Polifarmácia entre idosos exige atenção; 23% usam mais de 5 remédios juntos
Cerca de 23% dos idosos brasileiros usam mais de cinco remédios simultaneamente; uso de medicamentos sem prescrição é um risco diante desse cenário
Por Emanuele Almeida
01/10/2026 | 09h34Adobe Stock
O envelhecimento da população brasileira e o aumento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis resultaram em um cenário complicado de polifarmácia entre idosos, com 23,8% deles utilizando cinco ou mais medicamentos diariamente, o que pode levar a complicações se for feito de forma arbitrária.
No Dia do Idoso, especialistas recomendam a revisão periódica dos medicamentos e a integração das prescrições médicas para evitar interações perigosas, além de boas práticas no manejo da medicação, como manter listas atualizadas e informar profissionais de saúde sobre todos os tratamentos em uso.
São Paulo - Com o envelhecimento populacional e o surgimento frequente de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), a rotina de muitos idosos passou a ser acompanhada por dezenas de comprimidos diários. A alta quantidade de medicamentos prescritos e também a automedicação exigem atenção redobrada de pacientes, famílias e profissionais de saúde para evitar complicações graves.
Esse contexto reforça o cuidado com a saúde no envelhecimento, lembrado neste o Dia do Idoso que volta os olhares da sociedade para as conquistas do aumento da expectativa de vida no Brasil, mas também para os desafios impostos ao cuidado com a saúde desse grupo.
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O que é polifarmácia?
O uso simultâneo de cinco ou mais medicamentos é conhecido como polifarmácia. Um estudo publicado na Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia em 2025 sobre essa prática e sua associação direta com as doenças crônicas no País revelou que 23,8% dos idosos analisados estavam em situação de polifarmácia. Além disso, as doenças crônicas analisadas elevam as chances de o idoso utilizar cinco ou mais remédios diariamente.
Entre as condições de maior impacto nas chances de polimedicação, destacam-se:
- Doenças do coração: foi o fator de maior impacto, aumentando em 5,93 vezes as chances de o idoso tomar 5 ou mais remédios contínuos;
- AVC: elevou as chances em 2,55 vezes;
- Diabetes: aumentou as chances em 2,48 vezes;
- Depressão: elevou as chances de polifarmácia em 2,11 vezes;
- Insuficiência renal crônica: aumentou as chances em 1,87 vez.
Perigos da automedicação
Com o envelhecimento rápido da população brasileira e o crescimento das enfermidades crônicas, a tendência é que a taxa de polifarmácia continue em crescimento no Brasil.
A farmacêutica clínica, nutricionista e especialista em gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), Maria de Lara Neves, explica que a rotina constante com remédios acaba gerando uma familiaridade perigosa.
O contato constante com medicamentos, prescrições contínuas, sobras de tratamentos anteriores em casa, publicidade e a facilidade de compra sem receita acabam estimulando a automedicação. O idoso que já usa vários fármacos tende a se automedicar com analgésicos, anti-inflamatórios, laxantes e polivitamínicos, muitas vezes sem informar ao médico"
Maria de Lara Neves, farmacêutica clínica
A especialista alerta que esse hábito é agravado pelas mudanças biológicas próprias do envelhecimento. A redução das funções renal e hepática faz com que os medicamentos permaneçam mais tempo no organismo, elevando a toxicidade. Como consequência, surgem interações medicamentosas, reações adversas, quedas, fraturas, confusão mental e hospitalizações evitáveis.
Outro ponto crítico levantado por Maria de Lara são os costumes culturais, como compartilhar remédios com vizinhos ou parentes, ajustar doses por conta própria para economizar ou suspender o tratamento assim que os sintomas somem. Além disso, o uso de chás e produtos fitoterápicos esconde riscos sérios.
O hábito de usar chás e produtos chamados naturais sem comunicar ao médico é de alto risco. Muitos idosos não os consideram medicamentos, mas eles interagem seriamente com fármacos prescritos, como é o caso da erva-de-são-joão, cavalinha e alcaçuz, elenca a especialista. "A cultura de que 'natural não faz mal' é uma das maiores armadilhas da farmacoterapia no idoso", alerta.
Medicamentos para prestar a atenção
Determinadas classes farmacológicas exigem vigilância rigorosa, especialmente os medicamentos de janela terapêutica estreita, em que pequenas variações na dosagem podem ser fatais.
- Anticoagulantes (varfarina, rivaroxabana) e Antiagregantes (AAS, clopidogrel): A dose mínima protetora pode estar muito próxima da máxima que desencadeia hemorragias graves;
- Hipoglicemiantes (insulina, glibenclamida): A hipoglicemia no idoso é silenciosa e pode provocar tonturas, quedas e sequelas neurológicas;
- Benzodiazepínicos e sedativos (diazepam, clonazepam): Causam sonolência diurna, prejuízo de memória, dependência e acidentes domésticos;
- Diuréticos e anti-hipertensivos: Podem levar à desidratação e à hipotensão postural. a queda repentina da pressão ao se levantar;
- Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs - diclofenaco, ibuprofeno): frequentemente usados sem prescrição, podem lesionar rins e estômago, além de elevar a pressão arterial.
De olho na sacola de remédios
Para harmonizar tratamentos médicos com diversos remédios, Maria de Lara defende a necessidade de olhar o idoso como um todo, e não como uma soma de doenças isoladas. A recomendação é realizar a revisão periódica de toda a lista de medicamentos, o que ela chama de "consulta de sacola", onde o paciente leva todos os remédios, chás e suplementos que consome até o médico e ele avalia o conjunto de tratamentos.
Um profissional, geralmente o médico da atenção primária, deve ser o 'regente' da prescrição, integrando as orientações dos diferentes especialistas e evitando a 'cascata iatrogênica' — quando um medicamento é prescrito apenas para tratar o efeito colateral de outro.
"Alinhar tratamentos é substituir a soma de prescrições por um plano integrado, focado na funcionalidade e autonomia do idoso", reforça a farmacêutica clínica.
Boas práticas
Pequenas atitudes na rotina doméstica ajudam idosos e seus cuidadores a evitar falhas na administração dos remédios:
- Mantenha uma lista atualizada: anote todos os medicamentos em uso, incluindo dosagens, horários e o médico responsável;
- Conserve nas embalagens originais: não misture comprimidos soltos em recipientes sem identificação;
- Informe tudo aos profissionais: relate ao médico e ao farmacêutico qualquer vitamina, suplemento ou chá consumido;
- Utilize alarmes e organizadores: recorra a caixas organizadoras por dia e horário e lembretes no celular para evitar esquecimentos ou doses duplicadas;
- Conte com o suporte farmacêutico: tire dúvidas sobre armazenamento, horários e formas corretas de administração diretamente com o farmacêutico na farmácia.
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