Memórias de Glória: o legado dos concursos de fantasia de Carnaval
Carlos Reis / Arquivo Pessoal
São Paulo, 16/02/2026 - No último desfile do Carnaval de 2026, Nelcimar Pires é um dos destaques da Salgueiro. Fiel à magia e ao luxo carnavalesco, ele usará uma fantasia com três mil rosetinhas feitas à mão. “Senhorinhas” passaram cerca de quatro meses sentadas lado a lado, fazendo as rosetinhas que cravejam a roupa. Cinco das oito costureiras envolvidas já agulham as ideias de Nelcimar desde os anos 2000, quando ele participava do Concurso de Fantasia do Hotel Glória.
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Nelcimar é o último hors-concours do concurso. Recebeu a honraria de não poder mais competir depois de ganhar cinco vezes. Hoje, aos 60 anos, continua produzindo as fantasias e as apresenta para o Brasil inteiro, na Sapucaí. “Eu nunca fui de avenida, eu sempre fui dos salões. Mas hoje eu estou na avenida porque é onde você pode exibir a sua roupa”, confessou.
A competição viveu mais de 40 anos, marcando os nomes de Evandro Castro Lima e Clóvis Bornay. Chegou a ser televiosionada na TV aberta, mas morreu junto com seu organizador, Arnaldo Montel, em 2008. O hotel na Rua do Russel, Zona Sul do Rio de Janeiro, foi vendido.

Logo na primeira participação no concurso, com uma fantasia inspitada em Getúlio Vargas, ganhou menção honrosa. “Da vida para a história”, foi intitulada. No segundo ano, em 2001, ficou em terceiro lugar com “O Mago das Ilusões”. Em 2002, subiu para a terceira colocação comm “O Grande Pajé”. Depois, ganhou cinco vezes seguidas:
- Um Arlequim em Veneza, em 2003
- O Rei Sol, em 2004
- O Arcanjo da Paz, em 2005
- Luiz XVI… O Rei Sol, em 2006
- Zongundak O Príncipe do Mar Negro, em 2007
Quando eu pegava o figurino, eu começava a imaginar ele desfilando na passarela. Mesmo tendo o peso dos bordados, tinha que mostrar a leveza. Comecei a ver as estruturas de ferragem, de bordados, como que eu poderia fazer para a fantasia mostrar luxo e leveza", disse.
Segundo Nelcimar, os materias usados hoje são bem mais leves, mesmo seu figurino de 2026 pesando cerca de 58 quilos. Na avenida, ele aponta que as roupas são bem diferentes das feitas para os concursos. "Você confecciona uma roupa para ser vista à distância. Se você joga umas pedrinhas, vai brilhar de todo jeito. Se você usa material mais trabalhoso, mais costura à mão, vai dar a mesma coisa e e ninguém nem vai estar nem aí", disse ao se lamentar sobre o uso dos materiais atuais.
Da passarela para a avenida
Já Carlos Reis encarava o Glória como um “teste de qualidade” para a fantasia que fazia para a escola de samba e os desfiles de Carnaval. “Eu fazia a fantasia e desfilava no concurso para ver se estava perfeita. Se não acontecesse nada, se não desmontasse nada, na avenida ia ser um sucesso”, disse. Ele desfila com a Portela há 42 anos.

Contou que foi a cantora Clara Nunes quem o fez prometer que iria participar do desfile logo na primeira vez que foi levado ao ensaio pelo companheiro. Em 1984, depois que ela morreu, Carlos cumpriu a promessa usando uma fantasia que a homenageava, e nunca mais saiu da escola.
Quando o carnavalesco desenhava os figurinos da escola, Carlos escolhia o que mais gostava para montar, em cima da fantasia que combinava com enredo, uma proposta para o concurso no final dos anos 90. Criava com o estilista Edmilson Lima, usando a criativida para tornar as fantasias reais e praticáveis. “Quando ia para o Hotel Glória, fazia questão que anunciassem que a fantasia ia desfilar na Portela”, disse.

Nunca ganhou, de fato, o concurso. Ganhou outros, mas no Glória estava sempre entre os cinco primeiros colocados e chegou a ficar em segundo lugar, contou. Aos 73 anos, continua na avenida pela Portela.
A juventude tem que entender o que é o Carnaval, não tornar essa frieza”, disse Carlos.
A Noiva
26 anos atrás Charles Henry e o marido estreavam e ganhavam o concurso de fantasias do Glória. Na categoria Originalidade Masculina, levaram o prêmio dos anos 2000 com “Noiva de Van Gogh”. Os dois eram donos de um salão de beleza em Ipanema, que trabalhava em conjunto com um ateliê de noivas, cuja estilista foi convidada para o concurso.
O corpo de Charles foi tela em branco para Rose do Lima, que criou e confeccionou a peça, e Jorge Augusto, seu ex-marido, que fez conceito e maquiagem da fantasia. Os dois já faleceram, mas tiveram o trabalho eternizado pelo concurso. A foto de Charles usando o vestido de noiva com aplicações de girassois, o buquê de trigo e o rosto pintado de gueixa ganhou uma página inteira na Revista Manchete.

“Ganhar foi a Glória no Hotel Glória. Imagina tudo isso para um menino recém chegado do interior de Minas Gerais. Ganhar um dos maiores concursos de fantasias do Brasil e no dia seguinte estar estampado em todas as revistas da época”, contou. Hoje, aos 53 anos, garante: “nunca vou me esquecer. Foi o Carnaval dos sonhos”.
Depois, o time retornou ao concurso em 2001, com “Sonho Oriental”, e ganharam o segudo lugar. O concurso já caminhava para seu fim naquele momento. “Aquele Glamour todo, fantasias incríveis, muito luxo em todas as categorias, as revistas que tinham seu peso e estampavam para todo Brasil um carnaval que não volta mais”, afirma Charles.

Memórias dos anos de Glória
Nelcimar ainda defende a volta dos concursos, “em grande estilo”, disse. Para ajudar a manter essa cultura carnavalesca ativa, hoje alimenta uma página no Instagram, de passado e de futuro.
Os antigos registros de fantasias apresentadas no Glória, que só são encontrados em revistas Manchete da época, foram cuidadosamente escaneados e intitulados por ele. Já as fantasias que surgem, feitas atualmente pelos colegas de Carnaval, são rapidamente fotografadas para serem catalogadas na página.

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