Pesquisa aponta que uso de IA deve ser a maior tendência na saúde em 2026
Adobe Stock
São Paulo - O uso de Inteligência Artificial por profissionais da saúde já está presente em 32% das instituições, e é objetivo de outras 40%. Os dados são da pesquisa "Panorama das Clínicas e Hospitais 2026", produzida pela plataforma de saúde Doctoralia.
Leia também: IA vai dar diagnóstico? Entenda a nova resolução do CFM
A empresa buscou mais de 600 profissionais da área no Brasil, e questionou qual seria a maior tendência da saúde brasileira em 2026. A maior resposta foi a automação com IA (38%), seguindo da conciência da população quanto ao bem-estar (37%) e a humanização do paciente por meio da tecnologia (36%).
O sócio-executivo na Telepacs e especialista em gestão estratégica em saúde, Gustavo Pedreira, comenta que um grande uso pode estar nos bastidores, com a IA cuidando de agendamentos e reduzindo custos enquanto a equipe médica foca no cuidado do paciente.
A pesquisa mostra que essa também é a visão das instituições, com 40% delas aplicando a ferramenta em agendameto de consultas e apenas 9% aplicando em diagnósticos, um uso mais delicado desta inovação.
Esta divisão entre cuidados, com a máquina voltada à parte mecânica e o médico voltado ao lado humano, também é defendida pelo gerente médico de inovação no Hospital Israelita Albert Einstein, Thiago Júlio.
Para ele, o médico deve ter responsabilidade tanto na aplicação da tecnologia quanto na privacidade do paciente, sem deixar que o julgamento clínico seja substituído.
A IA cuidará dos dados; o médico continuará sendo o ponto focal da confiança, empatia e decisão complexa."
Barreiras na implementação da IA
Apesar da forte tendência, a tecnologia ainda tem um grande caminho a percorrer para se tornar presente em todas as clínicas. Para os entrevistados, os maiores limitadores na adoção são o custo das ferramentas (44%) e a falta de conhecimento sobre elas (40%).
O terceiro maior limitador, e uma preocupação constante sempre que se fala em aplicação de IA, é a privacidade de dados (21%). Para este cuidado, Pedreira comenta que a tecnologia é o primeiro passo, mas não garante o uso inteligente.
Antes de aplicar qualquer inovação, as instituições devem dominar processos, pessoas e tecnologia. "Também não podemos esquecer que a operação deve ser sustentada por rigorosa governança, segurança e sigilo de dados", diz.
Outro cuidado necessário está da resistência das pessoas, tanto profissionais quanto pacientes. Especialmente nas faixas etárias mais velhas, a desconfiança nas IA's é presente.
Leia também: Pessoas 60+ não confiam em IA na saúde e sim em médicos, diz pesquisa
Júlio, no entanto, relembra que protocólos e algorítimos auxiliando na decisão médica não são novidade. Assim como em manuais de diagnóstico, o especialista explica que o médico sempre pode, e deve, controlar tanto a escolha da ferramenta quanto o bom uso dela.
"Eu não gosto de olhar pelo lado das barreiras. Assim como nos aplicativos de mensagem ou transporte, o público 60+ é um grande impulsionador das tecnologias", completa Júlio.
Foco necessário no cuidado além da consulta
Por fim, a pesquisa aponta um ponto cego: 67% das clínicas não conhecem a jornada detalhada do seu paciente. Na área da saúde, a "Jornada do paciente" é entendida como um ciclo, que vai desde a conscientização de um sintoma até o acompanhamento pós-tratamento.
Júlio, do Einstein, comenta que esta é a maior barreira atualmente: primeiro se deve conhecer o ser humano que está em tratamento, e depois pensar em quais tecnologias digitais serão aplicadas. Para ele, o País está atrasado neste sentido, pois o "espaço entre as consultas é um abismo", no qual o profissional não sabe do estado do paciente.
Leia também: Diagnóstico por algoritmo: o SUS está pronto para a IA?
O diretor de Marketing da Doctoralia no Brasil e no Chile, Gabriel Manes, também vê com preocupação essa falta de acompanhamento, que deveria ter o cuidado humano como foco.
"A inovação na saúde não pode ser apenas sobre ferramentas, mas sobre resultados na ponta para o paciente. Perceber que a maioria das clínicas ainda não estruturou o mapeamento do paciente, reforça a necessidade urgente de integrar a tecnologia a uma visão mais analítica e centrada no cuidado humano".
*Estagiário sob supervisão de Luana Pavani
Comentários
Política de comentários
Este espaço visa ampliar o debate sobre o assunto abordado na notícia, democrática e respeitosamente. Não são aceitos comentários anônimos nem que firam leis e princípios éticos e morais ou que promovam atividades ilícitas ou criminosas. Assim, comentários caluniosos, difamatórios, preconceituosos, ofensivos, agressivos, que usam palavras de baixo calão, incitam a violência, exprimam discurso de ódio ou contenham links são sumariamente deletados.
