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Aos 77, Odair José ganha documentário, fala de Caetano e do rótulo de brega

Divulgação/Bernardo Guerreiro

Com 57 anos de carreira, Odair José apresenta show com seus clássicos - Divulgação/Bernardo Guerreiro
Com 57 anos de carreira, Odair José apresenta show com seus clássicos
Por Adriana Del Ré

18/06/2026 | 14h07

São Paulo - Aos 77 anos, Odair José não quer — e não pode — ser encaixado em uma única prateleira da música brasileira. O compositor festejado por uma antiga geração de fãs por causa de clássicos como "Vou Tirar Você Desse Lugar", "Uma Vida Só (Pare de Tomar a Pílula)", "Eu, Você e a Praça", "Cadê Você" e "Deixe Essa Vergonha de Lado" é o mesmo que foi 'redescoberto' por uma juventude fascinada por sua ousada ópera-rock "O Filho de José e Maria", de 1977.

Odair foi também um dos autores mais censurados na época da ditadura. Mesmo tendo canções de cunho social e político, ele não foi abraçado pela turma da MPB e, mais tarde, injustamente inserido na "música brega", rótulo que ele rejeita. 

Acho que isso aconteceu por eu tocar em temas que incomodam, por tirar sujeiras debaixo do tapete, jogar na cara da hipocrisia".
o cantor Odair José
Divulgação. Odair José é tema de documentário sobre sua vida e carreira

O cantor e compositor goiano deu de ombros para títulos que não lhe cabiam e seguiu na ativa, fazendo música da forma que gostava. E tempos depois, um público renovado o tirou daquele lugar.

Essa é a mesma proposta de Dandara Ferreira, ao decidir fazer o documentário “Vou Tirar Você Deste Lugar”, sobre a vida do compositor, que será exibido nesta quinta (18), às 19h, na Casa Natura Musical, em São Paulo, dentro da programação do Festival In-Edit. A sessão será seguida de show do homenageado.

Ao VIVA, Odair José falou sobre o documentário, sucesso, percalços e sobre envelhecer em cima do palco. 

VIVA: Você lançou o disco "Seres Humanos (e a Inteligência Artificial)", em 2024, fez shows e agora é tema de um documentário. Como vê essa fase da carreira?

Odair José - Vejo de uma forma positiva. Estamos vivendo tempos diferentes em relação a antigamente. Hoje, a forma de apresentar o trabalho está diferente de quando era o álbum, o vinil. Em “Seres Humanos (e a Inteligência Artificial)”, agente estava chamando a atenção das pessoas, naquele álbum, para essa ferramenta que já estava chegando. E hoje, dois anos depois, vejo que a inteligência artificial está praticamente em tudo.

Estou viajando sempre pelo Brasil. Faço isso há 57 anos. Estou também preparando um álbum novo, que deve sair no segundo semestre. Enquanto o físico aguentar e a cabeça tiver funcionando, vamos rolando por aí.

Como foi revisitar sua história, mexer no seu acervo para esse documentário?

Minhas memórias são muito vivas. Eu me lembro de muita coisa, de quase tudo. Na verdade, o documentário é mais uma narrativa. Tem mais eu falando, tem alguns depoimentos, sobre o meu trabalho musical, a minha caminhada, as dificuldades que tive em alguns momentos, seja com a censura interferindo no trabalho, seja com a produção - porque, às vezes, você faz um trabalho e a gravadora não concorda, a mídia não concorda e o povo não aceita. Sempre gostei de trabalhar com produção dessa maneira. Não fico na zona de conforto. Gosto de trazer coisas novas, ainda que, para isso, eu tenha que correr risco. 

"Vou Tirar Você Desse Lugar", seu primeiro grande sucesso, ainda é sua música mais emblemática?

Sim. Eu gravo desde o final de 1969, mas "Eu Vou Tirar Você Desse Lugar", que é do primeiro trimestre de 1972, fez o Odair José. Eu já era conhecido nas rádios em algumas regiões. Era um artista médio, vendia 15 mil, 20 mil discos, o que era uma boa venda para aquela época. Mas com "Vou Tirar Você Desse Lugar", que foi um compacto simples, aconteceu uma coisa muito louca, porque foi a música de maior sucesso do ano e me tornei o cara que mais vendeu disco naquele ano.

O maior vendedor de disco do Brasil era o Roberto Carlos, vendia 200 mil cópias, uma vendagem espetacular. “Eu Vou Tirar Você Desse Lugar", no período de um ano, chegou a bater mais de 1 milhão de cópias.

Caetano Veloso convidou você para cantar justamente essa música no fatídico festival de 1973, quando o público te vaiou. 

O ano de 1973 foi talvez o mais forte da minha carreira. Eu tinha lançado um álbum (autointitulado "Odair José") que tem a "Pílula", "Cadê Você", as 12 músicas do disco fizeram sucesso. Eu era jovem, fazia tipo seis, sete shows por semana, viajando pelo Brasil. Então, eu estava bastante ocupado. Eu era o cara que mais vendia disco na gravadora, mas eu sabia que não ia participar daquele festival. Aquilo era um projeto mais MPB. Sinceramente, eu estava pouco preocupado.

