Brasil tem quase 2 milhões de trabalhadores por aplicativo, afirma o IBGE
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Rio - Cerca de 2 milhões de pessoas trabalhavam em plataformas digitais de serviços no Brasil em 2025, o equivalente a 1,9% de toda a população ocupada no período. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua: Trabalho por meio de plataformas digitais 2025, divulgada nesta sexta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A pesquisa investigou o perfil socioeconômico, a renda e a jornada de trabalho em aplicativos de transporte particular de passageiros, aplicativos de entrega de comida e produtos e aplicativos de serviços gerais ou profissionais.
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As plataformas eram o único ou principal trabalho para 1,8 milhão de pessoas (92,1% do total) em 2025 e o meio secundário para 182 mil trabalhadores (9,3%). Para 28 mil pessoas (1,5%), os aplicativos eram tanto o trabalho principal quanto secundário. Além disso, 38,8% dos trabalhadores plataformizados trabalhavam de forma exclusiva por aplicativo e com apenas uma plataforma.
As edições anteriores da pesquisa, realizadas em 2022 e 2024, investigaram as plataformas apenas como trabalho único ou principal. Em 2022, os aplicativos eram a principal fonte de trabalho para 1,3 milhão de pessoas, o equivalente a 1,5% da população ocupada no setor privado, contra 1,7 milhão em 2024 (1,9% da população ocupada).
"As plataformas têm oferecido oportunidades de geração de renda para muitos trabalhadores e permitido que as empresas alcancem novos mercados e reduzam custos. Por outro lado, representam um importante desafio para as condições de trabalho", afirmou Gustavo Geaquinto Fontes, analista do IBGE.
Transporte particular
Os aplicativos de transporte particular de passageiros concentravam o maior contingente de trabalhadores de plataformas. Essa categoria empregava cerca de 1,155 milhão de pessoas, equivalente a 58,9% do total de trabalhadores em aplicativos de serviços no país em 2025.
A maioria atuava em plataformas de transporte particular de passageiros, sem considerar os de táxi, totalizando 1,056 milhão de profissionais (53,9%). Os aplicativos específicos de táxi empregavam 232 mil pessoas (11,8%).
A segunda categoria mais representativa era a dos aplicativos de entrega de comida e produtos, utilizada por 585 mil pessoas, o equivalente a 29,9% dos trabalhadores plataformizados. A soma das participações das plataformas de transporte e de entregas chegava a 88,8%.
No segmento de entrega, 376 mil pessoas exerciam diretamente a ocupação de entregador (19,2%), enquanto as demais utilizavam as plataformas para captar clientes para os próprios negócios de comércio ou serviços de alimentação. Segundo Fontes, a maior parte dos entregadores é formada por motociclistas, embora também haja motociclistas atuando em aplicativos de transporte de passageiros, como os mototáxis.
Já as plataformas voltadas para a prestação de serviços gerais ou profissionais registravam a menor adesão, sendo apontadas por 313 mil trabalhadores, ou 16% do contingente total.
O Sudeste respondia por 55,3% do total de trabalhadores em plataformas de serviço no país, com 1,083 milhão de pessoas. O Nordeste respondia por 19,7% do total, o Sul por 11,7%, o Centro-Oeste por 7,3% e o Norte por 6%.
Homens são maioria
Para traçar o perfil sociodemográfico, a renda e a jornada de trabalho desses trabalhadores em 2025, o IBGE considerou apenas o contingente que utilizava as plataformas como trabalho único ou principal. Os homens correspondiam a 84,4% do total de trabalhadores de plataformas, enquanto as mulheres representavam 15,6%.
Havia também alta concentração na população jovem adulta. O grupo de 25 a 39 anos respondia por quase metade dos plataformizados, com 47% do total. Os indivíduos com ensino médio completo ou superior incompleto formavam a maior categoria, com 62,5% dos plataformizados, ante 45,3% entre os não plataformizados.
Os trabalhadores por conta própria correspondiam a 86,8% dos trabalhadores em aplicativos. Os empregadores eram 4,5% dos plataformizados e os empregados no setor privado representavam 8,1%. Entre os trabalhadores do setor privado, 4,5% tinham carteira assinada e 3,5% não tinham.
O IBGE ressalta que o valor contrasta com a distribuição entre o total de ocupados do setor privado, composto por 43,8% de empregados com carteira assinada, 28,9% de trabalhadores por conta própria, 15,1% de trabalhadores sem carteira e 4,7% de empregadores.
Falta de opção e flexibilidade
Os motivos declarados por profissionais que tinham as plataformas como trabalho principal concentravam-se em três fatores: flexibilidade de horários e dias de trabalho (26,8%); não conseguir encontrar outro trabalho (24,6%); e rendimento maior do que em outras opções disponíveis (20,8%). A complementação da renda foi apontada por 16,6%.
Entre quem exercia o trabalho em plataforma como atividade secundária, 87,7% desejavam complementar a renda. Os demais motivos somavam 12,3%.
