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Sobre a coluna

Historiadora e doutora pela FFLCH/USP, pós-doutora pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, é autora de mais de 50 livros de História do Brasil, premiada no Brasil e exterior.


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Amores de outono: a delicadeza da relação de D.Pedro II e Condessa de Barral

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Amor é sobre delicadeza, como mostra a história de Dom Pedro II e Luisa Barral, que durou 34 anos - Envato
Amor é sobre delicadeza, como mostra a história de Dom Pedro II e Luisa Barral, que durou 34 anos

Teresópolis (RJ) - Andei escrevendo sobre um amor de outono. Quem o encarna são dois personagens de nossa história: D. Pedro II e a Condessa de Barral. Ela tinha mais nove anos do que ele. Dedicaram-se um ao outro durante 34 anos. Ao final da vida de ambos, o imperador, já no exílio, hospedou-se no castelo dela, em Voyron. Diariamente, ele depositava à porta do quarto da dona-de-casa um ramalhete de flores do jardim. D. Pedro II mesmo as colhia. À noite, liam juntos e dialogavam na frente da lareira.

As “conversinhas”, dizia ele com encantamento, eram intermináveis. Luisa de Barral, por sua vez, tomava as mãos dele, entre as suas, e, delicadamente, as massageava.

Eram tempos em que as pessoas 'não davam', mas se davam. E o amor era feito de outra gramática: um nó na garganta, um suspiro, um rubor. E tudo estava dito."

Uma das conquistas do último decênio, foi à valorização da “melhor idade”. Com a chegada do Viagra, em 1998, casais de cabeça branca puderam prolongar, com carinho, as suas outras conversinhas. Foi o fim dos retratos onde os mais velhos pareciam tão sisudos.

Se até o século XIX, matronas pesadas e vestidas de negro enfeitavam álbuns de família e quadros a óleo, nas salas de jantar, no século XX elas tenderam a desaparecer da vida pública. Envelhecer começou a ser associado à perda de prestígio e ao afastamento do convívio social. Mas, agora, tudo isto mudou.

A possibilidade oferecida pela medicina de prolongar os dias com qualidade não deve mais ser vista como um problema. Mas como um desafio. Envelhecer não precisa ser só sinônimo de perdas. Hoje, velhos são somente aqueles que se degradam física ou mentalmente, tornando-se dependentes. Ou, como define com humor, uma amiga: são os que não precisam mais de médicos. Mas de “restauradores”. O tempo, como canta o poeta, transforma as formas do viver.

Por vezes, com voz inaudível e deformada pela passagem dos anos, os amantes de outono se falam deste tempo em que, com olhar distanciado, podem deixar vir a si todas as coisas. Inclusive as do coração."

“A partir deste limite, seu ticket não é mais válido”? Erro. Aceitar as perdas substituindo-as por alegrias, tentar se libertar do passado para viver o presente ou preservar uma maneira de amar e de criar dão nova dimensão a esta fase da vida. E fase que tende a se prolongar. Os resultados da pesquisa com genoma estão aí para nos deixar mais longevos. Para nos dar mais gás e incentivar a organizar um outro momento.  

Diante destas possibilidades, é preciso redesenhar esta estação da vida com novas cores. Erigir outra bandeira que não seja a da renúncia. Descobrir os valores no envelhecimento: a importância das pequenas coisas, aparentemente insignificantes. Os momentos de contemplação e de companheirismo. A partilha de responsabilidades parentais ou outras. O prazer de estar junto e compartilhar parcerias. E, por que não, o amor.

Um amor como o do casal Pedro e Luísa, feito de delicadeza. Afinal, os corações não envelhecem nunca.

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