Fãs se emocionam em show de aniversário de Roberto Carlos; e ele também
Carla Nigro
Cachoeiro de Itapemirim - Fãs de Roberto Carlos cruzaram o país para assistir ao show de aniversário de 85 anos do cantor em Cachoeiro de Itapemirim (ES) — e mostram como a paixão pode atravessar décadas. Antes de chegar, a paulista Vitória Avino enfrentou uma hora de avião, um trajeto de Uber e mais três horas de ônibus. Aos 72 anos, a maratona não é obstáculo — é parte do ritual. Há mais de seis décadas, ela segue o cantor pelo Brasil e pelo mundo. “Ele é tudo para mim”, diz.
Vitória não estava sozinha. De norte a sul do país, fãs também viajaram até Cachoeiro de Itapemirim, no sul do Espírito Santo, para celebrar os 85 anos de Roberto Carlos. O show aconteceu no último domingo, dia 19 de abril, a partir das 20h, no Parque de Exposições Carlos Caiado Barbosa.
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A movimentação começou cedo. Desde as 15h, já havia público na fila. Com a abertura dos portões, às 18h, fãs ocupavam o espaço com diferentes formas de homenagem: roupas azuis e brancas, camisas estampadas e até quadros com a imagem do cantor. Em meio à espera, surgiam coros espontâneos de seus sucessos.
O show começou às 20h20. Em seu tradicional terno branco com detalhes azuis, Roberto Carlos subiu ao palco para um espaço lotado, com cerca de 7 mil pessoas. O cenário acompanhava o clima das canções: nas mais suaves, o cantor se sentava sob um holofote, enquanto o fundo do palco simulava um céu estrelado.
Um dos momentos mais lembrados da noite foi a execução de “Meu pequeno cachoeiro”. Natural da cidade, Roberto Carlos iniciou ali sua trajetória musical, cantando pela primeira vez em uma rádio local. O vínculo com o município segue forte — neste ano, Cachoeiro realizou o “1º Festival do Rei”, com programação dedicada ao artista.
Já estive em muitas cidades no mundo inteiro. Nenhuma é como você, meu Cachoeiro”, disse Roberto Carlos ao iniciar a música.
Ao final, cantou de olhos fechados, com o rosto ruborizado. Ficou em silêncio por alguns segundos, segurando o microfone, antes de fazer uma breve reverência.
Aos 85 anos, Roberto Carlos conduz o público como um maestro experiente, alternando entre a emoção de “Nossa Senhora” — cantada em coro com o público— e o ritmo dançante de “Meu calhambeque” e faz tudo com suavidade.
A plateia era, em sua maioria, formada por pessoas que acompanham o cantor há décadas, mas também havia jovens, muitos deles levados por familiares ou inseridos nessa admiração como uma tradição de família. Esse é o caso da família Dias. Regina Martha, 72 anos, conta que ouvia Roberto Carlos em um rádio de pilha, no interior do estado, por volta de 1970, e sempre soube que ele faria sucesso. “O que é bom a gente reconhece”, diz. Segundo ela, o gosto pelo cantor foi “semeado” dentro de casa.
“Desde o útero minha filha já era acariciada pelo Roberto. Ela só dormia com a música dele.”
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Aos 45 anos, Roberta estava com a mãe no show e confirma a história. Diz ainda que a filha, de 8 anos, também herdou o gosto e que se orgulha da mãe por, em 2023, ter conseguido tocar o braço do cantor em uma apresentação em Cachoeiro.
“Ele representa amorosidade e aconchego. E me lembra o amor de mãe na minha vida”, afirma.
Já a cachoeirense Elisa Lacerda, 28 anos, viveu o momento ao lado da avó, Maria Lacerda, de 85 anos. Cadeirante, ela fez um pedido especial à neta: queria ir ao show. “Normalmente é difícil tirá-la de casa, mas esse foi um pedido diferente. Ela soube do show antes de mim, eu moro em Vitória, mas dei um jeito. Ela ficou contando os dias”, relata Elisa.