A dificuldade de encontrar outro trabalho era a principal causa apontada tanto por quem trabalhava em plataformas de transporte de passageiros, exceto táxi (33,4%), quanto por trabalhadores de aplicativos de entrega (26,9%). A flexibilidade de horários e o recebimento de rendimentos maiores que em outros serviços disponíveis eram as demais razões apresentadas.
A PNAD Contínua identificou que 1,974 milhão de pessoas declararam a condução de automóveis como atividade principal em 2025, um aumento de 4,9% em comparação a 2024 e de 20,5% frente a 2022. Desse total, 45,9% estavam em plataformas, alta de 26% ante 2022.
"O porcentual de motoristas de aplicativo aumentou de 2024 para 2025 no total de condutores. Em 2025, quase 46% do total de motoristas tinham o aplicativo como trabalho principal", afirmou Fontes.
Para os condutores de motocicletas no trabalho principal, estimou-se um contingente de 1,179 milhão de pessoas em 2025, aumento de 12,3% em comparação a 2024 e de 22,6% frente a 2022. Desse total, 34,4% estavam em plataformas, um salto de 91,9% ante 2022, o que significa que o grupo de motociclistas de aplicativo quase dobrou em três anos.
Jornada maior e rendimento-hora menor
Os trabalhadores em plataformas de serviços cumpriam jornada média de 44,7 horas semanais em 2025, 5,4 horas a mais que os demais trabalhadores ocupados do setor privado, cuja jornada média era de 39,3 horas.
Embora a jornada média semanal dos profissionais de aplicativo tenha registrado redução gradual de 1,7 hora desde 2022, quando era de 46,4 horas, ela permanecia substancialmente superior à do mercado de trabalho não plataformizado.
O rendimento médio dos trabalhadores de plataformas ficou em R$ 3.147, praticamente igual ao dos trabalhadores do mercado tradicional, de R$ 3.148. Como consequência, o rendimento-hora médio do trabalhador de aplicativos ficou em R$ 16,2, 12% inferior ao das demais ocupações, de R$ 18,4 por hora.
"Mesmo que os trabalhadores de aplicativos tivessem maior flexibilidade para trabalhar, para escolher onde e quando trabalhar, ainda assim a jornada de trabalho era maior", destacou Fontes.
Os motoristas de aplicativo receberam, em média, R$ 2.873, valor 2,4% superior ao recebido pelos demais motoristas, que ganharam R$ 2.805. No entanto, o profissional de aplicativo trabalhou 5,5 horas a mais por semana. Com isso, o rendimento-hora era de R$ 14,4, 11,1% inferior ao dos motoristas tradicionais, de R$ 16,0 por hora. Mesmo em comparação com os motoristas tradicionais informais, que ganhavam, em média, R$ 15,7 por hora, os plataformizados recebiam menos por hora trabalhada.
No caso dos motociclistas, os condutores por aplicativo registraram rendimento mensal de R$ 2.221, valor 23,3% maior que os R$ 1.802 dos motociclistas em trabalhos tradicionais. Sob a ótica do rendimento-hora, os R$ 11,4 recebidos pelos profissionais de aplicativos superavam em 12,9% os R$ 10,1 dos trabalhadores fora das plataformas.
Segundo o IBGE, a aparente vantagem salarial só existe porque o mercado de motociclistas não plataformizados é puxado para baixo pelo contingente informal, que ganha apenas R$ 9 por hora trabalhada. Os motociclistas tradicionais que atuavam com carteira assinada ganhavam R$ 12,1 por hora, superando o ganho por hora das plataformas, além de contarem com cobertura previdenciária e direitos trabalhistas.
Renda estagnada
O rendimento médio mensal recebido pelos trabalhadores de plataformas ficou praticamente estável entre 2025 e 2022, quando o estudo foi feito pela primeira vez. Em valores absolutos, evoluiu de R$ 3.115 em 2022 para R$ 3.151 em 2024, recuando levemente para R$ 3.147 em 2025.
Em contrapartida, o rendimento médio dos demais trabalhadores do setor privado expandiu 10,6% no mesmo intervalo, passando de R$ 2.847 em 2022 para R$ 3.148 em 2025.
Segundo o IBGE, a trajetória eliminou a vantagem de rendimento que os trabalhadores por aplicativo apresentavam no início da série histórica, quando chegou a 9,4% a favor dos plataformizados frente aos não plataformizados.
O resultado geral foi influenciado pela estabilização do rendimento de motoristas e motociclistas, que representam cerca de três quartos do total de plataformizados. "E não houve, nesse período, nenhum ganho real para o condutor de automóvel e para o motociclista por aplicativo. Isso respondeu, em parte, pela estagnação do rendimento dos plataformizados", explicou Fontes.
Segundo o analista, a estagnação pode estar relacionada, entre outros fatores, à maior oferta de trabalho e ao aumento do contingente de pessoas disputando corridas e entregas nas plataformas digitais.
(Por Paula Martini)
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