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Setor da saúde é alvo fácil para hackers no Brasil, alertam especialistas

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Em 2024, a área da saúde saltou da sexta para a terceira posição entre os setores mais atacados no País - Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Em 2024, a área da saúde saltou da sexta para a terceira posição entre os setores mais atacados no País
Por Emanuele Almeida

28/01/2026 | 12h36

São Paulo, 28/01/2026 - Nesta quarta-feira, 28 de janeiro, o Brasil celebra o Dia Internacional da Proteção de Dados em um cenário de vulnerabilidade digital crescente. Instituída em 2006, a data marca o aniversário da Convenção 108 do Conselho da Europa — o primeiro tratado internacional para garantir a privacidade, assinado em 1981. Contudo, décadas após o compromisso global, a segurança cibernética nacional enfrenta desafios.

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Dados do Relatório de Estatísticas Globais de Ataques Cibernéticos da Check Point mostram um aumento de 38% nas investidas criminosas online apenas em dezembro, ritmo que supera a capacidade de defesa de boa parte das organizações.

Neste contexto, o setor de saúde emergiu como um dos principais alvos. Em 2024, a área saltou da sexta para a terceira posição entre os setores mais atacados no País. Segundo o gerente geral da Kaspersky, empresa de cibersegurança, Roberto Rebouças, o motivo da escalada é estritamente financeiro. “Hospitais e clínicas tornaram-se o 'pote de ouro' do cibercrime pelo volume massivo de dados privados que gerenciam”, ressalta.

Rebouças relembra ainda que, com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), qualquer vazamento de informação confidencial passa a ter um custo financeiro alto para a empresa, com multas de até R$ 50 milhões. “O criminoso digital tem nas mãos a arma de que 'se eu vazar, você vai ter que pagar muito'", explica o gerente da Kaspersky.

O Brasil já sente no bolso o peso da negligência digital. O custo médio de uma violação de dados no País atingiu US$ 1,36 milhão (R$ 7,03 milhões aproximadamente) em 2024, um aumento de 11,5% em relação ao ano anterior, de acordo com o Relatório de Cibersegurança 2025 da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom). 

Gráfico de barras colorido mostrando a evolução do custo médio total de violação de dados no brasil de 2018 a 2024
Nos últimos anos, o custo médio de apenas uma violação de dados no mundo cresceu de forma constante. Fonte:Brasscom

Inteligência Artificial no SUS

Apesar da insegurança ainda presente, o governo federal aposta na tecnologia como vetor de eficiência. O Ministério da Saúde revelou por meio da Lei de Acesso à Informação possuir 162 projetos que utilizam Inteligência Artificial no Sistema Único de Saúde (SUS), sendo 84 em desenvolvimento e 78 já concluídos. De acordo com a pasta, as iniciativas, realizadas em parceria com 73 universidades e instituições, variam desde o diagnóstico de doenças como tuberculose e dengue até o combate à desinformação.

No entanto, a velocidade da inovação parece ultrapassar a da governança. De acordo com especialista ouvidos pelo VIVA, o Brasil ainda não tem diretrizes claras para o uso de inteligência artificial na área da saúde, levantando o temor de que a coleta massiva de dados para treinar esses algoritmos ocorra sem a devida transparência.

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Para o membro do Comitê Nacional de Cibersegurança (CNCiber), Rodrigo Fragola, o crescimento desses projetos sem governança adequada cria riscos imediatos: "Surge o risco de uso secundário desses dados — coletados para assistência ou gestão — sendo reutilizados para pesquisa ou treinamento de algoritmos sem transparência suficiente", alerta. Ele destaca que, mesmo bases anonimizadas, quando cruzadas com outros dados, podem permitir a reidentificação de pacientes.

especialista em cibersegurança rodrigo fragola segura microfone, enquanto palestra para uma audiência. ele usa terno cinza, óculos e tem uma barba longa
Rodrigo Fragola, especialista em cibersegurança, é membro do CNCiber - Reprodução/Linkedin

O coração dessa digitalização é a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), plataforma oficial de interoperabilidade do Ministério da Saúde, criada para conectar diferentes sistemas de saúde em todo o Brasil.

