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Fim da escala 6x1: entenda o debate sobre jornada e impactos econômicos

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Com o fim da escala 6x1, comércio teria alta de R$ 158 bilhões com a folha de pagamento, segundo a Fecomércio-SP - Envato
Com o fim da escala 6x1, comércio teria alta de R$ 158 bilhões com a folha de pagamento, segundo a Fecomércio-SP
Por Claudio Marques

27/04/2026 | 08h16

São Paulo - As discussões sobre o fim da escala de trabalho 6x1 avançam e alimentam os debates sobre os benefícios e desafios que envolvem a implantação da medida.

Enquanto os ganhos para o trabalhador proporcionados pela redução dos dias de atividade são admitidos pelas partes envolvidas, de outro lado setores empresariais como indústria, comérico e serviços – que seriam os mais afetados pela mudança - apontam que ela causaria perdas bilionárias

Para a presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos -SP, Eliane Aere,  a questão vai além da redução de horas.

Não dá para dissociar a questão da quantidade de horas trabalhadas do debate sobre produtividade, gestão, tecnologia e qualificação para o trabalho”.

Leia também: Fim da escala 6x1 é tendência não só no Brasil, mas no mundo, diz ministro

Já a professora do departamento de Administração da Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenadora do Núcleo de Estudos em Psicologia Social do Trabalho (NUPST) da instituição, Flávia Uchoa defende que o impacto na saúde física e mental dos trabalhadores sob o esquema 6x1 impulsiona a precariedade e o isolamento social. Ela desenvolve o projeto “Impactos da escala 6×1 na vida das(os) trabalhadoras(es)”.

A rotina de seis dias consecutivos de trabalho provoca o que a literatura acadêmica define como 'pobreza temporal', pois falta tempo para que o trabalhador cuide de si", diz a professora. 

O que muda com a escala 6x1

A Constituição Federal de 1988 estabelece um limite 44 horas trabalhadas semanalmente. Ao mesmo tempo, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) garante um dia de descanso semanal remunerado, preferencialmente aos domingos. A combinação dessas regras dá origem à escala 6x1, ou seja, trabalha-se 6 dias e descansa-se 1. 

Para dar conta das 44 horas em 6 dias de trabalho, as empresas geralmente adotam um destes modelos: 7 horas e 20 minutos por dia ou jornadas de 8 horas de segunda a sexta-feira e mais 4 horas no sábado.

Na Câmara dos Deputados, duas propostas de emenda constitucional (PEC) iniciaram tramitação na Casa propondo a adoção de uma jornada de 36 horas semanais, em vez das 44 horas atualmente em vigor.

Elas já foram aprovadas pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e agora serão apreciadas por uma Comissão Especial. 

Ao mesmo tempo, o governo enviou um projeto de lei propondo uma carga horária de 40 horas semanais. No entanto, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), não colocou a proposta em tramitação e nem prevê data para isso ocorrer. 

Impacto para o trabalhador: exaustão

Mulher negra com cabelos descoloridos e com fone de ouvido de cabeça baixa, com as mãos cruzadas em frente ao rosto tem os dedos indicadores inferindo cansaço e exaustão
Pesquisa do Movimento VAT aponta jornadas exaustivas  que provocam estresse e burnout - Envato

A professora Flávia Uchoa alega que a falta de um segundo dia de descanso impede que o indivíduo tenha tempo para a família, convivência social, autocuidado, lazer ou qualificação profissional.

Ela cita os resultados apurados por um “estudo exploratório”  feito pelo Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que ao longo de 2025 aplicou um questionário aos cerca de 500 membros de WhatsApp do VAT. Segundo ela, o VAT tem força política e grande atuação nas redes sociais. 

Mesmo reconhecendo tratar-se de um grupo pequeno, ela diz que o levantamento revela um pouco o que é a experiência, o dia a dia do trabalhador da escala 6x1.

Os números apontam exaustão por 97% dos entrevistados, enquanto 94% relatam impactos severos na saúde mental e na vida pessoal. Outros 94% dizem que a escala impacta extremamente a sua vida pessoal –  familiar e social. A maioria das pessoas que responderam é formada por mulheres.

Três palavras-chave resumem a experiência dos entrevistados: exaustão, sobrecarga (mental e física) e isolamento. Este último reflete a impossibilidade de manter vínculos afetivos e comunitários. O impacto é tão marcante que muitos recorrem à medicalização para suportar a rotina."

Eliane Aere, da ABRH-SP, lembra que jornadas exaustivas, só com um dia de descanso, estão ligadas a níveis altos de estresse, ansiedade e incidência do da síndrome de burnout. “E isso também é custo”, diz, e destaca que o cansaço crônico afeta diretamente a capacidade de concentração das pessoas. 

É um quadro que pressiona o turn over. "As indústrias que oferecem escalas mais equilibradas são mais atraentes e tendem a ter um turnover menor. As pessoas conseguem ver a questão da qualidade de vida realmente como um benefício real. Vamos ter um ganho importante e uma percepção super positiva", afirma.

