Mórris Litvak
Colunista VIVA
04/09/2026 | 11h01
Sobre a
coluna
Sobre a coluna
Fundador e CEO da Maturi, plataforma para profissionais 50+. É empreendedor social com pós-graduação em Gestão da Inovação Social pelo Amani Institute.
As frases que a gente precisa aposentar antes da gente
Envato
São Paulo - Tem uma cena que se repete quase todo dia no Brasil. Alguém esquece uma palavra no meio da frase e solta um "ai, deu branco, já estou ficando velho". Uma vendedora chama uma senhora de 68 anos de "jovem" achando que está sendo gentil. Um sobrinho comenta, surpreso, "nossa, o tio ainda está trabalhando?".
São frases pequenas, ditas quase sem pensar, que a gente escuta e repete desde criança. O problema é que elas carregam uma ideia por trás que faz mal, literalmente.
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Pesquisas na área de saúde pública mostram algo que ainda é pouco conhecido fora do meio acadêmico: as crenças que temos sobre envelhecer não ficam só na cabeça. Elas se conectam ao corpo.
Estudos conduzidos ao longo de décadas por pesquisadores da Universidade de Yale mostram que pessoas que carregam uma visão mais positiva sobre a própria idade caminham mais rápido, se recuperam melhor de doenças, cuidam mais de si mesmas e apresentam menos marcadores biológicos ligados a quadros de declínio cognitivo. Em alguns estudos, pessoas com crenças mais positivas sobre a idade chegaram a apresentar melhora em quadros leves de perda de memória.
Ou seja, a forma como a sociedade fala sobre envelhecer não é só uma questão de educação ou de bom gosto. É uma questão de saúde pública."
E o Brasil tem um motivo extra para levar isso a sério. Segundo o IBGE, entre 2000 e 2023 a proporção de pessoas com 60 anos ou mais praticamente dobrou no País, saindo de 8,7% para 15,6% da população. A projeção é que em 2070 quase 38% dos brasileiros estejam nessa faixa etária.
Não é um grupo pequeno nem uma exceção. É o Brasil que está vindo por aí, e que já está aqui. Por isso vale parar um minuto nas frases que a gente usa no automático:
Deu branco, já estou ficando velho
Esquecer um nome ou perder o fio da meada acontece em qualquer idade. Criança esquece, adulto de 30 anos esquece, principalmente quando está com atenção dividida entre o celular e a conversa. Transformar um lapso comum em prova de envelhecimento é um hábito, não um diagnóstico. E hábitos podem mudar.
Nossa, ainda trabalhando?
Essa pequena palavra, "ainda", carrega um peso enorme. Ela sugere que continuar ativo depois de uma certa idade é estranho, quase uma exceção que merece comentário. A realidade brasileira mostra o oposto. Com o aumento da expectativa de vida e as mudanças na pirâmide etária, o mercado de trabalho vai precisar cada vez mais de profissionais experientes. Perguntar "ainda trabalhando?" ignora que, em pouco tempo, trabalhar depois dos 50, 60 ou 65 anos vai deixar de ser exceção para virar regra.
Você está ótimo para a idade
Parece elogio, mas separa a pessoa em duas categorias: o "ótimo" e o "para a idade", como se fossem coisas diferentes. Um jeito mais simples e mais honesto de elogiar alguém é falar exatamente o que se está vendo: energia, bom humor, disposição, estilo. Sem colocar a idade como ressalva.
Daqui pra frente é ladeira abaixo
Pesquisas que acompanharam grupos de pessoas mais velhas por mais de dez anos encontraram algo interessante: quase metade delas apresentou melhora em pelo menos um indicador de saúde física ou cognitiva ao longo do tempo. Isso não significa negar que o corpo muda com os anos. Significa que a ideia de uma queda linear e inevitável não corresponde à realidade da maioria das pessoas.
Terceira idade, melhor idade, idade de ouro, maior idade
Esses apelidos surgiram com boa intenção, mas hoje funcionam quase como um jeito de evitar a palavra "velho" e "velha", como se fossem palavras ruins. O problema não está na palavra. Está no significado negativo que a sociedade colou nela ao longo do tempo. Trocar o rótulo não resolve isso, apenas adia a conversa.
Um portal e uma coluna com um compromisso
O VIVA nasceu para contar essa outra versão da história, a de que viver mais também pode significar viver melhor, com mais informação, mais representatividade e menos estereótipo, assim como a Maturi, que eu fundei e 2015. E é esse também o compromisso desta coluna."
Não se trata de pedir para ninguém "se sentir jovem" ou provar disposição para compensar a idade. Trata-se de reconhecer que o etarismo não é um problema individual de quem envelhece, é um problema de linguagem, de mercado e de cultura, que a gente só resolve coletivamente.
A boa notícia é que mudar uma frase custa pouco e o efeito, segundo a ciência, pode durar a vida inteira.
Da próxima vez que bater a vontade de dizer "nossa, ainda trabalhando?" ou "você está ótimo para a idade", vale a pena trocar por uma frase mais simples e mais verdadeira. Alguém de 70 anos não precisa se sentir com 50 para ter uma vida boa. Precisa, sim, que o mundo em volta pare de tratar os 70 como um problema a ser disfarçado.
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