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Diagnóstico por algoritmo: o SUS está pronto para a IA?

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A IA avança nos bastidores da saúde pública, acelerando diagnósticos e triagens, enquanto especialistas debatem seus limites e riscos - Envato
A IA avança nos bastidores da saúde pública, acelerando diagnósticos e triagens, enquanto especialistas debatem seus limites e riscos
Por Felipe Cavalheiro

04/01/2026 | 13h36 ● Atualizado em 05/01/2026 | 09h37

São Paulo, 04/01/2026 - Seguindo a tendência do setor particular da saúde, ainteligência artificial já está sendo aplicada no SUS (Sistema Único de Saúde). Segundo apresentação do Ministério da Saúde em audiência pública na Câmara dos Deputados, a tecnologia está sendo aplicada em três frentes diretamente ligadas à saúde pública: diagnóstico clínico, vigilância sanitária e gestão de serviços. Isso inclui desde o uso de algoritmos para analisar exames e apoiar decisões médicas, até ferramentas que fiscalizam ambientes hospitalares e otimizam o funcionamento das unidades de saúde.
O sistema começa a experimentar uma revolução silenciosa — uma transformação que promete mais agilidade, precisão e eficiência no cuidado com o paciente. Mas diante de tamanha mudança, surge uma pergunta inevitável: o SUS está realmente pronto para confiar seus diagnósticos a máquinas?

Os desafios do viés algorítmico e da proteção de dados


Entre os muitos desafios que acompanham a adoção da inteligência artificial no SUS, o viés algorítmico desponta como uma preocupação central. Muitos sistemas são treinados com dados vindos de um grupo com pouca diversidade, o que acaba dizendo pouco sobre a população do país, como explica o especialista em Inteligência Artificial e CEO da Performa_IT,  Leonardo Tristão.

“O viés algorítmico é um dos maiores desafios em um país como o Brasil, onde o SUS atende uma população extremamente diversa em termos de idade, etnia, condições de saúde e até hábitos culturais.”

A preocupação não é apenas técnica, mas ética. Um algoritmo treinado com dados de uma região urbana pode falhar ao analisar um paciente de uma comunidade rural. “A inserção e avaliação dos dados nem sempre colaboram com a realidade daquela região, daquela população”, explica Dr. Marcelo Carvalho, pediatra e neonatologista. “Um algoritmo treinado em um contexto pode falhar em outro. Por isso, ele nunca pode substituir o olhar clínico.”

Outro pilar essencial para a adoção da IA na saúde pública é a segurança da informação. Os dados clínicos não são apenas números, são registros íntimos da vida dos pacientes.

“Esses dados revelam informações sensíveis sobre a saúde das pessoas. Por isso, precisam ser protegidos com rigor. Se não forem tratados adequadamente, os riscos são enormes. O mais imediato é o vazamento de informações pessoais, que pode expor diagnósticos, tratamentos ou condições de saúde que deveriam permanecer em sigilo. Mas existe também o risco de uso indevido, como a venda de dados para fins comerciais, ou até discriminação, caso seguradoras ou empregadores tenham acesso a informações médicas de forma indevida”, afirma Tristão.

A tecnologia tem algumas formas de proteger a privacidade dos pacientes. Uma das principais é a anonimização: os dados passam por um processo que retira informações que poderiam identificar a pessoa, mantendo apenas aquilo que é útil para análise.

Outro recurso é a criptografia, que transforma as informações em códigos indecifráveis sem a chave de acesso correta. Além disso, existem técnicas mais avançadas, como o acesso segmentado, que garante que cada profissional só veja os dados realmente necessários para o seu trabalho, e o registro de auditoria, que rastreia quem acessou quais informações e quando.

Aplicações da IA na medicina

A IA pode ser decisiva para tornar o sistema mais eficiente. Tristão explica ela ataca três gargalos ao mesmo tempo: acesso, qualidade e eficiência. “Com regras simples e firmes, a IA deixa de ser promessa e vira infraestrutura de saúde. Em saúde, inovar é ganhar tempo, e tempo salva vidas”, reforça o especialista.  Exemplos práticos incluem:

  • Triagens mais rápidas: algoritmos priorizam casos críticos e distribuem pacientes entre unidades com capacidade disponível.
  • Diagnósticos mais assertivos: sistemas apontam padrões em exames repetitivos e liberam o médico para os casos complexos.
  • Gestão inteligente de recursos: predição de demanda de leitos, escala de equipes e abastecimento de insumos, reduzindo desperdício.
  • Monitoramento remoto de pacientes crônicos: cuidado contínuo para evitar internações desnecessárias.

O pediatra Marcel Carvalho afirma que, independente do suporte oferecido pela máquina, o ser humano precisa estar sempre a frente. 

“O médico sempre vai ser o protagonista da decisão. Até porque, caso ocorra alguma situação ruim, não há possibilidade jurídica de se colocar a responsabilidade na inteligência artificial. A IA é ferramenta, não é substituição.”

IA e humanização do atendimento


Um dos argumentos mais sensíveis no debate sobre IA na saúde é o impacto na relação médico-paciente. Para Carvalho, tudo depende de como a tecnologia será usada. Ele explica que, ao assumir tarefas burocráticas — como a descrição de consultas ou preenchimento de prontuários — a IA pode liberar tempo para que médicos e profissionais de saúde se dediquem mais ao paciente. “Se o burocrático fica para a inteligência artificial, o médico tem mais tempo de atender o paciente. Isso conseguiria fazer com que se humanize o atendimento em saúde.”

Por outro lado, ele alerta: “Se você utilizar a inteligência artificial para atender o paciente diretamente, então você desumaniza o atendimento. A pergunta não é se a IA humaniza ou não, é como vamos usá-la para que as consultas fiquem mais humanizadas.”

E o SUS, está pronto para a IA?

Para ser implementada com eficiência no Sistema Único de Saúde, Tristão defende a necessidade de uma regulação clara, que seja aplicável universalmente e não realce desigualdades. Ele explica que uma simples diferença no Modelo de IA usando para triagem pode criar diferenças na qualidade do serviço. Além disso, pontua alguns passos que devem ser garantidos para a implementação:

"O primeiro é infraestrutura digital: muitos hospitais e unidades de saúde ainda operam com sistemas pouco integrados, o que dificulta a coleta e o uso de dados em escala. O segundo é a padronização de dados de saúde, porque cada estado ou município registra de um jeito, e sem essa base comum é quase impossível treinar modelos confiáveis. Outro ponto é a formação e capacitação de profissionais, tanto na área médica quanto na área técnica, para que saibam usar e avaliar as ferramentas de IA de forma crítica.”

Carvalho acha necessário um cuidado com a ética, e um debate entre os riscos e benefícios da Inteligência Artificial, que pode também ocasionar em problemas de saúde pública. Mesmo assim, segue otimista com a transformação digital do SUS. 


“O SUS é um sistema de saúde único, universal e robusto, no país e no mundo. Com todas as suas dificuldades, ele funciona. E o SUS está apto para se adequar a essas novas tecnologias, como já fez com outras no passado.”
*Estagiário sob supervisão de Alessandra Taraborelli

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