“Fiquei muito feliz de ela me trazer aqui. Estou doente, não consigo andar, mas estava esperando o show. Adoro vê-lo cantando”, diz Maria Lacerda.
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Rosas e bolo
O show transcorria sem grandes intercorrências — apenas um casal que ocupou os
assentos errados e um pequeno problema de som — até que um gesto do cantor mudou o clima. Ao sinal de Roberto Carlos, o público começou a se levantar e se aproximar do palco. Ainda não era o momento, mas indicava a aproximação do clímax: a tradicional entrega das rosas.
Primeiro, veio o “parabéns”, puxado pelo público. Em seguida, outro coro, desta vez
liderado pelo cantor e sua banda, enquanto ele cortava o bolo — um momento já tradicional em seus shows de aniversário. Depois, o bolo foi compartilhado com os fãs.
A grande euforia, no entanto, veio com a distribuição das rosas. Uma das pessoas que conseguiu pegar uma — ou melhor, um pedaço de uma — foi Gilmara Dias, 59 anos. Desde a fila, ela já tinha lágrimas nos olhos e mal conseguia falar. “Era meu sonho estar aqui. Esse é o primeiro show dele que estou assistindo”, conta.
Fã há 48 anos, ela nunca havia tido a oportunidade de vê-lo ao vivo. “Foi a vida. Eu só trabalhava. Mas sou fã há muitos anos. Desta vez, meu companheiro me deu o show de presente de aniversário.”
Gilmara levou uma faixa para tentar entregar ao cantor, mas não conseguiu. Ainda assim, saiu com a rosa e a lembrança de um show que descreveu como “tudo de bom”.
Nem todas tiveram a mesma sorte. A mineira Maria Lúcia Rodrigues, 81 anos, não conseguiu uma rosa. “Esse ano eu queria ganhar uma, porque é especial. É a rosa dos 85 anos. Fiquei um pouco chateada”, diz. Ainda assim, relativiza: “Já ganhei muitas. Deixa para quem ainda não ganhou”.
A fã do rei Vitória Avino, que viajou de São Paulo, definiu o show como "muito bom”. E não foi a primeira vez. Ela já acompanhou apresentações do cantor em Las Vegas, Miami, Portugal, cruzeiros e diversas cidades. A única vez em que perdeu um show em Cachoeiro foi por ter perdido o voo. “Foi triste. Liguei para casa chorando”, lembra. Desde então, aprendeu a lição: nunca viajar no mesmo dia da apresentação.
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Momentos importantes de sua vida foram embalados por suas canções: o primeiro encontro com o marido, em um parque de diversões, ao som de “Quando”, e a valsa “Meu imenso amor”, dançada em seu casamento.
Ela também já entrou sem convite no casamento da filha do cantor. “O padre disse que da casa de Deus ninguém tira ninguém. Foi um alívio”, lembra. Vitória afirma ter quase todos os CDs e DVDs do artista e já ter ido diversas vezes ao camarim. “Não dá para descrever a sensação de abraçá-lo."
O marido, já falecido, também compreendia. Não compartilhava a mesma devoção, mas a acompanhava e nunca demonstrou ciúmes. Para Vitória, essa rotina nunca foi exagero. “Você tem uma razão para viver. Hoje, sem meu marido, tenho minhas amigas para ir aos shows”, afirma.
Ela não é a única. A mineira Cássia Maria Teixeira, 66 anos, também encontra no cantor uma forma de atravessar os dias. Em homenagem a ele, fez duas tatuagens: uma com seu rosto e outra com uma frase de uma música.
Às vezes estou triste. Todo mundo tem problemas. Então coloco uma música dele e tudo muda. Ele me traz luz e paz”, diz.
Para quem acompanha Roberto Carlos há décadas, a relação vai além da música. É
memória, companhia — e, para muitas delas, uma forma de seguir em frente.
Vitória resume de outra forma: "As pessoas dizem que gasto muito com isso, mas eu digo: estou investindo na minha felicidade.”
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