Mórris Litvak
Colunista VIVA
05/06/2026 | 08h59
Sobre a
coluna
Sobre a coluna
Fundador e CEO da Maturi, plataforma para profissionais 50+. É empreendedor social com pós-graduação em Gestão da Inovação Social pelo Amani Institute.
A escolha certa não existe; o movimento é o que importa na carreira
Envato
São Paulo - Você está sentado na mesa da cozinha, café esfriando, com uma folha onde tentou listar prós e contras. De um lado, a possibilidade de continuar na mesma área onde você passou os últimos 25 anos. Do outro, a ideia de mudar completamente, fazer aquela coisa que sempre quis fazer.
Ali no canto da folha, mais tímido, está escrito "talvez consultoria". E em algum lugar você anotou, com letra apressada, "ou empreender?" Faz semanas que essa lista está aí. Você olha de novo, acrescenta um item, risca outro, espera a clareza chegar. Ela não chega.
Se você está nesse momento, eu preciso te dizer algo que aprendi conversando com milhares de pessoas que passaram por essa mesma cozinha, com a mesma folha: a escolha certa que você está esperando não existe. E continuar esperando custa mais caro do que qualquer decisão que você possa tomar agora.
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Deixa eu explicar. A ideia de que existe uma resposta correta para o que fazer da carreira depois dos 50 é uma herança de um modelo que não cabe mais. Quando o caminho era linear, quando a maioria das pessoas entrava em uma empresa aos 25 e saía aos 60 com o relógio, fazia sentido escolher com extremo cuidado. Errar significava perder anos. Hoje, errar significa aprender alguma coisa em três meses e ajustar o curso.
O problema é que muita gente continua agindo como se estivesse jogando o jogo antigo. Quer ter certeza antes de se mexer. Quer ler mais um livro, fazer mais um curso, conversar com mais uma pessoa, esperar mais um pouco. E enquanto isso, a melhor coisa que poderia estar acontecendo, que é descobrir na prática o que faz sentido, não está acontecendo."
Aqui mora a inversão que eu quero te trazer: a clareza não vem antes do movimento. Ela vem depois.
Experimentar para saber
Você só descobre se gosta de consultoria quando aceita o primeiro projeto. Você só descobre se aquela ideia de negócio tem pé quando conversa com cinco clientes potenciais. Você só descobre se quer mesmo mudar de área quando passa um mês acompanhando alguém que já trabalha nela.
Tudo o que você consegue fazer sentado em casa é gerar mais hipóteses. Validar essas hipóteses só acontece quando você sai da cadeira.
E tem outra coisa importante que precisa ser dita: continuar, mudar, empreender e consultar não são quatro portas onde uma única se abre. Essa é a forma como o problema é apresentado, mas não é como ele se resolve na vida real. A maioria das pessoas que conheço que fizeram boas transições nessa fase fizeram combinações. Deram consultoria enquanto procuravam recolocação. Empreenderam em paralelo a um trabalho CLT. Mudaram de área aos poucos, mantendo um pé no que conheciam enquanto plantavam o outro em algo novo.
Aliás, essa flexibilidade é uma das vantagens reais de quem tem mais experiência. Você não precisa apostar tudo em uma única carta. Você tem repertório suficiente para sustentar duas ou três frentes ao mesmo tempo, escutar o que cada uma está te dizendo e ir ajustando.
Como começar o movimento
Agora, atenção. Movimento não é o mesmo que agitação. Não estou dizendo para você sair fazendo qualquer coisa só para se mover. O que estou dizendo é que ação intencional, mesmo que pequena, gera mais informação do que reflexão prolongada.
- Aceitar um café com alguém que faz o que você cogita fazer é movimento.
- Escrever um post sobre o tema que você gosta e ver quem responde é movimento.
- Pegar um projeto freelancer modesto para testar uma ideia é movimento.
Você não precisa entregar carta de demissão amanhã para começar a se mexer.
Decisão x passo
E tem uma última coisa que vale dizer, porque acho que ninguém fala com a clareza necessária. A decisão que você tomar agora não é a última que você vai tomar na vida. Você ainda tem muitos anos de trajetória pela frente. Aliás, talvez essa seja uma das coisas mais libertadoras de aceitar: a próxima escolha não é definitiva. Ela é um passo.
Se daqui a um ano você perceber que esse passo te levou para um lugar interessante mas não exatamente o que você esperava, você ajusta. Se descobrir que esse caminho não era o seu, você muda de novo. Isso não é fracasso. Isso é como funciona uma carreira longa, que não é mais linear.
O que custa mais caro nessa fase da vida não é tomar uma decisão errada. É não tomar nenhuma. É ficar dois anos esperando a clareza chegar enquanto a vida continua passando. É chegar aos 60 e perceber que você ainda está com a mesma folha de prós e contras na mesa da cozinha.
A boa notícia é que você pode levantar dessa cadeira hoje. A escolha não precisa estar pronta. Só precisa começar. Boa sorte!
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