CBD e THC: entenda como cada composto da cannabis atua no organismo
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São Paulo - O uso da cannabis medicinal vem ganhando cada vez mais espaço no Brasil. Principalmente após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovar nova regulamentação para a produção e comercialização no País.
Com isso, surgem dúvidas comuns: afinal, o que é o THC e o CBD? Como eles interagem com o nosso organismo e quais são as suas principais diferenças?
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O que são o THC e o CBD?
O médico psiquiatra e membro da Comissão Científica da Expocannabis, Wilson Lessa Jr explica que o THC (tetrahidrocanabinol) e o CBD (canabidiol) são fitocanabinoides, ou seja, substâncias químicas presentes na planta Cannabis.
"Eles foram isolados pela primeira vez na década de 1960. Esses dois compostos são os grandes responsáveis por boa parte dos efeitos farmacológicos e terapêuticos da planta", adiciona Lessa.
No entanto, para compreender como eles funcionam, primeiro precisamos entender onde eles atuam no nosso corpo. Lessa lembra que, na transição dos anos 1980 para a década de 1990, a ciência descobriu que o corpo humano possui um sistema próprio chamado Sistema Endocanabinoide.
Ele é um sistema fisiológico de sinalização celular que tem como principal objetivo buscar o equilíbrio (homeostase) de outros sistemas do nosso organismo", aponta.
O psiquiatra explica que, em uma pessoa saudável, esse sistema possui cinco funções essenciais no dia a dia:
- Comer: modula o apetite, tanto para aumentá-lo quanto para diminuí-lo;
- Dormir: regula o ciclo de sono e vigília;
- Relaxar: ajuda o corpo a voltar à normalidade após picos de ansiedade ou preocupação;
- Proteger: regula o sistema imunológico, evitando respostas imunológicas excessivas, fator que é muito útil no tratamento de doenças autoimunes.
- Esquecer: auxilia na extinção da "memória de medo" e traumas, fundamental para a nossa sobrevivência emocional e mental.
É exatamente nesse sistema que o CBD e o THC vão atuar, mas cada um tem a sua maneira particular de fazer isso.
Como o CBD age no corpo e para que serve?
O Canabidiol (CBD) é um modulador do sistema endocanabinoide. "Curiosamente, ele não age diretamente nos receptores do nosso corpo. Em vez disso, ele inibe uma enzima que degrada a anandamida, o principal endocanabinoide que o nosso próprio corpo produz naturalmente", observa Lessa.
A partir dessa ação, o CBD aumenta a oferta natural de anandamida. Além disso, ele atua em vários outros receptores do corpo, como os de serotonina, tendo uma ação multimodal.
Principais usos e efeitos do CBD:
O CBD possui maior comprovação científica nos seguintes tratamentos:
- Controle de crises: possui o mais alto nível de evidência científica no tratamento de epilepsia;
- Autismo: pessoas no Espectro Autista costumam ter o tônus do sistema endocanabinoide diminuído, o que prejudica o filtro sensorial, causando sensibilidade a luz e som. Assim, o CBD ajuda a modular esse filtro, melhorando a adaptação;
- Saúde mental: Tem forte ação ansiolítica e, em doses altas, efeitos antipsicóticos.
Um ponto importante, é que, diferentemente do THC, o CBD não tem a característica de causar dependência e não induz quadros psicóticos. No entanto, o médico psiquiatra alerta: "O CBD possui muitas interações medicamentosas. Em idosos que tomam vários remédios, é preciso cuidado redobrado na recomendação".
Como o THC age no corpo e para que serve?
Diferente do CBD, o THC age de forma direta nos receptores canabinoides do nosso corpo, simulando a ação da nossa própria anandamida.
Lessa destaca que, embora o THC seja conhecido pelos seus efeitos recreativos e até adversos quando a maconha é fumada de forma abusiva — podendo causar dependência, redução do volume de áreas do cérebro e quadros psicóticos —, o seu uso clínico controlado e em baixas doses possui um grande potencial terapêutico.
Principais usos e efeitos do THC:
O THC possui maior comprovação científica nos seguintes tratamentos:
- Náuseas e apetite: ajuda a prevenir ou tratar náuseas, ajudando no combate a náuseas e vômitos induzidos pela quimioterapia. Também estimula o apetite, sendo útil para pacientes com HIV/AIDS ou câncer gástrico;
- Alívio da dor e rigidez: usado clinicamente para dor lombar crônica e espasticidade na Esclerose Múltipla;
- Saúde do idoso: segundo o psiquiatra, o THC em doses baixas pode ser muito benéfico para o cérebro maduro ou em processo de envelhecimento, ajudando no sono e até ativando o sistema glifático, que "limpa" proteínas tóxicas do cérebro. Além disso, ele lembra que o THC é mais "limpo" que o CBD no que diz respeito a interações medicamentosas.
Em relação à segurança do uso do THC, é preciso lembrar que ele possui um efeito bifásico estreito. O que quer dizer que, em doses baixas, alivia a ansiedade e as náuseas; já em doses altas, pode causar ansiedade severa e vômitos. "Em doses seguras (até 7 mg ao dia), a maioria dos pacientes obtém efeito terapêutico sem riscos de psicose ou dependência", pontua Lessa.
Como usar o CBD e THC para a saúde?
Wilson Lessa explica que as vias de administração dos medicamentos à base de CBD e THC variam bastante de acordo com as resoluções e regulamentações de cada país. "Ao redor do mundo, existem formas que vão desde a inalação (vaporização) e via oral, até o uso dermatológico, óvulos vaginais, spray nasal e spray de mucosa oral", elenca.
No Brasil, a Anvisa permite principalmente o uso por via oral, sublingual, dermatológica, e inalatória que, para Lessa, ainda é uma "zona cinzenta" no País, pois a agência não especifica claramente se a aprovação abrange o processo de vaporização livre ou apenas cápsulas inalatórias parecidas com bombinhas de asma. De qualquer forma, a administração dos medicamentos deverá seguir a indicação médica.
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