Pesquisas com exoesqueleto podem ajudar em Alzheimer, diz Miguel Nicolelis
Divulgação/ISD
São Paulo - Quem puxar pela memória vai se lembrar que na abertura Copa do Mundo de 2014, uma cena breve, mas marcante para a ciência, ganhou o mundo: a imagem de um homem atrelado a um exoesqueleto dando um primeiro chute simbólico na bola, ao demonstrar uma promissora tecnologia capaz de reabilitar os movimentos em pessoas que já não podiam andar.
À época, o médico e cientista brasileiro Miguel Nicolelis, responsável pela criação, ganhou destaque nacional ao tentar explicar o funcionamento da chamada interface cérebro-máquina e seus benefícios aos pacientes com lesão medular.
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Doze anos depois, a pesquisa avançou em parceria com a China e encontrou achados inéditos que podem mudar a forma como entendemos o envelhecimento do cérebro, contou pesquisador em entrevista exclusiva ao VIVA.
Apesar das possibilidades nesse campo, Nicolelis diz não ver futuro real em pesquisas que propõem a imortalidade humana, e se mostra crítico das empresas agetechs, que propõem uma série de tratamentos para estender o tempo de vida de quem possa pagar.
A noção de que a espécie humana pode ser imortalizada, que nós podemos viver para sempre, até prova em contrário, é puro lero-lero de empreendedor de startup americana do Vale do Silício que quer levantar dinheiro. Não tem nenhuma pílula mágica aí fora."
Atualmente vivendo no Brasil após morar mais de 30 anos nos Estados Unidos, Nicolelis diz que essa questão perpassa apenas uma das suas muitas frentes de trabalho.
Em outra área, ele destacou seu retorno à presidência do Conselho de Administração do Instituto Santos Dumont, em Macaíba (RN), centro de alta tecnologia de pesquisa neurocientífica idealizado por ele há 23 anos e que realiza projetos de ciência, educação e saúde com milhares de atendimento em saúde gratuitos à população ligados à pré-natal de alto risco, neuroreabilitação, lesão medular e autismo e, futuramente, reabilitação de atletas paralímpicos.
Também comentou o impacto das big techs na sociedade e na economia, e falou sobre como esse tema permeia seu aguardado livro 'N.I.N.A.: Nem Inteligente, Nem Artificial', com lançamento previsto para este ano.
Leia mais na entrevista a seguir:
VIVA: Como suas pesquisas com a interface cérebro-máquina se aproximam do tema do envelhecimento cerebral?
Miguel Nicolelis - Nós acabamos de publicar o preprint, em dezembro, e agora estamos publicando o trabalho final de um estudo clínico de vários anos realizado em colaboração com o Hospital Xuanwu, em Pequim, na China. Nós pudemos seguir, durante nove meses, a evolução de 19 pacientes com no mínimo dois e até 25 anos de lesão medular. Eles foram divididos em grupo controle, que simplesmente fez a fisioterapia natural e normal praticada na China, e um grupo com o nosso protocolo de interface cérebro-máquina de neuroreabilitação. Esse protocolo foi criado aqui no Brasil, em 2013, para a abertura da Copa do Mundo de 2014, e depois começou a ser aplicado em outros grupos de pacientes com lesão medular crônica.Fizemos imagens antes de começar o protocolo, depois de cinco semanas de treinamento, nove semanas e depois do término.
O que as imagens mostraram?
O que foi muito interessante notar, com os dados coletados antes de se iniciar o estudo, foi que, como tínhamos pacientes com 15, 20 ou até 25 anos de lesão medular, nós notamos uma atrofia de áreas corticais, da superfície do cérebro.
Vimos um padrão de atrofia que é semelhante ao que se vê tanto no envelhecimento natural do cérebro humano quanto nas doenças neurodegenerativas, principalmente na doença de Alzheimer, só que acelerado. Foi como se a lesão medular tivesse induzido uma aceleração desse processo natural de envelhecimento."
