Cristina Palmaka
Colunista VIVA
27/07/2026 | 10h44
Sobre a
coluna
Sobre a coluna
Conselheira de empresas e mentora de startups. Ex-CEO da SAP para América Latina, também ocupou cargos C-level em empresas como Philips, HP e Microsoft. É maratonista desde 2003.
Genética e IA — qual a fronteira entre o progresso e a ética?
Envato
São Paulo - Ainda me lembro da história de Louise Brown, o primeiro bebê de proveta da história, uma evolução que assombrou o mundo e rendeu reportagens especiais nos programas de TV. Embora não me recorde dos detalhes, pois tinha só 9 anos de idade, pesquisando um pouco sobre o assunto, li que suscitou muita discussão sobre a ética em torno do procedimento que une um espermatozoide e um óvulo num ambiente de laboratório, implantando este óvulo fecundado no útero da mãe. Quase 50 anos depois, a fertilização in vitro (FIV) ajudou milhões de casais inférteis a ter suas crianças no mundo inteiro.
Corte rápido para o ano passado. Outro bebê, KJ Muldoon, então com apenas sete meses, se tornou o primeiro paciente do mundo a receber uma terapia de edição genética feita sob medida para o seu caso.
Ele tinha uma doença rara que impedia o fígado de metabolizar proteínas corretamente, algo até então incurável. O tratamento funcionou.
Eu não sei vocês, mas eu vibro quando leio sobre novidades como essa.
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Particularmente, tenho interesse especial sobre o segmento de saúde e atualmente apoio o desenvolvimento de uma startup de healthtech, o que me aproximou do que a tecnologia é capaz de fazer quando o médico continua no centro da decisão.
O avanço da medicina genômica deixou de ser promessa distante. O custo do sequenciamento de DNA caiu tanto que já é possível integrá-lo à rotina de diagnóstico, principalmente em oncologia e doenças raras. Coisas que antes levavam anos de investigação hoje podem ser identificadas em dias.
São aplicações que têm se beneficiado bastante da IA. Estima-se que o mercado global de IA aplicada à saúde deve ultrapassar a marca de US$ 200 bilhões até 2030.
Mas a mesma tecnologia que cura também abre uma porta mais delicada. A triagem genética de embriões para detectar doenças já é prática comum em clínicas de fertilização. O problema é o próximo passo que algumas startups já anunciam: usar as mesmas técnicas para prever características físicas e intelectuais, como cor de cabelos e inteligência. Aí a luz vermelha se acende.
Uma coisa é evitar uma doença grave. Outra, bem diferente, é escolher um filho por atributo, como se fosse uma especificação de produto."
É esse o tipo de fronteira que me interessa discutir aqui. Nos conselhos em que atuo, bato muito na tecla de que inovação sem governança nem sempre traz progresso e pode trazer riscos graves para o negócio e para a sociedade. Com genética não é diferente. Avançar é necessário, e vai continuar acontecendo, mas ética e segurança precisam estar na mesa desde o desenho da tecnologia.
Particularmente, acredito que o limite deve ser mesmo prezar pela saúde do ser humano, não utilizar essa capacidade tecnológica para outros propósitos. Afinal, continuo defendendo a diversidade. Não acho que a humanidade será melhor com manipulação genética da inteligência. Enfim, é uma boa discussão e estou aberta a ouvir a opinião dos leitores.
Saúde + tecnologia, uma aposta promissora
Embora esses casos de aplicação da tecnologia atraiam mais a curiosidade e não à toa estavam na lista das Top 10 Tecnologias Inovadoras de 2026 do "MIT Tech Review", o fato é que a dobradinha saúde + tech é um segmento promissor.
Segundo o HealthTech Recap 2024, levantamento do Distrito em parceria com a Associação Brasileira de Startups de Saúde e HealthTechs (ABSS), o setor movimentou R$ 799 milhões em investimentos naquele ano. Já em 2026, dados divulgados recentemente apontam mais de R$ 520 milhões captados só no primeiro semestre, com os investidores priorizando eficiência e redução de custos mais do que promessas.
Dois exemplos me parecem bons retratos desse momento, justamente porque falam a língua da genômica de que tratei aqui. A gen-t quer sequenciar o genoma de 200 mil brasileiros, construindo o maior banco genético privado do País, visando a diversidade de dados, algo essencial num território tão miscigenado como o nosso. E a NeoGenomica, fundada em 2024, fechou parceria com a MGI Tech para ampliar o acesso a testes genéticos avançados em oncologia e doenças raras, prometendo entregar em dias diagnósticos que antes levavam semanas. Isso tem impacto direto no resultado do tratamento de muitos casos, em que o tempo é crucial.
As duas empresas têm em comum o fato de usar a genômica para responder a uma pergunta concreta: como tratar melhor quem já está doente. É aqui que a inovação me parece mais sólida, e também menos questionável do ponto de vista ético.
O desafio dos próximos anos vai ser garantir que o mesmo cuidado se aplique quando a tecnologia nos convidar a decidir coisas que vão além de prevenir e tratar doenças.
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