Irreverente, Falcão inova com disco 'Sério': 'interpretação estilo MPB'
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São Paulo - No dia da audição de seu novo disco, "Sério", realizada pela primeira vez para a imprensa no estúdio do produtor Rick Bonadio, em São Paulo, o cantor Falcão era um misto de alegria, inquietação e ansiedade. O motivo é compreensível: após mais de 30 anos confortável em um repertório forjado por um humor mais despajado — flertando com o brega e outros estilos musicais —, o artista cearense de 68 anos se desafiou com um trabalho, como adianta o título do álbum, "mais sério".
É a ideia de fazer uma coisa realmente diferente, sabendo que vai causar um certo estranhamento", diz Falcão.
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Essa proposta partiu do próprio Bonadio, conhecido, sobretudo no meio pop rock, por descobrir talentos com potencial comercial, como aconteceu com bandas como Mamonas e Charlie Brown Jr. "Eu lembrava das entrevistas dele de antigamente, em que ele falava: 'meu disco é uma esculhambação, minhas músicas são uma esculhambação'. Falei para ele: 'faz um disco sério que vai ser a esculhambação'", conta o produtor.
Falcão estava há dez anos sem lançar um disco de estúdio quando o procurou. Além da admiração mútua, os dois já haviam trabalho juntos quando o cantor gravou "Renato, o Gaúcho", composição inédita dos Mamonas, em 2012. "O Falcão teve uma influência muito grande na criação dos Mamonas", afirma Bonadio, que foi com os "meninos" ver um show dele.
Participações especiais
Com dez faixas, "Sério" é um disco essencialmente nordestino. A irreverência, marca-registrada do artista, foi mantida no projeto, mas há um esmero maior na sonoridade, além de uma lapidação nas interpretações de Falcão, algo com o que o próprio cantor confessa não ter se preocupado ao longo da carreira.
No forró "Só Tenho Um", ele faz dueto com Elba Ramalho. No baião-heavy metal "Jumento Celestino", regravação dos Mamonas, é acompanhado pela marcação potente da guitarra de Bonadio.
Mas é em "Beleza" que esse cuidado com o lado intérprete de Falcão fica ainda mais evidente, numa bela comunhão de vozes no dueto com Fagner — que é também coprodutor. O álbum traz ainda outras participações especiais, como Zeca Baleiro e Sérgio Britto (dos Titãs).
Leia mais na entrevista a seguir:
VIVA: O que o álbum "Sério" significa para sua carreira?
Falcão: Marca um experimento. Essa é uma ideia de Rick Bonadio: fazer uma coisa que saia da caixinha. Já que tem tanta gente fazendo coisa ruim, vamos fazer uma coisa melhor, porque isso será um ponto de inflexão quando a pessoa pegar aquele álbum e ver que o Falcão está cantando coisas que não são de praxe ele cantar.
Experimento, inclusive na parte interpretativa, porque sempre cantei as coisas sem ter o cuidado de ser um intérprete e agora entrei no clima de fazer uma interpretação estilo MPB clássica.
É fazer um trabalho diferente, apostando na sensibilidade das pessoas e também naquele público que está saudoso de ouvir uma coisa mais apurada, vindo de um cara que sempre fez a coisa sem nenhum esmero musical. O esmero que eu tinha era mais na questão do humor, na filosofia ‘cornífera’.
O trabalho passa por diferentes gêneros musicais...
Como todo trabalho meu, é uma certa miscelânea. Mesmo fazendo aquela coisa humorística, tinha rock, reggae, forró, brega, e, nesse trabalho também, tem alguns forrós, alguns rocks, música de MPB dos anos 1970. Por exemplo, regravei música que o Fagner gravou em 78, 79. A gente não estava muito interessado em um ritmo predominante. Era mais para mostrar o Falcão eclético, cantando esses ritmos todos e com uma mensagem mais emotiva.
Seus fãs te acompanham há décadas, mas tem uma geração mais nova descobrindo você, até pelo tipo de música e pela verve do humor?
O que percebo é que meu trabalho está sempre renovando público. É interessante fazer esse trabalho, porque eles não só vão me "redescobrir", mas vão redescobrir muita gente que estou regravando nesse álbum. Além de Fagner, temos música de Capinam, que estava no Festival de Música da Record em 1967, música de Luiz Carlos Porto, um roqueiro cearense que fez grande sucesso nos anos 70 com a banda O Peso. Nosso álbum está ajudando essa geração nova também a redescobrir esse povo, além de redescobrir o Falcão.
Pensando no seu público mais antigo, qual faixa etária hoje?
Acho que está na faixa dos 45, 50 anos, esse pessoal que era 5ª série no tempo em que comecei e que continua, de certa forma, ainda na 5ª série. Nesse intervalo de dez anos sem disco novo, tenho lançado algumas coisas e quanto mais 5ª série lanço mais aparece gente gostando.
Essa geração está órfã desse tipo de coisa, porque não tem mais Mamonas, Falcão passou um bocado de tempo sem gravar, mas esse povo está ali na espera.
Quais são seus grandes sucessos até hoje?
Por exemplo, aquela fase inicial em que eu gravei clássicos do brega nacional em inglês. São coisas que o pessoal sempre pede. Tem algumas coisas que uma parcela da mídia e do público não aguenta ouvir, porque tem muita coisa incorreta do ponto de vista sexual às vezes, mas o público ainda pede que eu cante em shows. Não posso cantar em muitos lugares, mas ainda é uma coisa muito pedida.
Acho que o povo gosta mais também da maneira como eu coloco essas questões. Não é o humor pelo humor. Sempre faço uma questão meio filosófica para induzir o sujeito a pensar um pouco mais. O humor é só para o cara ter interesse de ouvir pela primeira vez, e depois ele volta para ouvir e entender o que eu quis dizer no meio daquilo ali.
Como “Holiday Foi Muito”, cantei em alguns lugares em que as pessoas se retiraram (a refrão traz: Porque homem é homem/Menino é menino/Macaco é macaco/E viado é viado). Não se pode mais falar, porque é a questão LGBTPQRSXYZ, não sei quantas letras. Outras como “Você é a Letra X da Palavra Love” e “I’m Not Dog No” as pessoas ainda curtem bastante.
Ouça o novo disco:
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