Aos 67, Lenine diz por que quase desistiu da música: 'salvo pela família'
Divulgação/Gilda Midani
São Paulo - Mais do que ser o trabalho mais íntimo de sua carreira, o disco “Eita” pode ser considerado o projeto de redenção de Lenine. É com esse álbum que o cantor e compositor pernambucano de 67 anos está em turnê e se apresenta no Tokio Marine Hall, em São Paulo, neste sábado (30). "Eita", o disco, faz parte de um projeto audiovisual que marca também a estreia do artista na direção, em um média-metragem inspirado nessa coleção de novas canções.
O último álbum de estúdio de Lenine havia sido “Carbono”, lançado em 2015. Nesse interim, ele preferiu investir nos projetos ao vivo “The Bridge - Live at Bimhuis”, com Martin Fondse Orchestra (2016), e “Em Trânsito” (2018), mesclando regravações e faixas inéditas.
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Antes da pandemia de covid-19, o músico começava a esboçar o que viria a ser um novo trabalho de inéditas, mas, com a crise sanitária, tudo perdeu de sentido para ele.
Eu tive uma depressão mesmo. A conjugação da pandemia com o pandemônio, que nos fez retroceder à Idade Média, isso bateu em muita gente”, diz Lenine, em entrevista exclusiva ao VIVA.
Para o cantor, a música que ele faz tem a ver com crônica, reportagem. “Quando perdi o sentido de realidade – porque foi isso que aconteceu, uma desconstrução da realidade –, tudo perdeu um pouco de sentido para mim.”
Foi o produtor, músico e engenheiro de som Bruno Giorgi, seu filho do meio, que o puxou pela mão e o convenceu a resgatar um velho hábito dos dois: se encontrarem todas as quartas-feiras no estúdio deles.
A pandemia ainda estava em curso, mas, aos poucos, e com o incentivo e o cuidado de Bruno, Lenine viu que a música é, de fato, sua vida, sua alegria, sua religião.
Fui salvo pelo núcleo familiar, principalmente por Bruno, que é produtor dos meus discos.”
O filho mostrou ao pai o “esqueleto” daquele disco, com umas cinco músicas, que começou a ser pensado antes da pandemia. Depois, o convenceu, com delicadeza, a voltar a fazer shows. Fizeram juntos uma turnê mais intimista, chamada "Rizoma".
“No primeiro show que fiz sozinho com violão, caiu a ficha: não consigo viver sem isso. É como uma extensão de mim. Aí tudo foi consequência: vamos lançar um negócio, vamos ensaiar."
Afetos
Nasceu, assim, o projeto "Eita". Além da forte sonoridade do Nordeste, sempre muito presente em sua obra, Lenine mergulha nos seus desejos, angústias, esperanças, e abre para o público suas histórias pessoais em faixas como “Foto de Família”, com participação de Maria Bethânia, e “Meu Xamêgo”, dedicado à mulher, a produtora e diretora Anna Barroso.
O próprio média-metragem – cuja direção-geral ele divide com Kabé Pinheiro e Laís Branco – traz elementos cênicos da família, como os livros de cabeceira dele e dos filhos, os discos do pai, a vitrola. O roteiro é assinado pelo renomado George Moura (de “Guerreiros do Sol”, “Onde Nascem os Fortes”, entre outros), com João Moura.
Em um dos clipes, Lenine canta “Meu Xamêgo” diante de sua companheira, como numa declaração de amor cantada. Os dois são casados há 45 anos. E como manter um relacionamento tão longo?
Tem uma questão que antecede muitas coisas, que é o desejo genuíno de ser em par, não sozinho. Tem os solitários e estão muito bem com sua solidão, mas desejar criar junto tem que ser cultivado. Assim como o amor, o afeto e a cumplicidade, você busca o tempo todo", aconselha o músico.
"São coisas que não garantem longevidade, mas deixa claro onde você está nessa história toda."
Veja o média-metragem "Eita":
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