemente se sobrepõem e se confundem. Sendo assim, o cansaço, insônia, névoa mental, desânimo e alterações de humor podem ser fruto da oscilação hormonal, de um quadro depressivo primário ou de ambos somados.

Para identificar a gravidade dos sintomas e direcionar o tratamento correto, a médica defende também o uso de questionários específicos diretamente nas consultas de rotina.

Para além dos sintomas físicos e mentais, outros fatores como trabalho formal e o trabalho doméstico intensificam a rotina cansativa das mulheres assim como os sintomas da menopausa. Nesse cenário, a compreensão e acolhimento da família se tornam pontos fundamentais no tratamento. 

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A técnica de enfermagem relembra que não teve uma compreensão da família quando seus sintomas foram agravados. "Pensam que é drama, que a gente tem que aguentar porque é um período que passa", lembra. 

Tratamentos combinados

Uma dúvida frequente entre as pacientes é se a reposição hormonal é capaz de tratar a depressão sozinha. Berta é categórica:

"A terapia hormonal é uma grande aliada, mas ela não trata depressão sozinha. Depressão precisa de diagnóstico, psicoterapia e, quando necessário, medicação. O que a gente aprendeu é que o hormônio soma. Quando a mulher volta a dormir e os calores diminuem, o tratamento da depressão funciona melhor", afirma a médica.

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Ela destaca que estudos demonstram que a combinação de antidepressivo e terapia hormonal apresentou resultados superiores à utilização de apenas uma das terapias isoladamente. Além disso, certos antidepressivos podem ajudar a mitigar os fogachos em mulheres com contraindicação ao uso de hormônios.

Para Graziela Alves, a combinação de psiquiatria, terapia hormonal, suplementação e mudanças no estilo de vida — como a prática de pilates, academia e yoga — permitiu a retomada completa da sua rotina. "Hoje sou outra mulher. Estou terminando minha graduação em enfermagem, saio para curtir a vida, vou ao cinema e faço meus exercícios. Minha vida é completamente outra", comemora.

Futuro da pesquisa

O panorama nacional da saúde mental feminina começa a ganhar contornos mais bem definidos. O IBGE está conduzindo a terceira edição da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS 2026), que percorrerá cerca de 140 mil domicílios para avaliar as transformações nos indicadores pós-pandemia.

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Paralelamente, o estudo Embrace, idealizado por Fabiane Berta e patrocinado pelo Science Valley Research Institute, está acompanhando 1.592 participantes de 35 a 65 anos em todas as 27 capitais brasileiras para mapear com precisão o impacto da menopausa na qualidade de vida e no acesso à saúde.

A mensagem central que fica para este Setembro Amarelo é a urgência da intervenção precoce. "Se a brasileira recebe o primeiro diagnóstico de depressão aos 43 anos e entra na menopausa mais cedo que a média global, não podemos esperar ela parar de menstruar para começar a olhar para ela. O cuidado precisa chegar antes", finaliza Berta. 

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