Emilio Umeoka
Colunista VIVA
13/10/2026 | 09h40
Sobre a
coluna
Sobre a coluna
Embaixador do Stanford Center on Longevity, atua na interseção entre longevidade, trabalho e inclusão. Ex-executivo global na Microsoft e Apple, é também conselheiro de startups.
Por que praticar a mentalidade de viajante aprendiz
O embaixador para Longevidade de Stanford conta que busca aprender de diversas maneiras todos os dias, e viajar é ótima oportunidade
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O conceito de lifelong learning, promovido pelo Centro de Longevidade da Universidade Stanford, é central para a iniciativa Novo Mapa da Vida, que busca orientar as pessoas a viverem de forma significativa e prolongada, enfatizando a importância de aprender continuamente através de experiências, como viagens.
O autor defende que a verdadeira experiência de viagem vai além de registrar momentos para redes sociais, incentivando uma mentalidade de viajante aprendiz que busca entender o contexto cultural e histórico dos lugares, promovendo um aprendizado contínuo que pode ser aplicado tanto em viagens internacionais quanto em explorações locais.
Palo Alto (Califórnia, EUA) - O aprendizado contínuo, o lifelong learning, é um dos pilares centrais do Novo Mapa da Vida, iniciativa que o Centro de Longevidade da Universidade Stanford desenvolveu para nos orientar em uma vida longa e com propósito. Busco aprender de diversas maneiras todos os dias, e viajar se consolidou como uma das mais férteis.
Adotar a postura de um viajante aprendiz transforma nossa relação com o mundo: convida a decifrar outras culturas e a extrair lições em qualquer lugar, inclusive naqueles que já fazem parte da nossa rotina.
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Recentemente estive na Inglaterra para uma reunião de conselho e aproveitei para viajar à Croácia com minha esposa e um casal de amigos. Não trouxemos lembranças materiais nem perdemos tempo com compras: aproveitamos cada momento para vivenciar os lugares e voltamos com a sensação renovadora de viajar com olhos de estreia.
Procurei explorar lugares inéditos. Embora conheça Londres muito bem, a cidade sempre guarda novidades. Reservei três dias para sair da capital de trem e percorrer outras regiões inglesas.
Uma das paradas mais marcantes foi Bath. O local abriga a única fonte termal natural de água quente da Grã-Bretanha, jorrando mais de um milhão de litros diários a 46 graus Celsius. Após invadirem a Britânia em 43 d.C., os romanos logo reconheceram o valor daquele fenômeno e fundaram o assentamento de Aquae Sulis. Ali ergueram um imponente complexo de banhos e um santuário monumental dedicado à deusa Sulis Minerva, combinando a divindade celta local com a deusa romana da sabedoria.
Os romanos ocuparam e desenvolveram a região por quase quatro séculos, até o colapso imperial no início do século V. As termas funcionavam como centro de cura, diplomacia e convívio social para soldados, governantes e cidadãos de todo o império.
Compreender como aquela engenharia refinada canalizava a água quente sob o piso através de hipocaustos transformou uma simples atração turística em uma fascinante aula de civilização: quem viveu ali e como aquelas pessoas organizavam o cotidiano?
Na Croácia, a riqueza de camadas históricas impressiona. Diferentes regiões exibem marcas de gregos, romanos, venezianos, otomanos e húngaros. Em Dubrovnik, hoje mundialmente famosa por servir de cenário principal para a fictícia Porto Real na série "Game of Thrones", multidões percorrem as muralhas medievais buscando os ângulos das telas. No entanto, a história real da cidade cobra uma atenção muito mais profunda.
Entre aquelas vielas seculares, visitei um museu dedicado à Guerra da Independência no início dos anos 1990, durante a sangrenta dissolução da Iugoslávia e o conflito contra forças sérvias. As fotografias cruas dos bombardeios que atingiram a cidade histórica revelam as dores do confronto e lembram que o solo onde hoje circulam turistas carrega feridas ainda vivas na memória dos moradores.
Esse choque de realidade muda a forma de olhar a paisagem: uma fachada com marcas de estilhaços deixa de ser apenas cenário e ganha peso humano.
Dê espaço ao acaso
Existe um abismo entre colecionar fotos para as redes sociais e realmente vivenciar um lugar. Quando viajamos apenas para registrar o ângulo "instagramável" ou cumprir um checklist previsível, transformamos destinos inteiros em meros cenários de fundo. O verdadeiro aprendizado mora no extremo oposto: na coragem de abandonar o roteiro engessado e dar espaço ao acaso.
É a viela fora do mapa, o pequeno restaurante de bairro ou a conversa despretensiosa com um morador que revelam a alma do lugar e geram conexões que nenhuma fotografia ensaiada consegue capturar.
A mentalidade de viajante aprendiz resgata essa curiosidade genuína: a disposição para investigar, formular perguntas e deixar que novas realidades renovem a nossa visão de mundo.
Esse exercício se aplica tanto a uma travessia internacional quanto a uma visita a um bairro vizinho. Essa atitude ganha ainda mais força perto de casa. Viagens distantes exigem tempo, recursos e mobilidade física. No entanto, inúmeras oportunidades de descoberta cultural estão na cidade onde moramos.
Como explorar aprendizados na sua cidade
Em São Paulo, o bairro da Liberdade evidencia a história da imigração japonesa não apenas pela gastronomia e pelo comércio, mas pelo acervo do Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil. Compreender a trajetória dos pioneiros dá à caminhada um significado profundo.
No Rio de Janeiro, o Jardim Botânico oferece uma riqueza semelhante. Fundado em 1808 por D. João para aclimatar espécies de outros continentes, o espaço conecta o visitante à geopolítica do século XIX. A própria instalação da corte portuguesa no Brasil ajudou a manter a unidade territorial do país, evitando a fragmentação vista na América espanhola.
Experiências semelhantes existem por todo o país. Uma feira livre apresenta ingredientes desconhecidos; uma festa popular preserva raízes vivas; um diálogo com quem migrou de outro estado revela ângulos inéditos do cotidiano.
Qualquer ambiente familiar se renova diante de uma pergunta atenta: quem construiu este lugar? Como esta receita chegou até aqui? O que esta celebração representa para a comunidade?
Praticar o olhar do aprendiz é um exercício diário de aprendizado contínuo. A bagagem acumulada ao longo dos anos ganha valor real quando nos ajuda a conectar pontos, compreender contextos e manter a mente aberta.
O que existe na sua própria cidade que você ainda não olhou com curiosidade?
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