Mórris Litvak
Colunista VIVA
10/07/2026 | 10h50
Sobre a
coluna
Sobre a coluna
Fundador e CEO da Maturi, plataforma para profissionais 50+. É empreendedor social com pós-graduação em Gestão da Inovação Social pelo Amani Institute.
A rede de contatos que você construiu vale mais do que imagina; é só usar
Envato
São Paulo - São 21h. Você abre o LinkedIn no sofá, rola o feed por alguns minutos, entra na aba de vagas. Filtra por cidade, por área, por senioridade. Encontra três anúncios que parecem razoáveis. Clica em candidatar, anexa o currículo, escreve uma mensagem padrão. Fecha o computador.
Enquanto isso, no seu celular, tem uma agenda de contatos com 400, 500, talvez 800 nomes. Pessoas que já foram seus chefes, seus colegas, seus clientes, seus fornecedores, seus subordinados, seus parceiros. Pessoas que já viram seu trabalho por dentro, que sabem como você reage sob pressão, que já foram salvas por alguma coisa que você fez. Você não escreveu para nenhuma delas.
Se essa cena te parece familiar, quero te propor uma reflexão. Não uma dica de LinkedIn nem um passo a passo de networking. Uma reflexão sobre um ativo que você levou décadas para construir e que, provavelmente, está subutilizando de uma forma quase absurda.
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Antes de qualquer coisa, precisamos falar do incômodo. Pedir ajuda depois dos 50 é difícil."
Existe orgulho envolvido, existe a sensação de que a essa altura da vida você deveria estar "no lugar", não pedindo. Existe o medo de parecer que "não deu certo", como se procurar recolocação nessa fase fosse um sinal de fracasso pessoal. E existe também o receio de estar incomodando pessoas ocupadas, com problemas próprios.
O valor da sua rede de contatos
Esse desconforto é real e merece ser nomeado. Porque ele, e não a falta de rede, é o principal obstáculo.
A maioria das pessoas nessa fase não deixa de acionar a rede por não ter para quem escrever. Deixa por não conseguir se colocar no lugar de quem precisa pedir.
Agora deixa eu te oferecer outra perspectiva. Você não construiu essa rede em um ano. Construiu em 30 ou 40 anos. Cada emprego que você teve deixou pessoas que te conhecem profissionalmente. Cada projeto, cada cliente, cada evento, cada colaboração.
A maioria das pessoas subestima brutalmente o tamanho e a força dessa rede porque só pensa nela quando precisa. E quando precisa, olha para ela como se fosse pouca. Não é."
Faça um exercício simples
- Pense em cinco empresas onde você trabalhou.
- Em cada uma, quantas pessoas você lembra de nome?
- Multiplique isso por chefes, pares, times, áreas próximas com quem você teve contato.
- Some clientes.
- Some parceiros.
- Some pessoas que você conheceu em cursos, eventos, projetos paralelos.
- Resultado: o número é maior do que você imaginou.
E aqui está algo que quase ninguém pensa: sua rede também está envelhecendo. Muitos dos seus contatos hoje ocupam posições de decisão. Têm empresas próprias. Contratam. Aquele colega que era analista quando você entrou no mercado agora é diretor. Aquela amiga que estava começando junto com você abriu uma consultoria. O ex-chefe que você respeitava está no conselho de várias empresas. A rede que era só de "colegas" há vinte anos hoje é uma rede de tomadores de decisão.
Essa é uma vantagem estrutural que só quem tem tempo de estrada possui. Um profissional de 30 anos tem uma rede grande, talvez. Mas tem pouca gente ainda em posição de decidir. Você tem.
Vagas acontecem por anúncio ou indicação?
Isso importa porque as melhores oportunidades quase nunca chegam via anúncio público. Especialmente para perfis mais experientes. Quanto mais sênior a posição, mais o mercado funciona por indicação, conversa, sugestão.
As vagas anunciadas são a ponta visível de um iceberg muito maior de oportunidades que circulam por baixo, entre pessoas que confiam umas nas outras.
Uma vaga no site coloca você em competição direta com centenas de outros currículos. Uma conversa com alguém que já te conhece coloca você em uma categoria completamente diferente. Você deixa de ser "candidato" e passa a ser "pessoa recomendada".
Como ativar a rede de contatos?
Mas atenção, porque aqui vem a parte que muitos confundem. Ativar a rede não é mandar mensagem dizendo "oi, tudo bem, estou desempregado, tem vaga aí?" Isso é constrangedor para os dois lados e quase nunca funciona.
Ativar a rede é reconectar. É mandar uma mensagem falando "faz tempo que a gente não se fala, queria muito trocar uma ideia contigo". É marcar um café, uma call de trinta minutos. É contar em que fase você está, ouvir em que fase a pessoa está, entender o que ela está enxergando no mercado. É pedir opinião, não emprego. É oferecer ajuda também, porque conexão de verdade é sempre nas duas direções.
Quando a conversa acontece, você não precisa terminar pedindo nada. Só o fato de você estar de novo no radar dessa pessoa já muda muita coisa. Duas semanas depois, quando ela ouvir alguém comentar sobre uma vaga que combina com você, seu nome vai vir naturalmente. Não porque você pediu. Porque você existiu para ela de novo.
E se você fizer isso com 10 pessoas, 30 pessoas, 50 ao longo de alguns meses, o que era uma agenda parada volta a ser uma rede viva. E rede viva é o que abre portas."
Uma coisa importante para terminar. Você não precisa fazer tudo isso amanhã. Não precisa mandar cinquenta mensagens no domingo à noite. Comece pequeno. Escolha três pessoas que você tem carinho profissional real, com quem você perdeu contato só porque a vida foi levando. Escreve para elas essa semana. Sem agenda escondida. Só reconectar. O resto vem.
A próxima oportunidade da sua vida provavelmente já conhece você. Só está esperando você lembrar disso.
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