Embora essencial para a capacidade de diferentes sistemas, dispositivos, aplicações ou organizações trocarem informações e utilizarem os dados compartilhados de forma automática, ela cria um ponto único de falha crítico. 

"Qualquer infraestrutura nacional que centraliza dados críticos e conecta milhares de sistemas se torna automaticamente um alvo de altíssimo valor", adverte Fragola. 

Ele também reforça que dependência operacional da disponibilidade dos serviços é enorme, além disso, a integração exige uma blindagem técnica robusta contra sequestro de dados (ransomware), pois uma falha ali não compromete apenas um hospital, mas toda a rede de comunicação da saúde pública.

O cenário global corrobora esse temor: em 2024, o Health-ISAC rastreou 458 eventos de ransomware no setor de saúde globalmente. As interrupções paralisaram desde portais de pagamento até o atendimento em 140 hospitais da rede Ascension nos EUA, forçando o desvio de ambulâncias e o adiamento de cirurgias.

Para além dos riscos técnicos, há uma preocupação política sobre quem controla essa infraestrutura. A Coalizão Direitos na Rede (CDR) alerta para uma "reconfiguração silenciosa" do SUS, onde provedores tecnológicos privados podem acabar definindo como o sistema opera.

A advogada, pesquisadora da Fiocruz e integrante da CDR por meio do Laboratório de Políticas Públicas e Internet - LAPIN, Rachel Rachid, destaca a falta de participação social nas decisões. "Quando a gente vê o setor privado altamente envolvido num cenário de decisões sobre como funciona a RNDS, a gestão e o fluxo dos seus dados, e do outro lado não tem representação de quem está preocupado com a saúde pública, isso preocupa demais", afirma Rachid. 

A pesquisadora relata um enfraquecimento do diálogo institucional, citando o cancelamento sem justificativa de uma reunião com o Ministério da Saúde para discutir o Projeto de Lei 5875/2013, que trata da digitalização da saúde. "Decisões tomadas neste momento, sem participação social efetiva e sem transparência sobre o uso de dados públicos, podem produzir efeitos estruturais duradouros no sistema de saúde", adverte a Coalizão.

O elo mais fraco: o paciente

Na ponta final desse ecossistema complexo está o usuário do SUS, muitas vezes alheio aos riscos. A conselheira gestora da Unidade Básica de Saúde (UBS) da Vila Anglo (SP) e participante do Movimento Popular de Saúde, Silvia Tommasini, relata uma realidade de vulnerabilidade: "Não há um letramento digital onde as pessoas estão vulneráveis a manipulações". Ela critica a falta de uma "formação crítica" que explique ao cidadão como seus dados são minerados e utilizados por grandes instituições públicas e privadas.

Essa falta de conscientização alimenta golpes. Criminosos utilizam dados vazados — como histórico médico ou hospitalar — para criar fraudes convincentes via engenharia social. A líder de Segurança e Confiabilidade do Google na América Latina, Priscila Couto reforça que "os erros geralmente acontecem porque os golpistas usam o comportamento humano – a nossa pressa ou curiosidade", recomendando que usuários desconfiem de mensagens urgentes pedindo dados. 

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Nesse contexto, há o “clique por impulso” em links urgentes, alerta a líder do Google. Ela relembra que é muito comum recebermos mensagens (SMS ou aplicativos de mensageria) com tom de urgência, como "sua conta será bloqueada” ou “ganhe esse prêmio agora". 

“O erro aqui é agir sem pensar. Então pare, respire e pense com calma. Sempre que receber algo assim, ligue o seu ‘desconfiômetro’. Se o link parecer estranho, não clique”, recomenda. 

Ela acrescenta que hoje vivemos em um mundo de conveniências digitais, e por isso precisamos aprender a ler as “entrelinhas” de cada ambiente. Então ela indica que, antes de clicar em “aceitar” ou fornecer seus dados, que o indivíduo analise se o pedido de dados faz sentido se perguntando: “por que este aplicativo/local precisa dessa informação?”, conclui. 

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