Ícone do balé, Ana Botafogo expõe acervo e exalta a dança após os 50 anos
Divulgação/Cassandra Mello
São Paulo - Aos 68 anos, Ana Botafogo pode ser considerada um patrimônio do balé nacional. Brasileira nascida no Rio de Janeiro e com prestígio internacional, Ana fez dessa arte sua bandeira de beleza, devoção e resiliência.
São 50 anos de carreira que a “Ocupação Ana Botafogo”, em cartaz até 21 de junho no Itaú Cultural, em São Paulo, reconstitui por meio de materiais interativos, projeções e elementos cenográficos.
A mostra reúne cerca de 200 peças, grande parte delas vinda do acervo pessoal da homenageada – e que, inevitavelmente, retrata também sua história de vida. Para tanto, Ana abriu as portas do seu apartamento, no Rio de Janeiro, para que a equipe ligada à "Ocupação" pudesse mergulhar no seu arquivo.
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Foi um processo interessante de revisitar a minha própria história”, diz, ao VIVA, Ana, que, há 45 anos, mantém o título de primeira bailarina do Theatro Municipal do Rio.
E, para sua surpresa, nessa “garimpagem” surgiram caderno de infância, provas, cartas e outras recordações. Assim, sua trajetória, já revisitada em livros como "Ana Botafogo: Palco e Vida" (2021), escrito pelo seu pai, Ernani Ernesto Fonseca, ganhou uma nova camada com essa “Ocupação”.
“Já tive uma parte de toda minha história catalogada em pastas, que era uma coisa mais fácil de ver”, conta. “Mas, por exemplo, o que escreveram para mim eu não tinha catalogado. Então, de vez em quando, apareciam uma música, duas ou três poesias.”
Além desses registros inéditos, outros destaques da mostra são uma antiga sapatilha customizada e um tutu original que Ana usava como convidada especial em apresentações do balé "Dom Quixote", em eventos fora do Municipal do Rio.
E, assim como espetáculos como o clássico “La Esmeralda”, a “Ocupação Ana Botafogo” é dividida em três atos, que passam por suas origens, o cotidiano como bailarina e sua consagração como primeira bailarina do Municipal do Rio.
Ao portal VIVA, Ana Botafogo fala sobre a mostra, a carreira e a importância da dança para os 50+. Leia os principais trechos da entrevista:
VIVA - Como foi o processo de abrir o seu acervo pessoal para a "Ocupação"?
Ana Botafogo - Eu não sabia exatamente o que que eles (a equipe) iam querer e fomos conversando. Claro que, além de contar história, das coisas óbvias ou de um retrato que estivesse mais aparente, eles começaram a buscar exatamente o que a gente não via.
Então, fui abrindo caixas e caixas que eu mesma, muitas vezes, não sabia nem o que tinha dentro. Abri algumas caixas junto com a equipe, mas outras caixas, eu ia achando na minha casa ou na casa dos meus pais. Eu abria e já nem lembrava o que tinha ali: cadernos, provas, recordações e cartas. Foi um processo muito interessante de revisitar a minha própria história.
Estamos falando de 50 anos de carreira e 45 como primeira bailarina do Municipal...
Entrei exatamente em fevereiro de 1981, e tive a minha carteira de trabalho assinada, eu era celetista. Então, é um marco, são 45 anos – apesar de agora eu não dançar mais no Municipal, mas sigo ainda com o título. Estou sempre à disposição. Eles me chamam para apresentar espetáculos do Theatro, seja da ópera, da orquestra, do balé.
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Como vê seu papel na popularização do balé?
Sempre foi uma preocupação minha a popularização da dança, e claro que ser jurada hoje no "Dança dos Famosos" ("Domingão do Huck") traz esse quê de popularidade. Na carreira toda, me preocupei em levar minha dança nas praças, nas praias, onde tinha palco ao ar livre.
Dancei muito ao ar livre aqui no Rio de Janeiro e em algumas outras cidades, mas sempre com o intuito que esse público pudesse um dia entrar no Theatro Municipal.
Como vê mulheres e homens descobrindo ou redescobrindo o balé depois dos 50 anos?
Esse movimento de balé adulto, de dança 50+, 60+, 70+, eu tenho acompanhado muito de perto. Primeiro porque sou madrinha de um projeto que se chama Aulão do Bem, criado por Lu Fernandes, que começou a fazer balé depois dos 60 anos. Ela criou essa aula para que todos passam se reunir e fazer o bem, sempre em prol de alguma instituição ou de alguém que precise de ajuda. Sou também embaixadora do Silver Swans, da Royal Academy of Dance, um programa que fala de balé para 55+.
É maravilhoso, porque aqueles que fizeram dança quando jovens estão voltando a fazer, ou aqueles que nunca fizeram dança estão começando a aprender agora.
A dança tem trazido saúde, física e mental, para essas pessoas, e sobretudo um momento de sociabilização. Isso também é muito importante na fase adulta.
E como mantém sua rotina de bailarina hoje?
Eu queria estar mais ativa enquanto bailarina. Hoje em dia, tenho feito mais barras do que propriamente uma aula completa devido a meus tantos compromissos. Faço musculação. Sempre antes das minhas aulas, faço um aquecimento, seja uma barra de balé clássico, sejam alguns exercícios de mobilidade, de alongamento, e um pouco de fortalecimento.
Enquanto bailarina, sempre fiquei seis, oito horas ensaiando. Hoje, minha carga horária é muito menor, mas não deixo de fazer meu exercidio diário. Isso é importantíssimo para a manutenção do corpo e do prazer pela vida.
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Serviço:
"Ocupação Ana Botafogo"
Local: Itaú Cultural;
Endereço: Avenida Paulista, 149 – próximo à estação Brigadeiro do metrô;
Visitação: até 21 de junho de 2026; terças-feiras a sábados, das 11h às 20h; domingos e feriados das 11h às 19h;
Entrada: gratuita.
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