O que a gente esperava ver, e o que todo mundo tinha relatado na literatura nos trabalhos feitos até hoje, era uma atrofia das regiões que coordenam os movimentos da parte do corpo que ficou paralisada, o córtex motor. Nós encontramos essa atrofia. Vimos que, por exemplo, a região do lobo temporal, que ninguém associa com lesão medular até hoje, estava sofrendo uma atrofia importante. São áreas muito importantes para a memória, para a localização espacial.
Áreas que, quando você olha numa pessoa mais idosa, mesmo que ela não tenha nenhum tipo de doença neurológica, começa a notar sinais de atrofia. No entanto, o envelhecimento natural é um processo muito mais lento do que observamos nesses pacientes.
E como o protocolo de neuroreabilitação conseguiu interferir nesse quadro de envelhecimento precoce?
Nós olhamos no grupo controle e ele continuava a ter o aumento desta atrofia. Só que para os nossos pacientes, que usaram o protocolo de neuroreabilitação baseado no uso da interface cérebro-máquina não invasiva - onde o paciente usa a atividade elétrica do cérebro para controlar diretamente, em tempo real, ou um avatar de si mesmo no mundo virtual ou um robô, o exoesqueleto que ele veste -, esse treinamento começou a reverter a aceleração da atrofia cortical. Começamos a ver sinais de recuperação do volume do cérebro em relação ao grupo controle, que continuava piorando.
O uso da interface cérebro-máquina combinada com o exercício físico, porque a pessoa começava a se movimentar, fez com que ela fosse ganhando ou recuperando movimentos dos membros inferiores. Alguns desses pacientes recuperaram uma mobilidade impressionante.
Nós pusemos os pacientes em esteiras, eles começaram a andar com a ajuda de andadores robóticos e depois, por si só. Eles só precisavam de um andador metálico, desses que a gente vê com pessoas idosas, que custa muito barato, para poder andar novamente depois de anos confinados numa cadeira de rodas.
Qual a hipótese?
Esse estudo, sem querer, me colocou nessa interface com a neurociência do envelhecimento natural humano ou das doenças neurodegenerativas."
Levantou a hipótese, que precisa ser testada com o mesmo hospital e com outros parceiros ao redor do mundo, de que talvez se possa usar essa mesma metodologia não só para pacientes com lesão medular mas também para pacientes que estão envelhecendo ou com algum quadro demencial iniciando, para tentar retardar essa aceleração do envelhecimento que se vê no Alzheimer. Essa é uma das hipóteses de que essas doenças produzem essa aceleração.
Existe muito debate ainda sobre isso, mas foi muito surpreendente encontrar algo assim em pacientes medulares, ninguém esperava ver isso. Por isso decidimos publicar um preprint com 200 páginas para poder colocar todas as imagens, todo o material e os dados coletados originais para que todo mundo tenha acesso antes de publicar o artigo definitivo. O artigo final é um resumo, porque a quantidade de dados coletados é de centenas de terabytes.
Além dessa terapia de ponta, o que a ciência valida como eficaz para retardar o envelhecimento do cérebro?
Nós estamos cada vez mais observando confluências de áreas de pesquisa que eram totalmente independentes. Eu, em minha pesquisa sobre epilepsia como base de várias doenças do cérebro, dez anos atrás, comecei a sugerir que essa divisão clássica entre neurológico e psiquiátrico talvez já estivesse ultrapassada, o cérebro não faz essa diferença. Essa visão mais holística do cérebro começou a tomar fôlego e está crescendo rapidamente.
Para se ter uma ideia, cada vez mais ganha credibilidade a ideia de que um dos fatores fundamentais é o exercício físico. O nosso cérebro surgiu na pré-história, há 300 ou 400 mil anos, e é um cérebro condicionado a uma existência onde o exercício físico era vital para a sobrevivência e para manter o órgão irrigado continuamente com oxigênio e com sangue.
