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Filhos são autores de 60% dos casos de violência contra mulheres idosas

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Dados apontam que 91% dos casos de violência contra a integridade de mulheres idosas ocorrem dentro de casa - Freepik
Dados apontam que 91% dos casos de violência contra a integridade de mulheres idosas ocorrem dentro de casa
Por Paula Bulka Durães

06/02/2026 | 15h01

São Paulo, 06/02/2026 - Na semana de lançamento do Pacto Nacional – Brasil contra o Feminicídio, o VIVA apresenta um dossiê inédito, a partir de denúncias registradas no Disque Direitos Humanos (Disque 100) e na Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180), que evidenciam o cenário da violência contra a mulher idosa no País.

De acordo com a apuração, os filhos, homens e mulheres, são os principais suspeitos das agressões reportadas nos dois canais. No Disque 100, que reúne o maior número de denúncias de violência contra pessoas idosas, os descendentes foram responsáveis por quase 60% das negligências e agressões contra a integridade física, psicológica e patrimonial dessas mulheres em 2025.

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Os dados da Ouvidoria do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania mostram que 91% dos casos reportados ocorreram dentro de casa. A violência sofrida foi, na expressiva maioria das vezes, diária, com 94 mil denúncias contabilizadas no ano passado.

Enquanto o domicílio da vítima — ou a residência que ela compartilha com o suspeito — figurou como principal local de agressão, as Instituições de Longa Permanência para Pessoas Idosas (ILPIs) apareceram com frequência significativamente menor: apenas 871 denúncias.

Os riscos contra a integridade da mulher idosa também aumentam conforme ela envelhece. Segundo a apuração, as mulheres de 80 anos ou mais representaram 38,3% das vítimas idosas, com 43,1 mil denúncias, seguidas das faixas etárias de 70 a 79 anos (35,4%) e de 60 a 69 anos (26,3%).

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As violências sofridas foram múltiplas, com negligência e agressões física e psicológica ocorrendo de forma simultânea.

A advogada especialista em Direito da Pessoa Idosa e conselheira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/PA), Letícia Martins Bitar, defende que a violência contra a mulher idosa precisa ser encarada como um fenômeno único, expressivo e urgente de ser resolvido no País.

"A velhice é feminina, isso não tem mais discussão; o censo de 2022 só veio reforçar o que a gente já tinha em mente. Por ela estar nessa condição, muitas vezes essa vulnerabilidade fica aflorada e ela não tem a quem recorrer, porque se sente de alguma forma aprisionada", afirma

Para a advogada, existe um problema intrínseco na violência doméstica sofrida na velhice, que é a dificuldade de denunciar um ente querido.

É muito delicado aplicar essas medidas protetivas, porque você vai ter que afastar aquele agressor daquela pessoa idoso. E se aquele idoso só tem aquela pessoa? Ele gostaria da convivência com o filho, mas, por outro lado, aquele filho traz sofrimento".

No comparativo anual, ao mesmo tempo em que as denúncias diminuíram, as violações aumentaram quase 9% entre 2024 e 2025.

No ano passado, São Paulo foi o líder disparado no Disque 100, com 28,5 mil denúncias. Em seguida, aparecem Minas Gerais (14,3 mil) e Rio de Janeiro (13,6 mil), indicando predominância da região Sudeste.

Qual o perfil da mulher idosa que sofre violência?

Segundo o levantamento do Disque 100, as mulheres idosas vítimas de violência contra a integridade foram, predominantemente, brancas (51,3%), acima dos 70 anos, com ensino fundamental incompleto (3,7 mil) ou analfabetas (3,4 mil).

Em seguida, mulheres negras, pretas e pardas também se destacaram, representando 44,3% dos casos em que a racialidade da vítima foi informada. 

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No entanto, é importante destacar que os critérios socioeconômicos sofreram, em 2025, com uma subnotificação expressiva: em 98% das denúncias a renda não foi informada e, em 88,8%, a escolaridade não foi preenchida, o que dificulta a análise da dependência econômica como fator de risco.

A maioria das mulheres idosas agredidas não possui deficiência. No entanto, em 49,5% das denúncias a informação sobre se a vítima era pessoa com deficiência ou não ficou ausente. Nos casos registrados, 20,1 mil mulheres conviviam com limitações motoras ou físicas, enquanto 11,8 mil apresentavam deficiências mentais ou intelectuais.

A vice-presidente do Instituto Maria da Penha (IMP), Regina Célia, que recebe denúncias de violência doméstica, relata que é muito frequente mulheres idosas que acessam a organização pedirem proteção aos autores da agressão.

Quando elas chegam para pedir um apoio ou socorro, ela faz toda a questão de, primeiro, que isso não chegue à polícia. Se a gente não puder proteger, ela não conta mais a história e não pede mais ajuda."

A relação de dependência emocional e financeira também é frequente. "Existe o medo desesperador que essas mulheres têm, porque reconhecem que estão sem força, sem vigor e dependendo totalmente daquela pessoa da família para ajudar."

Quem é o agressor?

Em 59,7% dos casos do Disque 100, os agressores das vítimas foram os próprios filhos. Quando somados aos netos, os ataques vindos de descendentes diretos ultrapassam 65% dos casos. Na sequência, aparecem os vizinhos, mas em proporção bem menor, em 5,6% dos registros.

Outra constatação é que o gênero dos suspeitos ficou equilibrado entre homens (44,4%) e mulheres (43,2%), com idade predominante entre 40 e 44 anos.

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A advogada Letícia Martins Bitar detalha que é justamente o contexto de múltiplas gerações, ocupando o mesmo espaço, que pode explicar os conflitos entre mães idosas e filhos, principalmente quando atrelado a questões econômicas.

Muitas vezes aquele filho, aquela filha, tem que abrir mão da sua vida, renunciar à sua carreira para cuidar daquela pessoa idosa. Existem uma série de respostas que podem apontar tudo isso, como o desemprego de um filho que encontra válvulas de escape para beber ou para determinados vícios. Isso vai gerando essa violência sistêmica naquela família."

Ligue 180

A Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180), ligada ao Ministério das Mulheres, registrou 14,2 mil denúncias de violência contra a mulher idosa. No entanto, esse número representa cerca de 12,5% do volume recebido pelo Disque 100, que somou 113,9 mil casos reportados.

Assim como no Disque 100, o Ligue 180 registrou com mais frequência agressões provenientes dos filhos da vítima (34,5%), seguidas dos vizinhos. Quando somadas às violações praticadas por esposos e companheiros, o resultado é mais de 2 mil denúncias vindas de relacionamentos conjugais e afetivos.

O grau de escolaridade das mulheres foi ligeiramente maior, com idosas que concluíram o ensino médio (2,4 mil) logo atrás das denúncias de mulheres com ensino fundamental incompleto (3 mil).

Denuncie

Caso testemunhe ou suspeite de maus-tratos contra mulheres idosas, faça uma denúncia. Ela pode ser realizada por qualquer pessoa, 24 horas por dia e de forma anônima, nos canais:

  • Disque 100;
  • Ligue 180;
  • 190, para situações de risco imediato;
  • Na delegacia mais próxima (inúmeros municípios e Estados possuem delegacias, inclusive, especializadas em violência contra a pessoa idosa);
  • Ministério Público do seu Estado.

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