Odair José veste colete preto e camisa branca, e está com cabelo branco
Obra de Odair José reúne clássicos como "Vou Tirar Você Desse Lugar", primeiro grande sucesso da carreira - Divulgação/Bernardo Guerreiro

Quando recebi uma ligação do presidente da empresa, o André Midani, ele disse que o Caetano tinha tido a ideia de me convidar, porque eles iam fazer algumas duplas no festival, tipo Chico Buarque e Gil, Bethânia e Gal, e ele queria fazer uma dupla comigo. Achei muito interessante.

Fui para o festival e percebi que, no dia, havia uma certa preocupação, os colegas todos me tratando com muito afeto. Não entendi muito bem, mas, quando entrei no palco, percebi por que eles estavam tão atenciosos comigo: deviam saber que aquilo poderia não dar certo. Quando o Caetano me chamou, aconteceu a maior vaia do planeta. Fiquei em pé ao lado dele. Nesse momento, o Caetano pega o microfone e chama atenção do público.

E depois?

O Caetano saiu do palco e me disseram: "fica aí que ele vai voltar". E fiquei ali tocando violão, apresentando músicas que nem podiam ser cantadas como "A Pílula" e outras coisas, porque tinha um pessoal da censura. Até que o Caetano voltou, a vaia ficou menor, mas não deixou de existir. E cantamos "Vou Tirar Você Desse Lugar". O André Midani, depois, me falou por telefone: "parece que você não está muito preocupado”. Por mim, normal esse negócio de vaia.

Nunca tinha tomado uma vaia, mas falei: 'isso é a opinião do público'. Acho que eles foram mais deselegantes com o anfitrião do que com o convidado. Para mim, foi um prazer estar na companhia do Caetano. Fiquei zero preocupado."

Por que acha que você foi colocado nesse balaio da música brega e não no grupo da MPB?

Acho que por eu tocar em temas que incomodam, tirar sujeiras debaixo do tapete, jogar na cara da hipocrisia. Uma vez, tentaram me levar ao Rock in Rio, para fazer "O Filho de José e Maria". Desistiram. Acho que por incomodar a elite hipócrita ou a hipocrisia da elite, ou por má-intenção, resolveram: "o cara está incomodando, vamos definir o cara como brega". Eu, pessoalmente, acho isso horrível, porque você não define música dessa maneira.

Inclusive, a Dandara (Ferreira, diretora) disse para mim que a ideia do título do documentário, "Eu Vou Tirar Você Deste Lugar", é para dizer isso: "vamos tirar o Odair José desse lugar e colocar onde realmente merece estar".

Você acha que um público mais jovem também tirou você desse lugar?

A geração de 20 para 40 anos não tem essa visão ridícula de brega. Ela gosta das músicas."

Faço shows por todo País e vai muito gente jovem. E é o jovem com informação diferenciada. Desde o ano 2000 que eles, de uma certa forma,  começaram a entender melhor o meu trabalho do que aquela geração mais antiga. Esse jovem a quem estou me referindo não tem preconceito nenhum. Ou a coisa é boa ou a coisa não é, ou a coisa agrada ele ou não. Mas ele não fica rotulando nada.

Como vê esse processo de envelhecer no palco, ainda estar trabalhando com música?

Eu até me surpreendo, porque, na minha na idade, a gente tem mais dificuldade física. Eu ainda não tenho. Tive um problema recentemente de ciático, mas nada que uma fisioterapia não ajude. Eu faço exercício, tirei qualquer tipo de vício da minha vida há 20 anos: não bebo, não fumo, parei de usar droga, não faço nada. Só bebo água, faço exercício, procuro me alimentar de uma forma saudável.

Então, não tenho dificuldade nenhuma em ficar duas horas no palco. Às vezes, faço essas viagens, essas logísticas mais apertadas: show na sexta, no sábado, no domingo ou, como fizemos agora, quinta, sexta e sábado, domingo e retormos para São Paulo. Na minha equipe, tem gente de 34 a 50 anos. E, às vezes – com algumas exceções –, eles demonstram mais cansaço do que eu. Estou sempre surpreendendo. Ouço: "o cara fez um grande show", "você está muito bem". Eu penso comigo: "vamos ver até onde vai".

Não me programei para parar, mas, na hora que sentir que não estou dando conta de fazer, com certeza não vou mais para o palco."

Serviço:

Odair José no In-Edit na Casa Natura Musical

Data: Quinta-feira (18/6)

Horários: abertura da casa, às 18h30; projeção do filme, às 19h (250 lugares); show: às 21h30

Local: Casa Natura Musical

Endereço: Rua Artur de Azevedo, 2.134, Pinheiros, São Paulo

Ingressos: Sympla

Valores: de R$ 35 a R$ 220

Veja teaser do documentario:

Palavras-chave Odair José do música

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