Pandemia causou ruptura drástica em décadas de avanços na saúde do Brasil
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São Paulo - Um novo estudo abrangente sobre a carga de doenças no Brasil revela que a pandemia de Covid-19 representou uma ruptura drástica em uma trajetória de décadas de melhorias contínuas na saúde pública e na longevidade da população.
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O Estudo Carga Global de Doenças, publicado na edição de maio do The Lancet Regional Health – Americas, é a maior pesquisa mundial sobre o impacto das doenças e fatores de risco nas populações de mais de 200 países.
O estudo aponta que, entre 1990 e 2019, o Brasil havia consolidado ganhos significativos, com a expectativa de vida (EV) aumentando 7,01 anos e a taxa de mortalidade padronizada por idade caindo 33,7%. No entanto, a crise sanitária iniciada em 2020 reverteu temporariamente esses avanços, evidenciando fragilidades na coordenação nacional e desigualdades regionais profundas.
Mortalidade e expectativa de vida
As análises baseadas no estudo Global Burden of Disease (GBD) 2023 quantificam o impacto devastador do período pandêmico (2019–2021). Durante esses dois anos, o Brasil registrou um aumento de 27,6% na taxa de mortalidade padronizada por idade. Esse salto na mortalidade teve um efeito direto na longevidade: a expectativa de vida nacional sofreu um declínio de 3,41 anos.
A Covid-19 alterou radicalmente o perfil epidemiológico do País. Em 2021, ela se tornou a principal causa de morte e de anos de vida perdidos por incapacidade, saindo na frente de causas historicamente dominantes como a doença isquêmica do coração e o acidente vascular cerebral (AVC).
O estudo destaca que o impacto foi heterogêneo; enquanto o Estado do benfrentou um recuo de 5,84 anos na expectativa de vida e um aumento de 51,4% na mortalidade, estados do Nordeste que adotaram medidas baseadas em evidências científicas registraram perdas menores, variando entre 2,0 e 2,5 anos na expectativa de vida.
Papel do SUS frente ao negacionismo
Apesar da magnitude do choque, os dados de 2023 trazem um sinal de recuperação. A expectativa de vida nacional subiu 3,58 anos após o pico da pandemia, resultando em um ganho de 7,18 anos no período de 1990 a 2023. Em 2023, as taxas de mortalidade por todas as causas retornaram aos níveis observados em 2019.
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Os pesquisadores atribuem essa recuperação à força e resiliência do Sistema Único de Saúde (SUS). O papel do sistema público foi crucial, especialmente através da retomada de programas de atenção primária, como a Estratégia Saúde da Família e o Programa Farmácia Popular, além da eventual organização da campanha de vacinação, apesar dos atrasos iniciais.
O estudo reforça que o impacto da pandemia poderia ter sido mitigado se houvesse uma coordenação nacional mais robusta e menos resistência às orientações científicas por parte das autoridades federais da época.
Alertas
Embora o Brasil tenha recuperado os indicadores de longevidade, o estudo deixa alertas críticos para o futuro da saúde pública:
- Fatores de risco em ascensão: enquanto o tabagismo declinou, o índice de massa corporal (IMC) elevado e a glicemia de jejum alta tornaram-se os principais fatores de risco para a perda de saúde em 2023, impulsionando doenças crônicas como diabetes e doenças renais;
- Saúde mental: os transtornos de ansiedade surgiram como a principal causa de incapacidade (DALYs) entre as mulheres em 2023;
- Crise de imunização: o negacionismo científico e a desinformação durante a pandemia abalaram a credibilidade das vacinas, resultando em quedas na cobertura vacinal infantil e no ressurgimento de doenças erradicadas, como o sarampo;
- Preparação para emergências: o estudo enfatiza a necessidade urgente de investir em vigilância em saúde e reduzir as iniquidades regionais para que o sistema esteja preparado para futuros choques sanitários.
Sobre o estudo
A pesquisa fundamentou-se no estudo Global Burden of Disease (GBD) 2023, integrando dados sobre mortalidade, morbidade e fatores de risco coletados entre 1990 e 2023 em todo o território nacional e em suas 27 unidades federativas.
Para garantir a precisão, os pesquisadores utilizaram cerca de 3.398 fontes de dados, incluindo o Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) e inquéritos como a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), aplicando algoritmos de redistribuição para corrigir causas de morte mal definidas ("códigos garbage") e ajustes técnicos para subnotificação de óbitos.
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