De acordo com Uchoa, há estudos que consideram que a redução dos dias trabalhados contribuiria para o aumento da produtividade. “Países com jornadas extensas, como o Brasil, continuam competindo no capitalismo periférico, sem vantagem competitiva real", afirma.

A transição para um novo modelo é vista pela docente como uma "janela de oportunidade" para reorganizar setores críticos, como o de logística e transporte, que já enfrentam escassez de mão de obra devido às condições desgastantes.

Entidades patronais são contra

A presidente da ABRH-SP sugere que o caminho para a implementação da escala 6x1 passe por um diálogo intenso com entidades de classe e sindicatos, para que cada setor avalie suas especificidades. Seria uma maneira de evitar um desequilíbrio econômico e aumento drástico nos custos operacionais.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) alega que o fim da escala 6x1 terá impacto no aumento de custos, na inflação e no desemprego, prejudicando a competitividade industrial. A entidade defende que a jornada de trabalho deve ser pautada por diálogo e negociações setor a setor, e não por imposição legal. 

Em carta aberta, a CNI calcula que a redução da escala poderia causar um custo de R$ 88 bilhões ao ano para a indústria e elevar os preços para o consumidor em 6,2% em média.

Também a Fecomércio-SP divulgou suas estimativas. Se a redução for para 40 horas semanais, como prevê o projeto do governo, haveria uma elevação de custos com a folha de pagamento de R$ 158 bilhões.

Os dados da entidade dão conta de uma elevação entre 10% e 22% no custo da hora trabalhada caso a jornada seja reduzida para 40 ou 36 horas.

Negociação e automação

A negociação, segundo a presidente da ABRH-SP, é importante para enfrentar uma série de desafios, sejam de ordem jurídica ou sindicais, que são complexos ou fazem parte da própria do próprio processo.

"A transição (para uma nova escala) não dá para ser feita de maneira unilateral. Precisamos de um processo muito forte de negociação para que os negócios continuem caminhando e produzindo os resultados que as empresas precisam", reforça.

Eliane Aere, presidente da ABRH-SP, sentada, com microfone  na mão, usa óculos e vestido escuro, com jaqueta marrom
Eliane Aere defende investimento em tecnologia e capacitação.  Reprodução / Linkedin / linkedin.com/in/elianeumanni

“Cada setor vai ter que avaliar,  segundo sua característica específica, qual a possível redução. Talvez fazer um período de transição seja bem interessante, ir reduzindo aos poucos”, diz. 

Ela defende que, para a implementação, as empresas precisam investir em tecnologia para ajudar a melhorar a produtividade. Será necessário aprimorar os sistemas de controle de ponto, tornando-os mais sofisticados e eficientes, para garantir o cumprimento das novas regras.

Leia também: Fim da escala 6x1 não pode gerar custo ao Tesouro, diz ministro

Além disso, as empresas deverão revisar os contratos de trabalho, adequando-os ao novo modelo de jornada. A implementação também envolve a análise cuidadosa dos fluxos e processos internos, com o objetivo de identificar oportunidades de melhoria, racionalização e eficiência.

Nesse contexto, a automação ganha destaque como uma estratégia fundamental.

Segundo Eliane Aere, ao automatizar tarefas e otimizar processos, seria possível aumentar a produtividade e compensar eventuais impactos da redução da jornada, tornando a transição mais viável e sustentável.

Ela também considera importante a capacitação da mão de obra. Mas vai além. “Temos que preparar, de fato, essas estruturas organizacionais, promover o debate, trabalhar muito a questão do letramento, envolver a liderança. Precisamos de uma liderança preparada, porque ela faz toda a diferença no dia-a-dia das organizações. Porque ela anima, estimula, incentiva e ela também deveria ser exemplo”, afirma.

Risco de informalidade

A presidente da ABRH-SP revela, porém, um temor. De que toda a discussão possa reforçar a informalidade no País. “É preciso tomar cuidado para movimentos como esse trazer mais informalidade. Mas o que se espera, na verdade, é que mais pessoas sejam contratadas”, declara.

Um  aumento na informalidade seria um quadro, segundo a professora Flavia Uchoa, que golpearia a Previdência. 

Leia também: CNI: preços teriam alta de 6,2% em média com redução da jornada de trabalho

Na Câmara dos Deputados, segundo revelou a Coluna do Estadão, a oposição poderá apresentar, na Comissão Especial que vai debater o mérito dos projetos apresentados, a PEC do deputado Mauricio Marcon (PL-RS), que deixa o trabalhador escolher o regime que quer seguir: se é a CLT ou receber por horas trabalhadas.

Ao mesmo tempo, para chegar às 40 horas semanais de trabalho, caso o empregado opte pela CLT, a oposição quer um regime de progressão de redução de uma hora de trabalho por ano, começando apenas em 2027, depois das eleições, chegando às 40 horas em 2030.

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