Cientistas usam nova técnica para editar genes de embriões e evitar doenças
Reprodução/Acervo pessoal
São Paulo - Uma pesquisa realizada na Universidade Columbia, nos Estados Unidos, testou uma nova abordagem para a edição genética de embriões humanos. O trabalho utilizou a chamada edição de bases, técnica que se mostrou mais segura do que métodos anteriores, ao alterar genes relacionados à anemia falciforme e a doenças cardiovasculares, ampliando as perspectivas para o desenvolvimento de futuras terapias contra doenças genéticas hereditárias.
De acordo com o pesquisador e embriologista Marcos Iuri Kulmann, único brasileiro a integrar o estudo internacional, o principal objetivo foi avaliar se seria possível editar embriões humanos reduzindo os problemas observados em tecnologias anteriores de edição genética.
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Em entrevista ao VIVA, ele ressaltou que os resultados representam um primeiro passo, mas a aplicação clínica ainda depende de muitos anos de pesquisa.
Esse estudo é um projeto piloto principalmente para entender se essa tecnologia poderia editar embriões de uma maneira segura. [...] Temos um longo caminho ainda a percorrer, mas eu acho que a gente já começou a trilhar esse caminho."
Kulmann entrou para a pesquisa enquanto fazia seu doutorado na Repúplica Tcheca e explica que os testes foram conduzido exclusivamente em laboratórios. Atualmente, o resultado do estudo está em fase de revisão por outros cientistas.
Os embriões utilizados foram doados para pesquisa por casais que não pretendiam mais utilizá-los em tratamentos de fertilização in vitro e, após os experimentos, não foram transferidos para o útero.
Segundo o pesquisador, nenhum País permite a implantação de embriões geneticamente editados. "O nosso estudo foi realizado em Nova York, onde casais que não têm mais interesse em usar aqueles embriões podem doá-los para projetos específicos. Esses embriões podem ser editados, mas não transferidos."
Como funciona a nova técnica
Para entender a descoberta, é preciso imaginar o DNA como um grande "mapa de instruções" do organismo. É nele que estão registradas as informações que determinam o funcionamento das células e as características de cada pessoa. Quando há um erro em uma dessas instruções, podem surgir doenças genéticas.
Segundo Kulmann, a tecnologia mais conhecida para fazer esse tipo de correção é o CRISPR-Cas9, premiado com o Nobel de Química em 2020. Ela funciona como uma espécie de "tesoura molecular", capaz de localizar um trecho específico do DNA e "cortar" as duas fitas que o compõem para que a célula faça o reparo.
O problema é que, em embriões humanos, esse reparo nem sempre acontece da forma esperada e, ao modificar um gene, pode-se perder ou alterar um cromossomo inteiro. Foi justamente esse obstáculo que o novo estudo tentou contornar.
Em vez de cortar as duas fitas do DNA, a técnica testada pela equipe faz uma alteração muito mais delicada. Ela modifica apenas uma das fitas e troca uma única "letrinha" do código genético, permitindo que a própria célula faça o reparo com mais facilidade.
"Ela não é mais a tesoura como era antes. Ela é, digamos, uma tesourinha, porque corta só uma fita do DNA e promove a alteração de um nucleotídeo", exemplifica Kulmann.
Essa intervenção acontece quando o embrião ainda é formado por apenas uma célula, após a fecundação in vitro. Nessa fase, explica o pesquisador, editar uma única célula é muito mais simples do que tentar modificar milhões de células em um organismo já formado.
"A tecnologia é injetada no óvulo no mesmo momento em que se injeta o espermatozoide. Desde o começo do desenvolvimento, já tem a edição do DNA daquele embrião."
Segundo Kulmann, os embriões utilizados na pesquisa conseguiram se desenvolver normalmente até o estágio de blastocisto e também originaram células-tronco embrionárias, o que indica que, nas primeiras fases do desenvolvimento, a técnica não comprometeu seu crescimento.
Prós e contras
Para Kulmann, o principal potencial da técnica é permitir, futuramente, a correção de mutações responsáveis por doenças hereditárias antes do desenvolvimento do embrião, especialmente aquelas causadas por alterações em um único gene, como anemia falciforme, fibrose cística e doença de Huntington.
Ao mesmo tempo, ele ressalta que ainda não existem evidências suficientes para levar essa tecnologia à prática clínica. "A gente precisa de mais estudos para outros genes, outras doenças, entender se essa segurança que nós observamos nesse estudo consegue ser replicada."
O pesquisador também destaca que a técnica não representa, neste momento, uma estratégia para aumentar a longevidade ou retardar o envelhecimento. Embora genes relacionados à longevidade possam, em teoria, tornar-se alvo de pesquisas futuras, ele afirma que essa possibilidade levanta importantes questões éticas.
Esses resultados nos convidam, enquanto sociedade, a ter discussões para estabelecer políticas sobre em quais situações essa tecnologia pode ser aplicada."
Segundo ele, utilizar a edição genética para modificar características humanas, como inteligência ou longevidade, deslocaria a tecnologia do tratamento de doenças para o chamado "melhoramento humano", tema que ainda divide cientistas e bioeticistas. "A gente vai ter que estabelecer bem os limites de onde cada uma das aplicações dessas tecnologias vai conseguir entrar", finaliza.
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