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Bôscoli usa IA para lançar 'Corsário', de Elis, e manter legado da mãe

Divulgação/Arquivo/Roberto de Oliveira/Bandeirantes

Elis cantando 'Corsário' em especial da TV Bandeirantes, em 1976 - Divulgação/Arquivo/Roberto de Oliveira/Bandeirantes
Elis cantando 'Corsário' em especial da TV Bandeirantes, em 1976
Por Adriana Del Ré

12/05/2026 | 08h25

São Paulo - Passaram-se 44 anos desde a morte de Elis Regina, e sua voz intensa e visceral segue emocionando novos e antigos fãs. Seu legado tem sido perpetuado por seus herdeiros, representados pelo produtor musical João Marcello Bôscoli — filho mais velho da cantora e fundador da gravadora Trama.

É nos Estúdios Trama NaCena, em São Paulo, que acontecem os processos de restauração e modernização da obra da cantora, com a ajuda de tecnologia de ponta, como inteligência artificial (IA).

Foi assim com a música “Para Lennon & McCartney”, que ganhou versão remasterizada em 2024 e deu início a um disco póstumo que ainda está em construção. Agora, esse projeto tem continuidade com a faixa "Corsário", que acaba de ser lançada nas plataformas de streaming

A estreia ao vivo de “Corsário” será realizada no dia 5 de junho, no Blue Note SP, durante o show 'Elis & Eu', apresentado por Bôscoli, acompanhado de músicos que participaram das gravações da música. Ingressos já estão à venda no site Eventim.

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A gente está dentro do estúdio, trabalhando com a voz de alguém que não está aqui. Isso é uma fantasia. Ela não está ouvindo a gente; só a gente escuta ela. Então, é uma declaração de amor", diz Bôscoli, em entrevista ao VIVA, em seu estúdio.
João Marcello Bôscoli usa camisa preta e está sorrindo
O produtor João Marcello Bôscoli, filho de Elis, está à frente dos projetos que resgatam a memória da mãe - VIVA/Adriana Del Ré

Composição da icônica dupla João Bosco e Aldir Blanc, "Corsário" foi gravada por Elis no especial da TV Bandeirantes, dirigido por Roberto de Oliveira, em 1976.

Neste caso, a IA foi usada para retirar ruídos do antigo registro e dar a ele uma nova base instrumental, respeitando a forma como a artista gostava de gravar: com a banda toda junta, no calor do momento, ouvindo sua voz no fone de ouvido.

Ainda para manter essa atmosfera, o grupo de músicos escalado para a gravação — formado Marcelo Maita (piano elétrico e sintetizador), Conrado Goys (guitarra), Robinho Tavares (baixo), Daniel de Paula (bateria) e Paulinho da Costa (percussão e percussão vocal) — tocou apenas com instrumentos e equipamentos de 1976 ou anteriores àquele ano. 

Paulinho da Costa é um destaque à parte. Ele é um patrimônio da música brasileira, que, ao longo da carreira, colaborou com grandes nomes, como Michael Jackson, Madonna, Quincy Jones, Stevie Wonder, Whitney Houston, Elton John, entre tantos outros. Menos com Elis. Por isso, ter participado desse projeto deixou o músico visivelmente emocionado.

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João Marcello Bôscoli assinou a produção da faixa, além do arranjo de sintetizador (com Marcelo Maita), e contou com Ricardo Camera na restauração, mixagem e masterização. Ele também esteve à frente de outro projeto, o relançamento do álbum "Elis", de 1973, em versão mixada e remasterizada, que chegou ao streaming em março deste ano. 

A iniciativa, no entanto, desagradou o músico Cesar Camargo Mariano, que foi responsável pela direção musical e arranjos do disco original. Ex-marido de Elis e pai de outros dois filhos da cantora, Pedro Camargo e Maria Rita, o músico alegou que a obra teve os direitos patrimoniais e morais afetados. 

Ao VIVA, Bôscoli fala sobre "Corsário", a reação de Cesar Camargo Mariano e a importância de dar continuidade ao legado de Elis:

VIVA: Explique a técnica usada com ajuda de IA para a restauração de 'Corsário'.

João Marcello Bôscoli - A voz da Elis Regina foi gravada em 1976, durante um programa de TV. Como estavam todos dentro do estúdio e a banda tocando junto, ela usou um microfone de show muito bom. Mas era um microfone de show. Dois anos depois da morte da Elis, esses instrumentos que a acompanharam foram apagados para serem gravados outros instrumentos. Isso foi em 1984.

Paulinho da Costa está tocando instrumentos de percussão
O percussionista Paulinho da Costa, que trabalhou com grandes nomes como Michael Jackson, participa do projeto - Divulgação

Quando voltou esse HD para a família, voltaram a voz da Elis, todos os instrumentos originais apagados e os outros instrumentos que foram gravados em 84.

Quando você isola a voz dela, ouve na voz dela os instrumentos que foram apagados. Tem uma série de softwares que usa Inteligência Artificial, e é uma pessoa ali fazendo isso. Quando vejo o Ricardo Camara trabalhando, parecem aqueles filmes que eu via quando era novo, na TV, de restauração de objetos, de afrescos.

Sem essa tecnologia, você não conseguiria tirar todos os ruídos que o tempo acabou trazendo, além dos instrumentos vazando no microfone da Elis.

Em que outros projetos essa tecnologia foi usada?

É parecido com o que houve na voz de John Lennon (na canção 'Now and Then'), que ficou guardada, não conseguiram usar quando George (Harrison) era vivo. Veio essa tecnologia, que é uma evolução da restauração, e aí foi possível.  A faixa anterior de Elis, "Para Lennon e McCarteny", também. 

A gente está dentro do estúdio, trabalhando com a voz de alguém que não está aqui. Isso é uma fantasia. Ela não ouvindo a gente; só a gente escuta ela. Então, é uma declaração de amor. 

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Por que houve crítica do Cesar Camargo a essa tecnologia?

É uma critica muito pontual e muito pessoal. O que eu falei na época — antes de as coisas virarem uma notificação à Universal — é que é algo que é dificil, é subjetivo. Música é ar vibrando. Acho que esse tipo de assunto é delicado, que deve ser tratado antes ou depois, não durante (o processo), mas já conversamos o que tínhamos que conversar a respeito disso. Respeito a opinião, mas a vida andou.

Só quero levar a Elis, minha mãe querida, adiante. Lembrando que qualquer pessoa pode pegar uma faixa da Elis na internet, extrair sua voz e fazer suas coisas. 

Não tem como Elis cair no esquecimento. Mas esses lançamentos são uma forma de manter a memória dela?

Dez anos depois da morte da Elis, saiu na capa de algum grande jornal: Dez anos sem Elis: como a esquecemos tão rapidamente? Então, não é verdade que as pessoas são inesquecíveis. O Pelé morreu há muito pouco tempo e já está na lista lá longe. Cadê Carmen Miranda, Dalva de Oliveira, Marlene, as cantoras do rádio, Sylvia Telles, Carmen Costa? Precisa trabalhar, sim, não só Elis como todo mundo, para não ser esquecido. Só queria que fosse uma inspiração para outras iniciativas. O que não pode é esquecer.

Ouça a faixa: 

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