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Sobre a coluna

Depois de duas décadas no mercado financeiro, fundou a SeniorLab (2014). É autor dos livros "Shopper60+", "A Longevidade Brasileira" e professor convidado de marketing 60+ na FGV


Minhas redes

Quatro em cada cinco 60+ têm smartphone; velho não sabe usar celular?

Arquivo pessoal

O controle remoto com fita crepe era usado pelo pai de Martin Henkel para deixar aparente apenas os botões essenciais - Arquivo pessoal
O controle remoto com fita crepe era usado pelo pai de Martin Henkel para deixar aparente apenas os botões essenciais

São Paulo - O controle remoto coberto por fita crepe me ensinou mais sobre motivação para uso da tecnologia do que muitos projetos de inovação.

Quem olhar rapidamente para esta fotografia provavelmente chegará a uma conclusão precipitada. Na minha mão esquerda está o controle remoto que meu pai, Silvio Henkel, usava em todas as TVs que comprou nos últimos 20 anos antes de nos deixar. Ele cobria com fita crepe todos os botões que considerava desnecessários, deixando expostos apenas os essenciais: ligar, volume e troca de canais.

Na outra mão está um smartphone exibindo uma videochamada que na época da história que vou contar aconteceu via Skype. À primeira vista, parece a comparação entre alguém incapaz de lidar com tecnologia e um mundo digital complexo demais para ele, mas essa conclusão está completamente errada.

Meu pai nasceu em 1928. Próximo dos 80 anos, apareceu em sua casa com um smartphone novo. Até então, seus telefones continuavam sendo de tecla. Confesso que pensei: "Isso não vai dar certo". Como alguém que havia simplificado o controle remoto daquela maneira conseguiria usar um aparelho infinitamente mais complexo?

Perguntei por que havia comprado o smartphone. A resposta desmontou todos os meus preconceitos e até hoje faz eu embargar a voz na hora de contar nas minhas palestras:

Quero ver e conversar com o Emílio como vocês fazem”. Era seu primeiro bisneto que nasceu na Austrália e ainda não tinha vindo ao Brasil.

Naquele instante compreendi algo que acabaria orientando boa parte da minha trajetória profissional na SeniorLab que nasceu muito próxima a esta história. As pessoas não adotam tecnologia porque ela é moderna. Elas a adotam quando faz sentido, simplifica com segurança e principalmente quando aproxima quem amam.

Quando a tecnologia faz sentido

Durante os últimos doze anos, tive a oportunidade de aplicar esse aprendizado em projetos para bancos, operadoras de saúde e, mais recentemente, a convite da Dataprev, na avaliação da experiência do aplicativo Meu Cadastro Único. Em todos eles, a pergunta sempre foi a mesma: como tornar a experiência mais simples para quem já utiliza tecnologia e, principalmente, como remover as barreiras que ainda afastam quem deseja utilizá-la?

Minha preocupação sempre foi aperfeiçoar a jornada dos quatro em cada cinco brasileiros com mais de 60 anos que já utilizam smartphones.

Minha mais recente motivação passou a ser o quinto. O que representa os 20% que ainda não têm smartphone. Não para convencê-lo a usar tecnologia, mas para garantir que consiga acessar a tecnologia e que ela faça sentido se e quando decidir utilizá-la.

Os números mostram que estamos vivendo uma transformação silenciosa. Segundo a Pesquisa TIC, 80,3% dos brasileiros com 60 anos ou mais já possuem smartphone. Isso significa que quatro em cada cinco pessoas dessa geração utilizam diariamente um equipamento para acessar bancos, marcar consultas, conversar com familiares, realizar pagamentos, consumir conteúdo e utilizar serviços públicos.

O desafio, portanto, deixou de ser ensinar os 60+ a usar tecnologia.O verdadeiro desafio passou a ser ensinar empresas a desenvolver tecnologia para uma população que fica cada vez mais madura.

Essa diferença parece sutil, mas muda completamente a forma de inovar. Durante décadas, acreditamos que bastava acrescentar funcionalidades aos aplicativos. Hoje, percebemos que inovação também significa retirar obstáculos.

  • Simplificar telas.
  • Reduzir a carga cognitiva.
  • Escrever em linguagem compreensível.
  • Organizar melhor as informações.
  • Criar processos que respeitem diferentes ritmos de interação.

...Tudo que o "Aging in Market", conceito que desenvolvi em 2016 sintetiza e dá direção.

Foi exatamente isso que observei no trabalho realizado com a Dataprev. Pequenos detalhes da interface, quase imperceptíveis para quem desenvolve software, eram suficientes para interromper completamente a jornada de muitos usuários. Não faltava inteligência. Não faltava interesse. Faltava uma experiência construída a partir da perspectiva de quem realmente iria utilizá-la.

Essa talvez seja a principal lição da Economia Prateada.

Projetar para uma população que envelhece não beneficia apenas quem tem mais de 60 anos. Beneficia todos nós. Afinal, qualquer pessoa prefere uma experiência mais intuitiva, uma linguagem mais clara e um aplicativo que simplesmente funcione."

A transformação digital também deixou de ser apenas uma agenda tecnológica. Hoje ela determina o acesso a serviços bancários, benefícios sociais, atendimento em saúde, relacionamento com o governo e até a convivência familiar.

Meu pai não comprou um smartphone porque queria aprender tecnologia. Comprou porque queria estar presente na vida do seu primeiro bisneto. O aparelho era apenas o meio. O propósito era o afeto.

Talvez seja essa a maior lição que a Economia Prateada pode oferecer às empresas. Quando a tecnologia faz sentido, ela deixa de ser um muro e vira ponte.

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