'Rugas do intestino': especialistas explicam riscos da diverticulite em idosos
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São Paulo - A diverticulite é uma doença que, embora possa parecer distante para os mais jovens, torna-se uma preocupação crescente à medida que envelhecemos. Ela consiste na inflamação ou infecção dos divertículos, que são pequenas bolsas formadas na parede do tubo digestivo, especialmente no intestino grosso.
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A médica coloproctologista, Paula Alves da Conceição explicar de forma simples que essas bolsas são como as "rugas ou cabelos brancos do intestino", ou seja, o seu aparecimento faz parte do processo natural de envelhecimento. Isso porque, a prevalência dos divertículos salta de 30% aos 60 anos para 65% ou mais aos 80 anos. No entanto, o verdadeiro problema surge quando essas estruturas inflamam.
Quais são os sintomas da diverticulite?
Sintomas clássicos da crise de diverticulite incluem:
- Dor abdominal intensa (geralmente no canto inferior esquerdo);
- Febre;
- Náuseas;
- Sensação de barriga inchada;
- Alterações no funcionamento do intestino, como diarreia ou prisão de ventre.
Contudo, pacientes com mais de 50 anos exigem atenção redobrada. Segundo o também coloproctologista Danilo Munhóz, nessa faixa etária a doença pode se manifestar de forma menos típica: "A dor e a febre não são tão evidentes, o que pode atrasar o diagnóstico".
A médica especialista em cirurgia do aparelho digestivo, Gabriela Knittel concorda, ressaltando que, por não apresentarem muita dor, "casos complicados também sejam mais frequentes" em idosos.
Além disso, a presença de outras doenças associadas e um sistema imunológico mais fragilizado aumentam o risco de complicações graves, como abscessos, obstrução ou perfuração do intestino.
O que causa a diverticulite?
A formação e a inflamação dos divertículos estão intimamente ligadas ao aumento da pressão dentro do intestino (pressão intraluminal). Os especialistas são unânimes ao apontar os principais vilões do estilo de vida moderno:
- Sedentarismo;
- Tabagismo;
- Obesidade;
- Baixa ingestão de água;
- Dieta pobre em fibras.
O consumo excessivo de carne vermelha, gorduras e alimentos ultraprocessados afeta negativamente a saúde intestinal e aumenta os riscos da doença. Além disso, o uso frequente de certos medicamentos, como os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs), também pode atuar como gatilho para a inflamação.
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Por outro lado, Munhóz desmistifica uma antiga crença popular.
Hoje sabemos que não é necessário evitar sementes, castanhas ou pipoca, como se orientava no passado".
Há dieta para a diverticulite?
Primeiramente, para prevenir a diverticulite, a hidratação e o consumo de fibras devem caminhar juntos, pois ingerir fibras sem beber água suficiente pode agravar a constipação.
Conceição recomenda um consumo médio de fibras que pode variar de 20 a 35 gramas diárias, obtidas através de frutas com casca (como maçã e mamão), verduras, legumes, grãos integrais, aveia, chia, linhaça e leguminosas. Para os mais velhos, no entanto, essa introdução deve ser gradual para evitar desconfortos como distensão abdominal e gases.
Quanto à água, a ingestão ideal gira em torno de 1,5 a 3 litros por dia, ou cerca de 35 ml por quilo de peso corporal, e um bom parâmetro é observar se a urina está clara.
Gabriela Knittel alerta para um obstáculo fisiológico importante para idosos: há uma diminuição na produção do "hormônio responsável por causar o reflexo de sede". Por isso, pessoas mais velhas sentem menos vontade de beber água, tornando o estímulo à hidratação diária uma tarefa essencial e ativa.
Diferença entre diverticulite e câncer de cólon
Muitos pacientes se assustam com a similaridade entre os sintomas da diverticulite e os do câncer de cólon, mas os médicos esclarecem que são doenças distintas, a começar pelo tempo de evolução.
A diverticulite é um quadro agudo e súbito, cujos sintomas duram de 3 a 7 dias. Já o câncer de cólon tem um início progressivo e silencioso, manifestando-se de forma mais arrastada com presença de sangue nas fezes, perda de peso inexplicável, cansaço e anemia.
Para fechar o diagnóstico de diverticulite aguda, o exame padrão-ouro é a tomografia computadorizada de abdome. Sérgio Lima e os demais especialistas alertam que a colonoscopia é contraindicada durante a crise, pois o procedimento pode agravar o quadro inflamatório e causar a perfuração do intestino.
Dessa forma, a colonoscopia, indispensável para descartar tumores e avaliar o intestino por dentro, só deve ser realizada após a resolução total da crise, geralmente entre 6 a 8 semanas (podendo aguardar até 3 meses).
Qual é o tratamento para diverticulite?
A abordagem terapêutica depende inteiramente da gravidade do quadro. Em casos leves, o tratamento é clínico e domiciliar, envolvendo repouso, dieta leve (ou líquida), analgésicos e, em muitos casos, antibióticos prescritos pelo médico.
Já os quadros graves ou com complicações exigem internação hospitalar, administração de antibióticos na veia, drenagem de abscessos ou até mesmo cirurgia de ressecção.
Tratando-se de pacientes acima dos 50 anos, e principalmente os idosos, a cautela médica é muito maior. Danilo Munhóz explica que "o limiar para investigar ou internar pode ser mais baixo" devido ao estado geral do paciente. Muitas vezes, as equipes optam por internar o idoso para garantir que a hidratação e a medicação sejam feitas diretamente na veia, de forma assistida, evitando que um quadro inicialmente simples evolua para complicações fatais, segundo Knittel.
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