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Grandiosa, Laura Cardoso transformava qualquer personagem em protagonista

Reprodução/Instagram @atrizlauracardoso

A atriz Laura Cardoso interpretou mais de 150 personagens, incluindo TV, cinema e teatro - Reprodução/Instagram @atrizlauracardoso
A atriz Laura Cardoso interpretou mais de 150 personagens, incluindo TV, cinema e teatro
Por Adriana Del Ré

18/08/2026 | 12h54 ● Atualizado | 12h55

São Paulo – Yolanda, Guiomar, Dodô, Dona Neném, Nhá Sebastiana... O corpo delicado de Laura Cardoso e seu talento visceral carregavam com a mesma intensidade desde os pequenos personagens até os grandes papéis. E foram centenas deles, em caracterizações memoráveis na TV, no teatro e no cinema, ao longo de mais de 80 anos de carreira.

Como esquecer o olhar carregado de ressentimentos de Isaura, mãe das gêmeas Ruth e Raquel (vividas por Glória Pires), em "Mulheres de Areia", e do ar moralista e julgador de sua Doroteia, que escondia o passado como cafetina, em “Gabriela”?

Laura Cardoso está do lado de Glória Pires
Laura Cardoso como Isaura, mãe das gêmeas Ruth e Raquel, em "Mulheres de Areia" - Divulgação/TV Globo

Aos 98 anos, Laura morreu na noite desta segunda-feira (17), de causas naturais enquanto dormia, em sua casa, em Sâo Paulo, deixando como legado essa grande galeria de personagens. Ela foi também uma das atrizes mais longevas da história da dramaturgia no Brasil.

Mesmo não seguindo métodos rígidos de atuação, a atriz intuitivamente fazia o que o russo Konstantin Stanislavski – criador de um sistema que balizou a interpretação de atores e atrizes mundo afora – chamava de corpo psicofísico, que é a união indivisível de corpo, voz e mente.

A interpretação de Laura concentrava essa unidade, mas sua escola de atuação foi outra. Nascida Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni, no Bexiga, em São Paulo, no dia 13 de setembro de 1927, ela era filha de Adriano Cardoso e Carolina de Jesus Cardoso, camponeses que migraram de Portugal para o Brasil.

Tive um pai autodidata, foi ele que me ensinou o gosto pela leitura que tenho até hoje”, disse Laura, com orgulho.

Início da carreira

Apesar de enfrentar a resistência dos pais, Laura Cardoso iniciou sua carreira aos 15 anos, fazendo radionovelas, na Rádio Cosmos, em São Paulo, na década de 1940. Foi nessa época que ela adotou o nome artístico Laura, por ser mais sonoro. 

Após a chegada da TV, em 1950, a atriz migrou para a telinha, caminho natural que trilharam os pioneiros da televisão, assim como Lima Duarte, Lolita Rodrigues e Vida Alves, entre tantos outros. Àquela altura, ainda não existia um modelo de se fazer TV no Brasil; por isso, os talentos eram garimpados no teatro e no rádio.

Como ainda não havia as novelas como conhecemos hoje, as peças de teatro eram reproduzidas na televisão. Uma das primeiras contratadas da Tupi, Laura debutou na TV naquele início dos anos 1950, no "Tribunal do Coração", a convite da amiga Vida Alves, autora do programa – e que ficou conhecida como a primeira atriz a protagonizar um beijo na TV. Versátil, Laura também integrou o elenco de telenovelas da Tupi.

Ascensão na TV

Laura Cardoso está de pé, mexendo conteúdo dentro da xícara, para entregar para o ator que faz seu filho no filme "Através da Janela"
Laura Cardoso em cena do flme "Através da Janela", de Tata Amaral, lançado em 2000 - Divulgação/IMDb

Enquanto ascendia na TV, Laura fez sua estreia profissional no teatro, em 1959, na peça “Plantão 21”, de Antunes Filho, e no cinema, em 1962, no filme “O Rei Pelé”. A partir do final dos anos 1960, a atriz passou também por outros canais, como Bandeirantes (atual Band) e Record, até receber convite do diretor Daniel Filho para estrear na Globo, na novela 'Brilhante', de Gilberto Braga, em 1981, como Alda Sampaio, mãe da protagonista Luiza (Vera Fisher). 

Depois, voltou para a Bandeirantes, onde participou das novelas "Ninho da Serpente" (1982), de Jorge Andrade, e "Renúncia" (1982), de Geraldo Vietri, até retornar em definitivo para a Globo, em 1983.

Foi na emissora carioca que Laura consolidou sua carreira na TV, onde fez uma sequência de novelas históricas, como "Pão Pão, Beijo Beijo" (1983), "Fera Radical" (1988), "Mulheres de Areia" (1993), "A Viagem" (1994), "Gabriela" (2012) e, mais recentemente, "O Outro Lado do Paraíso" (2017).   

A coadjuvante que era protagonista

Laura Cardoso está sorrindo e olhando para o alto
Laura Cardoso na cena final de sua personagem Caetana, em "O Outro Lado do Paraíso" - Reprodução/TV Globo

Apesar de nunca ter feito uma grande protagonista no longo período em que trabalhou na Globo, Laura Cardoso, não raro, ofuscava os atores principais com a grandiosidade de sua interpretação, mesmo em papéis como coadjuvante

E teve o aval de quebrar a "quarta parede" da TV – termo dado àquela barreira imaginária que separa o mundo da ficção e público – ao olhar diretamente para a câmera e buscar a cumplicidade do telespectador como Dona Sinhá, em "Sol Nascente"; ou ao flutuar ao som de Pabllo Vittar, em "O Outro Lado do Paraíso", representando poeticamente a morte de sua personagem Caetana. Cenas que só uma grande dama da dramaturgia poderia proporcionar.

Seu último trabalho em uma novela foi "A Dona do Pedaço", de 2019.

Laura Cardoso deixa duas filhas, três netos e um bisneto – e mais de 150 personagens eternizados na história da TV, do cinema e do teatro. 

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