Cristina Palmaka
Colunista VIVA
15/06/2026 | 08h15
Sobre a
coluna
Sobre a coluna
Conselheira de empresas e mentora de startups. Ex-CEO da SAP para América Latina, também ocupou cargos C-level em empresas como Philips, HP e Microsoft. É maratonista desde 2003.
IA não tem volta, mas dá para usar sem perder a cabeça
Envato
São Paulo - Há alguns dias vi um vídeo da Oprah Winfrey em que ela começava uma entrevista dizendo que usava a IA (inteligência artificial) para pesquisas e para outras coisas do dia a dia, mas nunca para preparar suas entrevistas. “Eu tenho que manter a minha alma nas perguntas que vou fazer para os entrevistados”, justificou a apresentadora.
Mas naquele dia ela abriu uma exceção e pediu à plataforma Claude para propor a questão mais premente que se poderia fazer ao Dario Amodei, CEO da Anthropic. “Você disse que havia uma chance mínima de a IA exterminar a humanidade, mas ainda assim você está acelerando o desenvolvimento dessa tecnologia. Como você justifica isso?”
A entrevista toda é ótima (veja aqui) e pensei nela quando estava rascunhando esta coluna. Primeiro, porque, como o Claude e como a Oprah, me preocupo com o uso adequado da IA. A resposta do Dario vai ao encontro do que eu, que por muitos anos atuei como executiva na indústria de tecnologia e atualmente falo sobre esses temas nos Conselhos de Administração, penso:
Não dá para barrar a evolução deste trem veloz, mas temos a obrigação de colocá-lo nos trilhos, para que ele traga mais benefícios às pessoas do que riscos."
Segundo porque, como a Oprah, eu prefiro colocar meus pensamentos no “papel” e não recorrer à IA para escrevê-los. Eu também tenho usado um bocado os apps de IA generativa para me ajudar em muitas coisas, da vida pessoal ao trabalho. Mas preservo o hábito de tomar notas não em papel. Escrevo à mão num notepad digital. É a forma que funciona para eu desenvolver ideias, gravar registros e aprender!
Eu falei na minha primeira coluna que algo que estou adorando fazer nesta nova fase, pós vida corporativa, é estudar mais. E meu notepad é meu companheiro de estudos e de todas as horas. Como ele, meus pensamentos fluem melhor.
Mesmo que você ainda não tenha sucumbido a algum app de IA, saiba que já está usando a tecnologia, embutida em tantas outras, da Alexa, que toca sua playlist favorita e te conta como está o clima hoje, ao Waze, que indica a melhor rota para chegar no seu destino.
Mas a verdade é que o uso de AI generativa nas faixas etárias mais altas tem crescido um bocado. A pesquisa "Senior Mode", feita pela Box 1824, em parceria com a McKinsey, sobre hábitos de consumo dos chamados “baby boomers”, revela que 35% dos brasileiros com mais de 60 anos usam IA mensalmente.
As ferramentas de IA, como o Claude, ChatGPT, Gemini e tantas outras, funcionam muito bem para romper barreiras de entrada, justamente por compreenderem a linguagem natural humana (LLM é a sigla em inglês para grandes modelos de linguagem). A dificuldade para lidar com programas e aplicativos diminui bastante com o uso do chat para interação, inclusive feita por voz, prescindindo da digitação.
Impactos da IA
Porém, como toda nova tecnologia que vem para romper com o que estava estabelecido, a IA tem gerado temores e dúvidas. Uma delas é se a IA vai acabar com nossos empregos. É difícil prever o exato impacto, porque estamos presenciando uma daquelas épocas de revolução no modo de trabalho.
Mas, antes de sucumbir ao alarmismo, prefiro que nos lembremos de tantas mudanças pelas quais o mundo já passou, profissões que caíram em desuso e tantas novas que surgiram.
Na maioria das vezes, o que vimos ao longo da história foi que a mecanização e automação permitiram que o trabalho ficasse menos manual, com um significativo desenvolvimento do trabalho intelectual.
Um exemplo: eu me formei em Contabilidade (embora nunca tenha atuado como contadora). Antes do advento das planilhas eletrônicas, como o Excel, era muito comum a figura do escriturário, o profissional que registrava manualmente em um livro de notas as entradas e saídas da contabilidade. A partir dos anos 90, com a popularização destes softwares, a oferta de emprego para escriturários foi caindo. Já as posições de planejamento e análise financeira cresceram. Ou seja, houve uma clara evolução no papel destes profissionais.
Raciocínio e escrita
Outro ponto polêmico em torno da IA é se o seu uso afeta nosso corpo cérebro. Estudos científicos têm apontado que este é sim, um ponto de atenção. Uma pesquisa publicada pelo MIT Media Lab no ano passado trouxe o conceito de "dívida cognitiva”, relacionando o uso de IA com uma possível atrofia cognitiva. A pesquisa apontou uma diferença significativa na conectividade cerebral entre quem usou IA para escrita e quem recorreu apenas ao próprio raciocínio.
A chave para isso é não consumir a IA de forma passiva. É crucial manter o espírito crítico frente às respostas geradas pela IA, que aliás tem seus vieses e comete erros, já que está baseada em fontes tão diversas como a nossa sociedade. A IA pode nos ajudar em pesquisas e validar ideias, mas o pensamento deve ser nosso."
E por falar em pensamento próprio: uma pesquisa mostrou que um grupo de idosos japoneses de Kyoto que manteve o hábito de escrever diariamente por 15 minutos apresentou menos declínio cognitivo.
Escrever à mão exige coordenação motora, atenção e memória, estimulando regiões do cérebro de forma muito mais intensa do que a digitação em teclados e smartphones. É um exercício que mobiliza o corpo e a mente ao mesmo tempo.
A boa notícia é que os benefícios também se estendem à escrita feita na tela. Então o meu notepad segue tendo lugar garantido na rotina!
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