Envato
Por Maria Magnabosco, Luana Simões e Luis Antonio, especial para o Broadcast
[email protected]Mareilde Freire é uma pequena produtora rural de Ouro Preto do Oeste, cidade com cerca de 40 mil habitantes no interior de Rondônia, e proprietária de uma loja de cosméticos sustentáveis. Até 2020, ela acreditava que o comércio internacional era "coisa para os grandes". Hoje, seus produtos são vendidos nos Estados Unidos e Europa, com apoio da plataforma Brasil Exportação, lançada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio e Serviços (MDIC) em parceria com a ApexBrasil e o Sebrae. Agora, Mareilde planeja expandir ainda mais os negócios com o apoio da iniciativa.
Com um ano de funcionamento, o software já se consolidou como a maior plataforma de comércio exterior do país, oferecendo mais de 800 serviços para integração de micro, pequenas e médias empresas brasileiras no mercado global. Assim como a Saboaria Rondônia, empresa de Mareilde, outros 100 mil usuários aderiram à tecnologia, que atua como intermediadora entre empresas exportadoras, prestadores de serviços logísticos e parceiros importadores ao redor do mundo.
"O principal objetivo dessa abordagem é ampliar o acesso à informação e promover a inserção competitiva das empresas brasileiras no mercado global", explica Patrícia De Lima Favaretto, coordenadora-geral de Promoção das Exportações do MDIC.
Para entrar nos Estados Unidos no modelo físico, o custo seria bastante alto, segundo a empresária. "No entanto, ao dispor de um software que permite apresentar seus produtos e serviços como uma vitrine digital, os potenciais clientes podem acessar sua oferta de forma mais rápida e menos custosa",
Pioneirismo
Outro serviço da plataforma usado pela Saboaria Rondônia é o Mapa Digital, lançado em 27 de agosto de 2024. A ferramenta permite que empresários escolham um país de destino para exportação e, com um clique no mapa, acessem uma lista de empresas importadoras, contatos diretos com o Setor de Promoção Comercial da região e um guia prático sobre como exportar para o local. E, embora a plataforma Brasil Exportação tenha se inspirado em um projeto de Singapura, o Mapa Digital é pioneiro no mundo nesse formato de serviço.
Mareilde acredita que essa tecnologia funciona como uma "ponte digital" entre empresários afastados dos grandes centros, parceiros de logística no mercado nacional e compradores do exterior. Além disso, destaca, também traz condições para desmistificar o mercado de exportação, que muitas empresários entendem como intransponível.
Desmistificação
De acordo com Gustavo Reis, no Brasil existe uma barreira cultural que dificulta a percepção das empresas sobre o potencial de exportação de seus produtos. "Nosso país tem pouca cultura exportadora. Pelas dimensões territoriais, as empresas geralmente pensam apenas no mercado brasileiro. Então, elas acabam tendo uma dificuldade em perceber que aquele produto já pode nascer com a cabeça para fora, olhando para o mercado internacional?, diz ele.
Além disso, Gustavo cita a dificuldade das pequenas empresas em encontrar um parceiro comercial em outro país. "Isso exige um investimento, tanto de pessoal, de tempo e de recurso financeiro". Assim, a Brasil Exportação traz às empresas estes serviços de forma gratuita e unificada, reduzindo o custo das empresas e incentivando o comércio.
Esse é o caso da Amazonbai, uma cooperativa de ribeirinhos de Macapá, no Amapá, que começou a usar a plataforma em 2023. Atualmente, a empresa, voltada ao extrativismo sustentável, exporta açaí do arquipélago do Bailique, no litoral amapaense, para Portugal e os Estados Unidos. O presidente da empresa, Amiraldo Picanço, conta que havia interesse em vender produtos para outros países.
Amiraldo relata que neste primeiro momento a ferramenta foi útil para conectar a empresa aos traders, solicitar o serviço de logística de exportação e auxiliar na questão documental. "Em cooperativas, os processos ainda são muito manuais. Quando a gente usa essa tecnologia, é tudo unificado em um processo digitalizado", explica ele, que pretende expandir seus negócios para Inglaterra, Alemanha e Finlândia até 2025.
Startups
Além da iniciativa pública, os empresários que desejam ingressar no comércio exterior podem contratar serviços privados de auxílio tanto para exportação quanto para importação. Gustavo Reis explica que no Brasil existem startups de inovação voltadas para consultoria de trading.
Este é o caso da LogComex, fundada em 2016, na cidade portuária de Paranaguá, no Paraná, com o objetivo de oferecer informações sobre todos os processos envolvidos no comércio global. Por meio de inteligência artificial, oferece ferramentas para planejar e analisar dados, além de visão completa de toda a cadeia de suprimentos, de como os produtos são produzidos, transportados e entregues ao redor do mundo.
"O nosso serviço mais solicitado é o de informações estratégicas e automação de processos logísticos, permitindo que as empresas ganhem eficiência, escalabilidade e uma visão 360º do mercado?, diz a empresa.
A ShipSmart, startup criada em 2017 por Rafael Weldo e Pierre Jacquin, também oferece serviços logísticos a negócios de todos os portes. A plataforma facilita o envio internacional a pessoas físicas e, segundo Weldo, dispensa a necessidade de criar departamentos de comércio exterior dentro das empresas. Além disso, a ferramenta oferece cotações de frete acessíveis acordadas com transportadoras e impostos em tempo real, além da integração com várias plataformas de e-commerce.
"Nós vimos uma oportunidade. Era um mercado que sempre foi muito analógico e que estava na mão de despachantes aduaneiros, trocas imensas de áudios de WhatsApp e e-mails para poder fazer um envio", comenta Weldo.
A empresa planeja aprimorar funcionalidades, como a tradução automática de catálogos de produtos, soluções para consumidores no exterior como a exibição de preços na moeda local e o atendimento customizado para as pessoas físicas dentro do WhatsApp. Tudo com o uso da Inteligência Artificial.
Poder da IA
Aplicativos como o ChatGPT, Gemini e o Copilot possibilitam que pequenas e médias empresas melhorem seus resultados e produtividade, captem novos clientes e reduzam custos. Segundo Rafael Souza, consultor do Sebrae-SP, a tecnologia não é apenas privilégio das grandes corporações. "Os empreendedores já têm usado bastante a inteligência artificial para ter ideias de postagem, escrever textos, fazer descrição de posts nas redes sociais, elaboração de vídeos e imagens", afirma.
Porém, o consultor alerta que o potencial dessas ferramentas é muito maior."Quem aprender a usar a IA além da superfície vai encontrar um universo de oportunidades para crescer e inovar", conclui Souza.
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