Nós temos o coração que faz a função principal do sistema cardiovascular, mas os nossos calcanhares são bombas hidráulicas que, quanto mais a gente anda, mais elas bombeiam o sangue de volta para o cérebro, passando pelo coração.
O exercício físico, com o qual até pouco tempo poucas pessoas fora do mundo esportivo faziam uma conexão tão ampla e profunda com o sistema nervoso central, agora está se transformando numa das áreas de prioridade."
E não é o exercício físico louco, correr uma maratona por dia ou ficar na academia levantando peso o dia inteiro. São 30 a 50 minutos de caminhada, exercícios com peso, mas tranquilos, nada do outro mundo. A manutenção da vitalidade muscular parece ser fundamental para a saúde mental.
Descobrimos recentemente, não tem uma década, que os músculos também funcionam como glândulas endócrinas. Eles liberam moléculas na corrente sanguínea que vão até o cérebro e incentivam a produção de hormônios do crescimento que são fundamentais para a proliferação de conexões neurais ou mesmo de neurônios. Para mim é quase uma surpresa ver a confluência dessas áreas.
Diante de toda essa evolução, o mercado bilionário da tecnologia frequentemente promete a extensão da vida ou até a imortalidade. É possível enxergar esse futuro?
Eu acho que pode aumentar a longevidade, mas, na realidade, existe muito hype em torno disso.
A noção de que a espécie humana pode ser imortalizada, que nós podemos viver para sempre, até prova em contrário, é puro lero-lero de empreendedor de startup americana do Vale do Silício que quer levantar dinheiro. Que você possa aumentar em alguns anos, talvez até em uma década ou mais, tudo bem, eu consigo ver essa possibilidade. Não tem nenhuma pílula mágica aí fora.
Eu encararia toda essa área sempre com o pé atrás, porque existe muito exagero devido à necessidade de criar notícias para receber investimento. Depois de quase 40 anos nos Estados Unidos, já vi de tudo. Já vi empresas que iam salvar a humanidade durarem dois ou três anos e falirem completamente, sem deixar rastro da existência.
A biologia é muito mais complicada do que qualquer sistema físico que os físicos estudam, e eles sabem disso. Achar que você vai resolver o problema mudando uma proteína ou um gene é muita inocência.
E na área das big techs, veremos um fenômeno, que é provavelmente a explosão da bolha da bolsa de valores na área de inteligência artificial, que vai impactar o mundo todo. A economia americana está atrelada de tal forma que por volta de um terço do mercado de ações deles está investido em apenas sete empresas. É uma coisa assustadora.
Nós estamos gerando, artificialmente, uma crise que não vai ficar restrita ao sistema financeiro, porque está tudo interconectado. A própria ciência está pagando esse preço.
Para você ter uma ideia, no ano passado o governo americano, através do National Institute of Health (NIH), que financiou a minha carreira inteira por mais de 30 anos, cortou 90% dos novos projetos. Esse corte resultou no desaparecimento de 25.000 cientistas do sistema, que saíram da rede de financiamento de pesquisa.
O sistema americano de produção científica está colapsando.Esse é o nosso drama. A ciência hoje em dia tem um papel geopolítico muito mais importante do que talvez teve em toda a história da humanidade, mas os políticos mundo afora não conseguem ver isso, não é só no Brasil.
As big techs não representam a ciência, não representam nem mesmo a inovação. É uma nova forma de colonialismo, inclusive, que gera um lucro para elas, mas não para os seus clientes. É tudo uma narrativa. São histórias.
No livro que estou escrevendo atualmente sobre esse tópico, que se chama 'N.I.N.A.: Nem Inteligente, Nem Artificial', eu mostro que é como se estivessem criando uma nova religião.
É quase como um culto que vende a miragem de progresso e inovação sem seres humanos. O único drama desse culto é que ele não precisa de membros orgânicos. Os proponentes dessa religião sugerem que nós temos que nos conformar com o fato de que estamos nos transformando numa espécie obsoleta que vai ser substituída por robôs pensantes. Isso é o que eles querem.
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