Idosos LGBT+ sofrem com isolamento social e invisibilidade, expõe geriatra
Felipe Cavalheiro/VIVA
São Paulo - As velhices LGBTQIAPN+ são plurais para além da sexualidade; permeiam interseccionalidades de gênero, raça, cor e histórias de vida. No entanto, uma característica atravessa essas realidades distintas: o isolamento social e a invisibilidade.
Esse é o destaque da fala do médico geriatra e professor da Unicamp, André Fattori, no segundo dia do 14º Congresso Paulista de Geriatria e Gerontologia (GERP.26).
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A mesa-redonda "Sexualidade na Velhice" abriu as palestras desta sexta-feira, 10, com atenção aos impactos da violência de gênero no envelhecimento e na representatividade.
De acordo com o médico, que lidera o ambulatório de geriatria LGBTQIAPN+ do Hospital de Clínicas da Unicamp, 71% dos pacientes atendidos não têm companheiros e 51% possuem diagnóstico clínico de depressão.
A faixa etária mais avançada tem muito marcadamente a questão do isolamento social e da invisibilidade, que caracteriza o perfil psicológico dessas pessoas."
Outros 34% apresentam quadro de fragilidade, 28% têm declínio cognitivo leve e 22% sofrem com insegurança alimentar. "As pessoas idosas LGBT em situação de isolamento não têm muitas vezes suporte alimentar, comem salsicha todos os dias", relata.
Segundo Fattori, a LGBTfobia e a internalização de preconceitos geram profundas barreiras no acesso à saúde, levando a isolamento social severo, negação da própria identidade e altos índices de sofrimento psicológico e ideação suicida.
O Ambulatório LGBT 60+, inaugurado em julho de 2023, tenta ressignificar esses estigmas, com a criação de vínculos e a oferta de suporte adequado para questões difíceis, como falta de apoio familiar e decisões de final de vida.
Para promover esse apoio, o geriatra recomenda que a classe busque ter um olhar interseccional para as velhices. "Estamos lidando com vários perfis e esses perfis precisam de sentir acolhidos", complementa.
Violência de gênero não pode ser confundida com idadismo
Em outra frente, a psicóloga da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), Valmari Cristina Aranha Toscano, ressalta que a violência de gênero, sofrida por mulheres idosas, muitas vezes é confundida com idadismo.
Toscano apresentou dados da edição mais recente da pesquisa Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
De acordo com as informações, 37,5% das brasileiras vivenciaram alguma situação de violência nos últimos 12 meses, o que corresponde a cerca de 21,4 milhões de mulheres, com 57% dos abusos ocorridos dentro da própria casa.
No caso das mulheres idosas, as estatísticas são ainda mais alarmantes, com filhos e filhas entre os maiores agressores.
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Segundo a psicóloga, fatores como dependência emocional e financeira, combinados com questões de saúde e isolamento social, tornam-nas ainda mais vulneráveis à violência intrafamiliar.
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